Facebook nas ruas

por Rodrigo Linhares

Saio de casa na manhã de sábado e, ao virar a esquina com a av. Brigadeiro Luis Antonio, dou de cara com um dos motivos de minha indisposição em relação a passeatas – todas elas.

Um deles, talvez o principal, é mesmo a impressão de que o acirramento dos ânimos, agora, no melhor dos casos, é apenas inútil. No pior deles, é um desserviço. Antes de exigir a guinada à esquerda, aquela que deveria acelerar, de uma vez por todas, o passo lento da melhoria dos índices sociais pelos governos lulistas, seria bom, talvez, que deixássemos de olhar apenas para o espelho. Quem sabe passar em revista nossas próprias fileiras? A quantas anda, hoje, o exército de Brancaleone? Tem ele alguma capacidade de ser propositivo – ou melhor, tem ele alguma capacidade de sustentar politicamente sua proposição?

Mas não foi isso o que me paralisou a caminhada. Ali, em um muro branco da av. Brigadeiro Luis Antonio, alguém havia escrito: Mate os homens.

O assunto exige todo o tipo de cuidado e uma introdução longa: reconheço a violência e o desconforto a que mulheres, cotidianamente, estão submetidas; reconheço o direito de uso político do espaço público por quem quer que seja – reconheço, inclusive, razões em atitudes mais ou menos selvagens que venham a aflorar em tais momentos.

Não me esqueço de que o principal problema, agora, é o do retrocesso no debate de como ampliar direitos, o retrocesso no debate a respeito de exclusões e violências historicamente impingidas.

Ainda assim, não há como não fazer o paralelo: muitas vezes, durante as passeatas pelo impedimento da presidente, argumentou-se que as mensagens que pediam a derrubada do atual governo através de um gesto militar não apenas não refletiam o espírito que reinava entre a maioria dos manifestantes (sarcástico, eventualmente agressivo, mas legalista) como também eram produzidas por sabotadores – ou ingênuos. De outro lado, entre os ativistas de esquerda (governistas ou não), era óbvio essa desculpa não colava, que essas mensagens apenas sintetizavam o que estava disperso naquela multidão. Eram declarações abertas daquilo que a maioria dos manifestantes considerava justo, ou necessário, mesmo que eles não tivessem a coragem de dizê-lo francamente.

E o que fazemos com isso, agora? Mate os homens.

Não faz muito tempo desde que nós saudamos a subida de tom nos debates como uma benéfica polarização. Como aquilo que faria engrossar nossas fileiras, aquilo do qual retiraríamos força para ordenar as ideias. Mas tornamo-nos, em grandes grupos, uma espécie de materialização do Facebook: emissores de opiniões que ficariam melhores se não fossem efetivamente opinadas. Concorrentes, uns contra os outros, na arte publicitária de produzir sensação. É como se estivéssemos, todos, atendendo a um único chamado: vamos, gente, vamos dar aquilo que temos de pior.

E me pergunto: quanto pior pode ainda ficar se todo mundo concorda, parece, que é piorando que se faz o caminho?

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