Rir de Bolsonaro (e de mais todo mundo)

por Rodrigo Linhares

A relação dos aspectos envolvidos na vitória de Bolsonaro e a importância de cada um deles será motivo de estudos para as próximas décadas. Teremos tempo pra isso. Na imprensa, as inevitáveis correlações (voto e região, voto e intervalo de renda, voto e escolaridade) dão prosseguimento a um debate iniciado há alguns meses, quando o noticiário todo começava a se centrar na disputa eleitoral.

Mas demora a aparecer uma reflexão qualquer a respeito do fato de que Bolsonaro e alguns outros dos que o acompanharam na maré montante da direita souberam apresentar-se como os candidatos da zoeira.

Em artigo publicado pela Folha de São Paulo no dia 31/10 (“A esquerda terá de começar do zero”), sem perceber exatamente a largura das coisas suscitadas pela sua questão, Marcelo Coelho pergunta: onde está o Kim Kataguiri da esquerda?

“(…) Enquanto um militante como Arthur do Val questionava sozinho os manifestantes do PT, do PSOL e companhia no Mamãe, Falei, seu canal do YouTube, ninguém que eu saiba, importou-se em contestá-lo.”

Onde estávamos? Fora das redes e despreocupados com o debate ideológico?

Ora, estávamos também nas redes, fazendo o debate, sem deixar que bolsonaros, kataguiris e vals ficassem sem respostas. A opção que fizemos, no entanto, foi a de denunciar aqueles que riam – com motivos, na maioria das vezes, razoáveis pra isso (riso machista, riso racista) – e, ao mesmo tempo, impedir que o riso surgisse também entre nós. Carrancas fechadas como o Vladimir Safatle, nos recusamos a travar a batalha do riso. Nunca saberemos precisamente o tamanho do estrago dessa recusa. Parece que foi muito. Tornamo-nos irrisórios a ponto de o jornalista poder dizer: vocês não estavam lá.

***

O que há no riso de assustador?

Ele é o álibi do cinismo – só o registro humorístico permite dizer coisas que, ditas de outra forma, com sobriedade, seriam imediatamente tidas como inaceitáveis. Rimos e dizemos que os judeus são tão feios que deveriam ser mortos – e assim, na linguagem, encontramos um jeito sorrateiro de preparar o consentimento para os campos de extermínio. É o que nos diz Safatle (que, por isso, nunca ri). O riso de Bolsonaro, continua o autor, é cínico, é o riso que legitima a violência contra mulheres, negros e LGBTs.

Faz sentido. Mas não esgota o assunto. Faz pensar que o cinismo seja, talvez, o abuso do ceticismo. O emprego prejudicado de algo que, na origem, não é ruim.

E isso sim é possível dizer – o riso, em suas formas mais potentes, é relativista. É inimigo dos absolutos, das certezas seguras de si. E é nesse sentido saudavelmente cético em que pode ser – e é – um recurso eficaz a ser empregado contra o discurso discriminatório (que é, afinal, um discurso de absolutos toscos).

Vai o convite afinal: rir também de quem ri de nós.

Mas por que é que temos evitado rir? Descartando aqui a hipótese de que todo riso seja cínico e degenerado, é algo que talvez diga muito mais a nosso respeito que parece. Quanto do nosso progressismo não se reveste de uma seriedade absolutista ao se afirmar? Quantas vezes a solenidade, entre nós, não chega no limite do pânico? De modo franco: a qual tanto de autoritarismo e antipluralismo autoimpingidos vamos nos acostumando enquanto, assim de modo programado, temos deixado de rir?

Outro convite: rir também, livremente, de nós mesmos.

Existe o riso contra a diferença, é claro. Mas o que não parece assim tão claro para todo mundo é que também existe – e isso é fundamental – aquele riso essencial que fundamenta a diferença. E esse é o riso que realmente congrega. Porque que é exatamente o inverso da seriedade autopurificadora e eliminacionista com que, a pretexto de constituir multidões imaginárias, vamos, na verdade, repelindo pessoas.

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