Sobre comunicação, centrão, discursos partidários, um bebê e a difícil frente democrática

por Rodrigo Linhares

O já falecido Norberto Bobbio, filósofo da política, tem um livro escrito lá nos anos 90 que é uma pequena preciosidade: “Direita e esquerda – razões e significados de uma distinção política”. Nas últimas páginas do curto ensaio – faço a menção de memória, com acréscimos imagísticos, já que não o trago aqui comigo – ele confessa, em tom emocional, que sua intenção era tentar ordenar, com algum esclarecimento a respeito do par conceitual direita-esquerda, a tagarelice característica da cultura política italiana, um aspecto ao mesmo tempo dominante e deprimente. Incomodava-o a fala descontrolada por trás de uma efusiva produção de manifestos (que quase ninguém realmente lia) e de discursos (que, na verdade, eram secundários em relação ao que, de fato, parecia ter mais importância: a disputa pelo tempo de posse do microfone).

Tenho me perguntado como seria possível conversar realmente, sem tagarelice – algo que eu conceituaria aqui como uma pseudoconversa, uma troca de falas e discursos que não chegam a se tocar, a se encontrar de fato. Que não chegam a se influenciar mutuamente. Seria possível, ainda, conversar com franqueza e honestidade? Sem pontificação (ou, em linguagem contemporânea e juvenil, sem lacração)? Encarando o interlocutor, qualquer que seja, como um sujeito que tem tantas razões quanto eu (eventualmente um pouco menos sofisticadas que as minhas ou, pelo contrário – como costuma acontecer comigo mais frequentemente – muito mais sofisticadas que as minhas)? Um sujeito com tantas razões quanto eu e o mesmo desejo de que as coisas fiquem bem?

Não é uma pergunta retórica. Tampouco singeleza de espírito em excesso, acho. Sem que sejam encaminhados através de conversas reais, os apelos pela formação de amplas frentes democráticas, contra a direita boçal, vão cair no vazio.

Conversar realmente passa, logo de início, pelo estabelecimento conjunto de um solo mínimo de continuidade, de empatia. Sobre essa comunidade pressuposta é que as tensões e divergências devem ser invocadas. O que normalmente significa oscilar entre os extremos da arrogância (o abuso da crítica) e da condescendência (o abuso da empatia) sem tocar em nenhum dos dois. Se a conversa mira um convencimento qualquer (se é que toda conversa não seja uma tentativa, mesmo que mínima, de convencimento) então trata-se de se estar um pouquinho assim mais preocupado com a crítica do que com a manutenção intacta do sentimento empático.

Apreendida em seu processo, uma conversa – uma boa conversa – deve ter algo de uma dança, com aproximações, afastamentos, novas reaproximações (que não repetem inteiramente as afinidades anteriores) e novos afastamentos (que não repetem inteiramente e as divergências anteriores). No fim das contas – aqui está a mágica – algo de novo pode surgir.

Uma boa conversa tem algo de triunfante. E é realmente um triunfo – sempre provisório e sujeito a reversões, claro. É a vitória temporária do moral sobre o atávico, do macaco humano premido pela civilização sobre o ânimo destrutivo do macaco eterno e interno (“que só quer respostas simples, certezas absolutas e destruição de quem não pensa como ele”)

Falas que provocam a escuta e convidam à conversa (diferentemente dos excessivos manifestos e discursos que aborreciam Bobbio) trazem aberturas e convites para que o outro dê um passo adiante. Não abusam do entusiasmo, de lógicas azeitadas e fatais ou de verdades exclusivas e intolerantes. Falas que convidam à conversa repudiam fechamentos e ditos peremptórios. Evitam aqueles silêncios que caem como meteoros.

A acordo último, afinal, que permite o surgimento de uma conversa é a admissão da possibilidade de que o desconforto causado por opiniões diversas, mesmo aquelas que contrariam frontalmente os meus afetos, possa eventualmente ser recompensado com a revelação de algo de precioso e, antes disso, oculto pra mim. A possibilidade da realização de conversas se anima na perspectiva da produção de divergências produtivas. E de que conseguiremos sobreviver a isso.

***

Teorizar sobre as dificuldades de um solo comum e consistente capaz de abrigar uma comunicação interpartidária intensa, e que poderia conformar uma oposição unida ao governo Bolsonaro, talvez não seja fácil.

Uma parte da ciência política brasileira creditava à prevalência do centrão fisiologista a impossibilidade de um jogo franco e direto (crítico, mas realizado em ambiente de continuidade empática) entre uma centro-esquerda e uma centro-direita ideológicas, como acontece em democracias mais consistentes que a nossa. Cavalgar o centrão (na verdade, comprar o centrão – atendendo seus parlamentares com recursos orçamentários) aparecia como a única possibilidade de sobreviver como liderança de governo.

O centro político é o efêmero lugar onde ocorre a difícil emenda das pontes lançadas a partir de cada um dos lados do espectro partidário. É o lugar do acordo. Parasitado pelo centrão, no entanto, a existência do centro torna-se mais difícil, aquisitivamente mais custosa e insatisfatoriamente mais lenta. O pemedebismo poluiu a comunicação.

Podemos, no entanto, questionar o modo pelo qual o pemedebismo vem atuando como ruído na conversa entre os partidos. Quanto disso não poderia ter sido revertido?

Em algum momento, PT e PSDB (com o apoio compassado de outros partidos ideológicos, à direita e à esquerda) não teriam podido, talvez, através de um acordo direto, que saltasse por cima do centrão, definir novas regras do jogo político em que a sobrevivência dos parlamentares-fisiologistas fosse atingida?

Qual teria sido o bloqueio a um avanço como esse? Uma insuperável repulsa ideológica entre os partidos de esquerda e direita (então nesse caso, paradoxalmente, o exclusivismo ideológico teria reforçado o fisiologismo em uma espécie de “não quero nem conversar”)?

Ou o estrago causado pela metástase do fisiologismo em partidos a priori ideológicos de ambos espectros foi tão rápido e tamanho que qualquer acordo que pudesse dinamitar o centrão logo deixou de ser considerado plausível (e, nesse caso, o primado exclusivo do fisiologismo é que teria se conformado em uma espécie de “não consigo nem conversar”)?

Nas últimas eleições, a grande reconfiguração dos poderes Executivo e Legislativo, não apenas no governo federal, mas em muitos estados, fragilizou o centrão e foi ainda mais dura com a direita tucana (que teve uma grande quantidade de votos desviada para a direita boçal). Goste-se ou não, a organização de uma frente de oposição ao governo Bolsonaro não pode deixar de passar também por esse partido. E para isso, é inevitável compreender as origens, a permanência e os aspectos do jogo duro de incomunicabilidades entre o PT e o PSDB. Seria possível desfazer a histórica prática comunicativa entre os dois partidos em que a linguagem aparece como continuação da guerra por outros meios?

***

Tenho uma filha pequena, de menos de dois anos e que, todos os dias, passa algumas horas na creche. Fico imaginando que, um dia desses, logo depois de acordar, terminada a mamadeira da manhã, ela bem que poderia, numa súbita decisão, me perguntar num idioma assim fluente: “Pai, as pessoas falam muito da situação política brasileira. O que você acha?”

Suponha que eu responda reproduzindo certa corrente de opinião que sopra por aí: “Filha, você nasceu em um país que, meses antes, passou por um golpe de Estado. Um golpe jurídico-parlamentar. Desde então deixamos a normalidade democrática e vivemos um estado de exceção, com perseguidos políticos presos e uma eleição que se realizou de maneira ilegítima. Isso tudo, em última instância, como resultado de uma ação promovida pelos Estados Unidos, que são incapazes de tolerar que uma nação como a nossa possa se arvorar como potência autônoma. A CIA (os espiões deles), em um congresso que reuniu jornais, juízes, banqueiros e empresários, numa espécie de Foro de São Paulo de direita (você não sabe o que é Foro de São Paulo, mas eu te explico depois) articulou o consórcio que derrubou o governo que havia começado a afrontar uma estrutura imovível de privilégios, promovendo distribuição de renda e aprimoramento dos serviços públicos. Então, ano que vem, um pouco antes do seu aniversário de dois aninhos, ainda com a normalidade democrática suspensa, despencaremos em um regime de reação – autoritário, fascista, como na Europa em meados do século passado.”

Um discurso como esse é ilógico?

Pelo contrário. Tem até uma lógica excessiva. Uma lógica tão inexpurgável que vai até – sem querer polemizar de um jeito barato sobre isso, mas sem poder evitar dizer – contra um senso de realidade, digamos, mais cotidiano. As ações, atendendo à uma vontade centralizada e planificadora de derrubar um governo, acontecem num mundo sem atritos onde interesses diversos se encontram, acordam entre si sem dificuldade (sem os obstáculos mais que frequentes dos mal-entendidos e dos caprichos humanos) e, por fim, operam e realizam-se num mundo transparente onde ações, consequências e reações acontecem de forma quase conceitual.

É mentiroso?

Tem verdades, tem falsidades. Como quase tudo na vida. (E na minha opinião – que, para o desenvolvimento do argumento, é indiferente, mas vá lá, melhor dizer logo – tem mais verdades que falsidades.) Mas fala também muito mais do nosso desejo e menos, talvez, de coisas que possam confrontá-lo. Até certo ponto, tudo bem – isso, de qualquer forma, é inescapável.

Mas retomemos a história da bebê.

Imagino que, voltando para casa, no fim da tarde, milha filha me diria. “Pai, levei uma mordida no braço. Repeti o que você disse e fui chamada de petralha e de corrupta. Me disseram que a Lava Jato é a maior prova de que as instituições funcionam como nunca; que temos um Ministério Público independente, uma Justiça que cumpre o seu papel com brilho e uma polícia federal competente e ativa. As estruturas da corrupção foram expostas e um governo higienizador foi eleito democraticamente pela maioria para acabar de vez com isso.”

A mordida, no fim das contas, eu poderia ter previsto e evitado. Porque ansioso e finalista como sou – sem me preocupar realmente com o funcionamento dos meios – deixei pra lá uma coisa importante que poderíamos chamar de “estratégia de linguagem”. A mordida como reação estava ali na minha fala, em estado de latência, de possibilidade, desde que, como resultado de uma estratégia de linguagem que eu mesmo utilizei – abusando do entusiasmo, da lógica e da verdade – brecha alguma foi deixada em aberto para que o outros pudessem também avançar e, civilizadamente, questionarem o que ouviram.

Uma coisa dita em tons e formas pontificatórias e lacradoras dificilmente é capaz de suscitar outra coisa que falas ditas também em tons e formas pontificatórias ou lacradoras (e às vezes violentamente). É incapaz de provocar conversas reais, em que as diferenças são aparadas. E mesmo, em sentido contrário, é incapaz de provocar conversas reais em que as diferenças são exasperadas, mas de modo produtivo (claro que é possível), deixando, ao fim, os interlocutores – mesmo que sem um acordo – num lugar distinto, só que mais aprimorado, que aquele que foi o ponto de partida).

***

Não é pouco frequente que adultos se comportem como crianças grandes, mesmo em situações de emergência pujante, quando uma decisão calma e refletida deve de ser a única a ser considerada. Em discursos partidários feitos pelo PT (pensados em termos de “estratégia linguística”), qualquer relativização um pouco mais madura – que vá num caminho de evitação do entusiasmo histriônico, das lógicas fechadas e das verdades intolerantes – quaisquer aberturas que, em potência, poderiam provocar as mais do que necessárias conversas são tomadas pelo partido como um perigoso sinal que, alastrando-se pelas fileiras de militantes, poderia pôr em risco sua integridade. O resultado disso é uma fala inabitável.

E poucos partidos, hoje, podem ser apontados como possuidores de qualidades repelentes tão intensas como o PT. A iniciativa, durante a última campanha eleitoral, de convocar uma frente democrática contra a eleição de Bolsonaro naufragou melancolicamente.

Levando adiante uma versão bastante autocomplacente (e lacradora) da história política e econômica do Brasil nos últimos vinte anos – além de fustigar como golpista qualquer um que alegue uma versão alternativa dessa história – o partido não parece realmente levar a sério a ideia de uma frente de oposição a Bolsonaro.

E salvo em caso de uma reavaliação das estratégias discursivas, essa possibilidade continuará, já de antemão, bloqueada.

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