O algoritmo

por Abilio Godoy

Quatro meses solteiro, trinta e dois anos de solidão, reencontro destrutivo com a ex no fim de semana e me vejo, na segunda, encarando o questionário do aplicativo que uma amiga recomendou. Este programa é melhor que os outros, ela me disse, porque seleciona as pessoas com quem você tem mais afinidade. Veja bem, tento argumentar comigo mesmo enquanto me submeto à bateria de perguntas, você até poderia raspar o fundo da sua consciência à procura de alguma indignação contra esta preguiça de ir lá fora conversar, mas é segunda-feira e você não vai achar ninguém na rua. E, depois, quem tem paciência de esperar o médio prazo, hm? Quem tem tempo para encontros aleatórios que desmoronam de repente num comentário racista que chega a revoltar os seus leucócitos? Ok, então, computer, eu me rendo às linhas mecânicas do seu algoritmo. Procure você, para mim, o meu reflexo na superfície do lago. Encontre, na multidão de gente inadequada, a mulher das respostas certas, para dividir comigo a minha jaula e os meus antibióticos.

Celular, celular meu, existe por aí alguém assim perfeito que nem eu? Olha, majestade, 100% perfeito, hoje não vai estar tendo; mas essa daqui é 96% e parece bonitinha. Pois bem, meu querido Sancho ciborgue; vá dizer a ela que estamos satisfeitos com seu design e sua compatibilidade. Ela mandou dizer que também curtiu o senhor. Filho de Turing! Seus serviços são valiosos. De quantos jantares incômodos, de quantas buscas frustradas, você me poupou? Quanto tempo eu levaria para encontrar sozinho alguém tão conveniente? Numa dissonância de 4% não devem caber nem os sete erros do jogo.

À medida que trocamos mensagens, a garota e eu medimos o ajuste fino da nossa pressuposta sintonia, que vai resistindo sólida aos exames preliminares e provocando em mim algum encantamento… até que discordamos do primeiro adjetivo. Ela prefere a palavra clássica para se referir à musica de concerto, e eu me dou melhor com o termo erudita. Em poucos minutos, para a minha angústia, nos vemos num furioso arranca-rabo retórico em que ela me acusa de ignorância e esnobismo, enquanto me esforço para apontar no seu discurso uma certa apologia da indústria cultural. Não demora para estarmos tão irritados um com o outro que precisamos interromper o diálogo.

Lembro-me então de uma infinidade de discussões semelhantes que tive com amigas e amigos, ex-namoradas e ficantes, colegas de classe ou profissão. Tudo gente parecida comigo, que divide comigo visões de mundo muito próximas e convicções políticas semelhantes. Penso nas incontáveis ocasiões em que, em vez de unir forças para qualquer projeto oportuno de qualquer intervenção coerente, nós insistimos em esmiuçar nossas diferenças e nos entrincheirar em nossas vaidades por causa de um único grão de discórdia, de uma ligeira dissonância qualquer.

Deixo o celular de lado, triste, menos com o desfecho da anedota do que com a impressão crônica de que cada vez mais nos isolamos no nosso narcisismo galopante. Não, eu não tenho dúvida de que é melhor ser contestador do que conivente, de que se deve estar, sempre que possível, atento aos meandros duvidosos dos discursos; não quero de modo algum propor uma atitude café-com-leite para qualquer tipo de conversa e tenho, no pensamento crítico, a fé inamovível de um fanático. Mas, também me pergunto se, nesse esforço constante de criticar o mundo, às vezes não nos tornamos caricaturas da própria crítica; se nessa vontade de ser corretos não há certo prazer em ser melhor que o outro; se, ao exagerarmos na patrulha, não nos reduzimos também ao automatismo do algoritmo e nos limitamos a buscar, na fala alheia, os trechos que poderemos grifar em vermelho.

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