Mando de campo

por Rodrigo Linhares

Definir bem o que é esquerda e o que é direita e lutar para que essa boa definição ganhe o mundo – isso parecia, anos atrás, o melhor modo de se abordar nosso sistema político. Acreditávamos ingenuamente que a abertura desse contraste não poderia deixar de nos favorecer. É a direita, afinal, a grande beneficiária do recalque da conflitividade. E a esquerda, por outro lado, é quem deve cavalgar a mudança.

Muita dinamite depois – explodida diuturnamente nas nossas guerrilhas culturais segundo pontos de vista cada vez mais programáticos – o sistema partidário, testado recentemente nas urnas, finalmente dá mostras de que algo ocorreu. Mas, de modo inverso àquelas nossas expectativas, o que testemunhamos, na verdade, foi a emergência ruidosa de um conservadorismo popular atávico que apela a noções toscas de nação, de religião e de família.

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Em política, não se trata apenas de ganhar ou de perder, mas – principalmente – de ganhar enquanto se consegue impor ao adversário o sentido mais geral que conforma o próprio conflito. Assim, pode-se dizer que a ascensão do PT esteve relacionada não apenas ao relativo sucesso de seus programas de minimização da pobreza, mas, de maneira ainda mais fundamental, à crescente legitimidade social de demandas de combate às desigualdades. Mais de uma vez, a presença forte dessa agenda conferiu ao partido uma resistência notável.

Em algum ponto, no entanto, a chave política começou a mudar. A crise econômica, produzida por um projeto de governo que não criou condições para o investimento em atividade produtiva, mais a revelação estrondosa de desvios de recursos públicos e privados para o financiamento eleitoral – os dois fatores prepararam o terreno sobretudo instável para que o uso com sucesso de uma nova chave política, o enfrentamento da corrupção, passasse a ser uma possibilidade que merecia a disputa.

Houve sim uma tentativa, à esquerda (bastante autocomplacente, é verdade), de se definir corrupção como uma prática inerente à uma sociedade muito desigual – sobrepondo o novo termo ao anterior, preservando o primado da chave política “desigualdade” sobre a chave política “corrupção”. Não deu certo.

Coube à direita a estruturação mais bem-acabada do campo de disputa em que mais tarde colheria seu triunfo eleitoral. Inclusive porque a nova chave passou a magnetizar metaforicamente um imenso leque outras insatisfações.

Certo sentimento liberal disperso, por exemplo, traduzia como trapaça algumas das políticas de enfrentamento de desigualdades – especialmente aquelas que se apresentavam na forma de uma provisão de cotas destinadas, em algumas seleções, à promoção de indivíduos de determinados seguimentos sociais. A perversão da livre concorrência, nessa interpretação, era acrescentada à lista de mal feitos do PT no poder.

Uma nova tentativa, à esquerda, de rejeitar a disputa política em torno da chave corrupção iniciou-se logo após a votação do dia sete de outubro, que apontou a necessidade de um segundo turno na competição presidencial.

Uma frente composta por forças democráticas da extrema-esquerda à centro-direita deveria encampar então a chave civilização versus barbárie contra Jair Bolsonaro. E mesmo tendo o mérito de conseguir promover atos massivos em algumas cidades, o chamado contra a possibilidade de regressões autoritárias nos direitos da cidadania – marcado nas redes com o inegociável #EleNão – foi insuficiente para tirar o PT do isolamento em que havia se encerrado. Lideranças políticas importantes distribuíram-se entre o silêncio misterioso – como Fernando Henrique Cardoso – e o apoio mais que crítico à candidatura Haddad (e que, além de tudo, vinha somente na última hora) – como Marina Silva.

Por sua vez – e paralelamente – era cada vez mais evidente o sucesso da candidatura Bolsonaro em capturar, na disputa semântica (aspecto fundamental do sucesso de determinada chave-política) um troféu de imensas proporções e de tremendo alcance: o capitão reformado passava a apresentar-se, contra os imbróglios, contra as enganações, contra os argumentos tortuosos que acobertam os crimes, como o candidato não apenas da retidão e da honestidade, mas como o candidato da clareza.

A luta contra a corrupção passa então a ser definida em sua potência máxima quando se apresenta não apenas como saneadora do ambiente político (e a candidatura Bolsonaro, nesse aspecto, poderia jubilar-se do número expressivo de colaboradores e candidatos oriundos das Forças Armadas, da Polícia, da Justiça e mesmo das igrejas neopentecostais – todos eles egressos de funções “saneadoras” da vida social) mas quando torna-se amiga das opiniões simples, dos moralismos redutores e das clarezas evidentes.

E, mesmo que absurda, é inegável a existência arraigada de uma percepção conservadora bastante popular que atribui à “corrupção dos costumes” (em um sentido lato, que inclui orientações sexuais, performances de gênero e arranjos familiares não “consagrados”) presentes em níveis mais próximos e mais cotidianos, o papel de fundamento lógico e incentivo permissivo dos grandes desvios de recursos e da má administração, operados em níveis mais distantes.

A imposição da clareza deve então iniciar-se – segundo esse projeto – na administração proba dos serviços públicos e das empresas estatais, passando pela promoção de uma concorrência sem trapaças entre indivíduos e empresas e chegando, afinal, na repressão da diversidade de gêneros de vida que escapam a regulamentações religiosas – este último, dentre todos, o aspecto que aparentemente tem o maior potencial de mobilização eleitoral, ocupando um papel central nas mentalidades.

Por outro lado, metido por mais de uma década em denúncias de corrupção no governo federal, restava ao PT a imensa dificuldade de justificar suas políticas, justificar-se enquanto partido e, ao mesmo tempo, falar com clareza.

As tentativas todas de defesa feitas pelos ativistas do partido foram pouco eficazes. Se eram encaminhadas de maneira simples, pelos muitos fios soltos deixados no caminho da explicação, acabavam não convencendo. E se, de outro modo, pretendiam dar conta globalmente de todas as acusações, acabavam-se tornado, para certa mentalidade mais corriqueira, totalmente extraterrestres – com conspirações tramadas pelos Estados Unidos e operadas no judiciário nacional, com golpes de Estado que suspendem a normalidade democrática e põem na cadeia prisioneiros políticos…

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Não era necessário que assim fosse – afinal não há nada, a priori, que faça da promoção da igualdade algo que se oponha ou contradiga o combate à corrupção, e vice-versa. Uma visão mais sofisticada, inclusive, não rejeitaria o fato de que são tarefas complementares a qualquer governo. Mas no jogo duro da política as duas ações acabaram estruturando-se em dois campos de significados mutuamente excludentes. Um à esquerda, outro à direita.

O tempo focado na agenda da igualdade durou mais de uma década e teve resultados controversos. É possível que o outro tempo, o do saneamento da política, dure tanto quanto ou ainda mais (mesmo que, já de saída, seja considerado com uma relativa desconfiança a respeito de suas possibilidades de sucesso).

O que forçosamente também deve mudar é a perspectiva e o apoio com que as posições “progressistas” podem contar. Nesse exato momento, em que um governo se encerra e outro ainda não assumiu, temos tempo, dizem. Tempo é o ônus dos que governam e o bônus dos que fazem oposição.

Mas a reconstrução de uma agenda, o trabalho para que ela possa novamente reemergir, isso vai ser difícil e demorado. E, sobretudo, não será feito com uma retórica de conflagração – como aquela que, anos atrás, nos parecia a mais adequada para abrir o conflito pela transformação da sociedade em um sentido mais igualitário.

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