Anotações durante o incêndio – 2

por Fabiana Jardim

para C.

o pai do meu amigo faleceu. meu vizinho, descubro hoje, também não resistiu e faleceu apenas quatro dias depois de ter sido internado – nós é que, confinados, não soubemos; confundimos a quietude da casa em frente com a preocupação com o familiar hospitalizado enquanto a quietude já era luto. a escrita destas notas se faz deste lugar de tristeza e susto diante da morte inesperada – relâmpago-vírus em noite clara. sei, porém, que se são as primeiras, não serão as últimas: a gente agora já bem mais mergulhado na tormenta, ainda em meio à travessia.

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 leio o texto relato que paul b. preciado escreve desde o lugar de quem adoeceu e, ao melhorar, dez dias depois, encontrou um mundo distinto. a beleza de seu texto não está na análise (isto ele faria depois, em outro texto, cirúrgico em sua densidade) ou em certo humor, mas na partilha desmesurada da vulnerabilidade, do medo da solidão que o vírus destampa, da sensação de imobilidade que atravessa de estranheza este momento-quando da catástrofe em que tudo mudou e, no entanto, porque não há terra à vista, a deriva parece se fixar como nova forma de estarmos no mundo.

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talvez por essa sinceridade desmedida, talvez por que eu mesma ensaiara chamar estas anotações de “cartas para além do portão”, pensei na sequência das “cartas para além dos muros” escritas pelo caio fernando abreu durante seu período de internação, quando se descobriu com aids. outros tempos, outro vírus (em seu segundo texto, já sem dor de cabeça e capaz de filosofar, preciado também falaria da aids). mas a mesma experiência da vulnerabilidade, da suspensão e do medo da solidão – não porque a vida teria se fixado na forma do isolamento, mas porque o diagnóstico, naquele momento, inscrevia a morte no corpo: introduzia um descompasso perene. “a partir daquela manhã de agosto, embora os três e todos os outros que já sabiam ou viriam a saber, pois ele tinha o orgulho de nada esconder, tentassem suaves disfarçar, todos sabiam que ele sabia que tinha ficado tarde demais. Para a alegria, repetia, a saúde, a própria vida. Sobretudo para o amor, suspirava”. agostos por dentro, a imagem a que caio tantas vezes recorreu. a estranheza de carregar esta sentença enquanto a vida segue como se nada houvesse mudado.

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o pai do meu amigo, que estava internado na uti, piorou no meio da semana e faleceu na madrugada de quinta para sexta. por conta da quarentena, sem velório, o que significa sem ritos coletivos para amparar os vivos. sem o encontro em torno do corpo que suscita histórias, lágrimas, risadas, suspiros; sem os abraços apertados; sem possibilidade de dizer silenciosamente que sentimos pela perda; sem gestos que não os mediados pela palavra e sabemos bem que, neste momento, elas são parcas: esgarçam, engasgam, tropeçam. num momento de dor como o do luto, parece que só a materialidade do corpo é capaz de atravessar a densidade da estranheza com que nos movemos – saber com o corpo que aquela ausência muda tudo, enquanto a vida segue como se nada tivesse mudado.

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os ritos coletivos participam das medidas que tomamos para circunscrever o luto. a morte, o luto, também produzem seu próprio contágio. a morte de alguém querido é um corte no tempo linear do calendário. ao tempo oco da rotina e da produção sobrepõe-se o tempo vivo e latejante da memória do que foi e do que (não mais) será. os gestos variam conforme as religiões ou costumes familiares, mas procura-se assinalar os enlutados, seja envolvendo-os em roupas pretas, seja reservando-lhes o direito ao silêncio e ao choro. a regulamentação social do luto também implica que o direito ao enlutamento tem seus prazos e a tolerância à manifestação da tristeza diminui conforme o “tempo passa”. o problema é que, justamente, o luto mistura os tempos, embaralha o sentido de sua passagem, e para quem vive o luto, a contagem se altera. o tempo não passa e, quando nos damos conta de sua passagem, é somente para nos assustarmos com o fato de ter passado enquanto, dentro de nós, o morto (não) acaba de morrer. quem não supera, quem não respeita os tempos normais do enlutamento, vai se dando conta de que se torna alvo de evitação, como se fosse de fato contagioso. a comunidade dos vivos depende do esquecimento, e o enlutado é aquele que insiste em lembrar, que se recusa a esquecer e, assim, reintroduz a todo o tempo a consciência da finitude no cotidiano. leva “agosto por dentro”, sem que seja possível marcar a chegada de setembro e sua primavera.

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a catástrofe embaralha luto privado e luto público? quando a perda é ao mesmo tempo individual e se mistura aos números crescentes das perdas coletivas, quais são os efeitos para as famílias e para os laços sociais? como lidamos com o repentino desaparecimento de tantas e tantos? (se falo em desaparecimento, é para marcar o repentino da doença e também a impossibilidade de velar os que morreram: eles são bruscamente arrancados de nosso convívio). como as ações políticas abrem ou bloqueiam a experiência do luto?

em madri, após passarem a marca dos três mil mortos, um período de luto oficial foi decretado – as bandeiras a meio mastro, o minuto de silêncio ao meio-dia. a sinalização aos que perderam alguém de que a comunidade reconhece esta perda, a assinala por meio de gestos, respeita esta dor. diz em alto e bom som que as vidas perdidas importam.

aqui, somos bombardeados com declarações que desprezam a dor como fatalidade, falta de sorte, sacrifício necessário para que a economia siga girando. como um imenso número de famílias e, principalmente, de mães que perderam seus filhos para a violência do estado, sabe na carne, é uma violência suplementar à perda brusca: ao trabalho de luto, ter que lidar com a desqualificação da vida que se perdeu, ser impelido ao gesto de provar o valor daquela vida (pois, se ela não tem valor, como chorá-la?). nada de luto oficial, ao contrário: a negação reiterada do que se passa, do que nos passa.

como ontem explicitou novamente o parresiasta contemporâneo atila iamarino, em sua histórica entrevista no roda viva, a recusa de parar como sintoma mais visível da negação da realidade que não há retorno possível à vida que conhecíamos. o que significa dizer que a elaboração de novos modos de habitar a vida passa necessariamente por ultrapassar a negação, por abrir espaço para experimentar coletivamente o luto, pelas vidas perdidas e pelas formas de vida que perdemos. é um luto há tempos adiado, afinal, que o vírus precipita.

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entre sexta e sábado, a tristeza imensa pelo amigo e seu pai, me pus a fazer crochê. já há tempos entendi que o que nos liga ao mundo dos vivos é a delicadeza de finos fios de vida alaranjados – os laços com os que amamos e que nos amam. fragilidade e força imensas. tessitura sempre em transformação, mistura de passado e futuro, dos que foram e os que virão. lembro-me de uma passagem do livro de josé de souza martins, uma arqueologia da memória social, em que ele narra a história de sua família partida pela fome e pela guerra e do encontro com um primo desconhecido, do lado dos que ficaram na espanha. gerações depois, um reencontro, na verdade, uma vez que se descobre no rosto do outro os ecos familiares; nos gestos do outro, aqueles que também sobreviveram do outro lado do oceano. ao reunir o que o trágico da história separou, a memória explicita que mortos e vivos continuam entramados – em corpos, mãos, rostos, olhares, gestos, sorrisos.

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convivi pouco tempo com meu sogro, infelizmente. logo que meu marido e eu começamos a namorar, ele adoeceu e aí começaram os tratamentos e seus efeitos colaterais – nas fotografias de nossa pequena cerimônia de casamento, sempre me grita sua ausência. quando engravidamos, ele já havia partido, e isso também me encheu de tristeza porque ele gostava muito dos netos – divertia-se com suas brincadeiras e travessuras, com sua presença nos almoços de sábado. quando soubemos que teríamos um menino, decidimos que teria o nome do avô – o nome japonês, cuja grafia em kanji se perdeu quando ele faleceu e não pode ser escrita sobre o papel de arroz que integrava o circuito da reciprocidade dos ritos em torno de sua morte.

sempre tive a impressão que meu filho só esperava uma oportunidade para fazer parte da família e, quando ele nasceu e pudemos nos ver pela primeira vez, soube a reencontro. lembro-me de conversar com ele, de ele me olhar com seus olhões gigantes, da alegria em recebe-lo nos braços – reconheci imediatamente o menino que imaginara tantas e tantas vezes.

demorou um tanto até meu marido me contar que sua emoção também esteve atravessada por outra forma de reconhecimento: ali estava seu pai – no rosto de nosso filho recém-chegado. em meio ao milagre de um novo nascimento, a lembrança viva, de carne e choro. o poema de josely vianna baptista se tornou um mantra nos últimos dias – nenhum gesto/sem passado/nenhum rosto/sem o outro.

viver, nestes tempos: elaborar o luto no movimento da agulha; tecer os paraquedas coloridos de que nos fala Ailton Krenak, em suas Ideias para adiar o fim do mundo; rememorar sem pejos, chorar os mortos sem economia de lágrimas, recusar-se a esquecer ou a ser atropelado pelo imperativo do não parar; desacelerar a queda, para não perder o relampejo dos que se foram inscrito no corpo dos que vêm e virão.

Um pensamento sobre “Anotações durante o incêndio – 2

  1. “rememorar sem pejos…para não perder o relampejo dos que se foram inscrito no corpo dos que vêm e virão”… sentimento tornado voz a palavra que se quer ouvida!

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