Chato, para mim, é um piolho.

por Abilio Godoy

Parece que a moda veio mesmo para ficar. Já há algum tempo ressurgem com frequência, na mídia narcisopolitana, matérias em que escritores e críticos diagnosticam como um dos maiores problemas da literatura narcisolandesa contemporânea o fato de ela ser muito chata. A exemplo do escritor nacional mais vendido no exterior – que, dia desses, ousou brandir tão refinado predicativo contra a obra de James Joyce – aquela galera descolada (que inclui de fedelhos a velhinhos veteranos) acha que a função da literatura é mesmo a de cativar o público – e, sobretudo, os jurados dos prêmios literários – para, numa consequência discreta, quase acidental, encher os próprios bolsos de grana.

Essa populosa turminha hispter-pós-moderna gosta de frases de efeito e tiradas irreverentes. Dizem que a literatura morreu, que a arte morreu, que a história morreu como quem diz que prefere seu café sem açúcar, com aquela convicção blasée de que sua bem polida personalidade gourmet será admirada de imediato por seus interlocutores. Não desconfiam, contudo, que talvez o que esteja morrendo, não só no seu discurso, como por toda parte, seja qualquer objetividade da crítica. Talvez o que apodrece não seja a literatura, nem a arte, nem a história, mas a noção de que é preciso, ou pelo menos recomendável, que se analisem os conceitos, que se fundamentem as opiniões e que se discutam os valores antes de estampá-los em jornais que se parecem cada vez mais com páginas de Facebook.

Acontece que, como tantas chatas e tantos chatos tantas vezes nos disseram, não se admira o trabalho, coisa de escravo, aqui na Narcisolândia. Não, senhor; aqui vale antes o drible, o improviso, o repente, o trocadilho. Esforçar-se para que, hein, quando se tem genialidade e malemolência? Para que arar o solo na terra onde tudo dá? Quem é que precisa de erudição do lado de baixo do equador? O que nos interessa o que outras pessoas de outros lugares ou outras épocas discutem sobre a nossa condição humana? Não precisamos de nada disso. Literatura erudita, música erudita, cinema erudito, arte erudita? Tudo isso é muito chato. Divertido é tuitar na espera do restaurante chique, é passar horas na fila da exposição do programa infantil, é pagar vinte reais na pipoca que entope nossas veias enquanto a gente se aliena e realiza a fantasia adolescente de se imaginar com superpoderes.

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