Anotações durante o incêndio – 1

por Fabiana Jardim

desde que foi ficando explícito que seria necessário parar, pensei em voltar a escrever neste espaço. nem faz tanto tempo assim – treze dias, se contarmos desde a sexta-feira treze em que se decidiu fechar escolas e universidades no estado de são Paulo. achei que logo ia conseguir me dedicar à tarefa. mas os dias de isolamento estiveram cheios de coisas a fazer (o dia a dia da casa, a invenção de formas de cuidado coletivo na faculdade, as reuniões virtuais, o acompanhamento dos amigos). após uma semana, estava exausta. e sem qualquer esboço de texto-post.

depois de uma crise de angústia, decido não esperar uma brecha para escrever e sento aqui, diante do computador. olho para o caderno onde fui anotando ideias para estes “diários da pandemia”. poucos dias se passaram e parecem meses – mal me reconheço nas notas, não percebo a urgência que me levou a guarda-las no papel.

entendo, porém, que comecei a tomar nota ao saber que meu vizinho de frente tinha sido internado/intubado, com pneumonia grave e suspeita de ter sido provocada pelo vírus. tinha percebido que ele e a esposa pararam de sair de casa (sempre os vejo pela manhã, varrendo a calçada e saindo para o trabalho – que, na verdade, significa ir ao ateliê onde ela faz vestidos delicadíssimos para bonecas), mas achei que se devia ao isolamento. tinha encontrado com ela um dia antes, oferecido ajuda caso precisassem fazer compras. e então a notícia. as urgências todas engasgadas, o corpo atravessado pela consciência que um amigo querido definiu como “vamos passar por isso; só não vamos todos chegar ao outro lado”. (o mesmo amigo cujo pai também está internado em uti).

entendo, assim, que ainda que a proposta dos diários inicialmente tenha se formulado como tarefa de elaboração e reflexão, o impulso para leva-los a cabo se fez pela mediação dos afetos. não escrever para compreender; escrever para procurar o ar.

***

no segundo dia de aula, enquanto ainda tateávamos a direção da disciplina, uma pergunta sobre negacionismos me fez formular a hipótese de que, frente à catástrofe climática, somos todos um tanto negacionistas. a diferença é que há negacionistas em relação ao passado ou ao conhecimento científico, que recusam mesmo aquilo que chamamos de “fatos”. e há negacionistas ilustrados, como nós, que reconhecemos o que se passou e o que se passa, compreendemos os números e a perspectiva que desenham, mas, à medida que seguimos vivendo normalmente, negamos na prática a escala da urgência. sentimo-nos moralmente superiores aos negacionistas estridentes – afinal, operamos com a Razão, estamos do lado da Verdade. mas não temos a menor ideia de como traduzir este Conhecimento em ação à altura da violência. ainda que a catástrofe seja compreensível, ela ainda assim é impensável.  frente a ela, melhor manter a calma, fazer planos de contingência, cuidar do miúdo da sobrevivência, sobretudo da sobrevivência de nossa própria linguagem – onde nos amparamos na ilusão de continuarmos no controle do mundo.

e, no entanto, a epidemia/pandemia transbordou a divisão da catástrofe entre o momento-quando e sua lenta dilatação. entre os planos de construção da hidro-elétrica, seu processo, a inundação e a morte de tantas e tantas formas de vida; entre o rompimento violento da barragem e o coma do rio; entre o que produz a seca e o sinal vermelho para a predação, os incêndios e a fumaça negra na tarde paulistana. o momento-quando do corte, em que sabemos que tudo mudou, e sua lenta dilatação, que dificulta a percepção da mudança. quem perdeu tudo no momento-quando já chegou ao outro lado – contemplou o fim do mundo; quem vai sendo aos poucos atingidos, quem se move nessa lentidão da suspensão, corre o risco de esquecer ou nem se dar conta que o mundo vai acabando, ainda que colecione as notícias no jornal/mural. ao mesmo tempo em que se angustia ou desespera, pode ser convencido a não se angustiar ou desesperar. ao menos não demasiadamente. lembro da frase final do livro do fredéric gros: “a segurança (a catástrofe) é quando tudo permanece como antes”. negacionismo ilustrado.

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recebi pelo whatsapp um vídeo. num supermercado lotado, um homem se levanta: sobe no carrinho e grita aos que lá estão “vocês estão todos loucos? é para evitar aglomerações e estão todos aqui, tudo cheio! olhem para o carrinho de vocês, a quantidade de coisas que estão comprando! vocês não precisam de tudo isso! é final de mês, quando as pessoas que só podem fazer compras quando receberem vierem, não encontrarão nada! vão ficar sem comida porque vocês levaram tudo! levaram o que não precisam! vocês estão loucos!”. o levante deste homem, sua urgência em sacudir aqueles que estão à sua volta, a articulação da incompreensão diante do negacionismo, obscuro ou ilustrado, dos que diante da catástrofe fazem compras excessivas: esse levante me comove profundamente, em seu gesto de transmissão de quem escuta quão próximo estão o momento-quando e sua lâmina.

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leio alguns dos vários textos que estão sendo produzidos neste contexto e que procuram retirar as consequências políticas das aberturas introduzidas pela doença-acontecimento. um deles, de josé gil, trata do medo e sugere que “o medo não é uma atmosfera, é uma inundação”. e a formulação me incomoda, me soa demasiadamente europeia, pensar a inundação como metáfora. penso no texto da Luana Almeida, em que ela explicita porque a epidemia ainda é uma ameaça distante em sua comunidade, onde os alagamentos chegam pelo ralo; penso no rompimento das barragens de resíduos de mineração. penso numa experiência do medo que não toma a forma da paranoia e da expectativa que a segurança seja quebrada, como nas classes médias e altas, mas que é cotidiana, bem fundamentada, concreta. a metáfora da inundação só faz sentido para mim se for para reconhecer seu transbordamento – o medo do vírus transversal a classes e territórios, geralmente tão bem segregados. mas se o medo transbordou, sei bem que o que o alimenta desta vez ainda está bem cercadinho, contido no que a eliane brum chamou de apartheid sanitário.

***

me chamou a atenção que, numa live dedicada ao papo reto sobre os possíveis cenários a partir da chegada do vírus ao brasil, atila iamarino tenha começado com uma espécie de “aviso de gatilho”, recomendando aos que estão angustiados ou ansiosos que não assistissem ou que esperassem um momento mais oportuno para fazê-lo. o “aviso de gatilho” é uma das práticas ligadas ao repertório do trauma e tem por objetivo proteger vítimas de re-vitimização, dando-lhes a possibilidade de agência, na escolha de ler/ver/ouvir ou não o que faz lembrar o que viveram. ao introduzir este preâmbulo, atila reconhece a dimensão traumática não apenas da catástrofe, mas da própria verdade – os cenários que ele examina sugerindo que o número de mortos ao longo da curva de aumento de casos até seu controle ficará entre centenas de milhares e mais de meio milhão, a depender das medidas que sejam tomadas. entre a produção irresponsável do pânico e a negação – nada ilustrada – do “vai ficar tudo bem”, a tentativa de encontrar uma posição distinta, de quem também olha o momento-quando nos olhos (não à toa, uma das coisas que ele repetiu bastante em outro vídeo foi “a nossa vida já mudou”), mas tenta contribuir para que sua lâmina nos corte menos. “achatar a curva”: tentar controlar a velocidade com que a lâmina passa; desloca-la, para que nos corte menos.

***

antes de tudo se acelerar e o isolamento ser decretado, tinha comprado vários livros. fui acompanhando, do portão, as diferentes políticas das empresas – da que orienta a suspensão da necessidade de assinatura na tela do celular do entregador à que ainda exige a assinatura em caneta no pacote e seu registro fotográfico. numa das entregas, pergunto ao entregador sobre as medidas de proteção, conversamos um pouco, e ele começa a me dar dicas sobre as orquídeas – é visível que as minhas estão com uma praga e começando a secar. Israel, este é seu nome, me explica como fazer a poda, me mostra (convidei-o a entrar, ainda que tenhamos mantido uma distância segura um do outro) como enfrentar a praga, me diz o nome das espécies que tenho, me mostra suas próprias orquídeas no celular – inclusive uma que só floresce na madrugada, por algumas horas. agradeço, nos despedimos. ainda não consegui colocar as dicas em prática (é intenso, o fim do mundo, quando o recusamos). mas o farei em breve. Israel me lembrou que o cuidado adia um pouquinho o fim do mundo.

***

preparando aula (sigo mandando mensagens, áudios, vez em quando uma transmissão ao vivo, para as/os estudantes – para proteger nossa saúde mental), encontro a maravilhosa Tatiana Nascimento:

notas sobre o apocalipse ou, daria um poema inesquecível, esse mantra

vale lembrar do medo:

é menor que o amor

desaprender o ódio:

o sonho é maior

pra recordar: a bala

é menor que a luta

pra festejar: desejo

é maior que a norma

nunca esquecer: a bíblia

é menor do que a fé

(y deus é maior, muito maior

que a igreja, qualquer

que seja)

pra mensurar a cerca:

é menor que a terra

pra acalmar da seca:

sempre volta a chuva

y pra enfrentar a força bruta:

resistir é maior, y pra aguentar

o prant o espanto y o tanto

que eles (que só parecem

tantos) querem acabar

a gente:

a gente povo

a gente água

a gente bicho

a gente mata

a gente pedra

a gente rio vento mundo

nossa seiva é maior

porque a gente é maior

y a vida é maior

que o medo

da morte.

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