Anotações durante o incêndio – 3*

por Fabiana Jardim

O ponto de partida é a lembrança de um sonho. Sonho que deve ter já uns dez anos, mas cuja sensação ao acordar nunca se dissipou inteiramente; ao contrário. No sonho, era uma tarde como qualquer outra, a não ser pelo trânsito fora do lugar – eu no carro, com minha mãe, paradas como todos os outros carros em volta de nós, numa rua aqui bem perto de casa; a escola, onde deveria pegar ou deixar o filho (isso já não é tão nítido na lembrança), a menos de um minuto dali. Mas como se todos olhassem para cima, entendemos que não era apenas trânsito, que algo de grave e estranho ocorria, e que esse algo era simplesmente o fim do mundo. Um apocalipse sem sinal a não ser nossa angústia em adivinhá-lo; um peso imenso no peito, como se o ar fosse feito de chumbo. Mas o céu estava azul, nada acontecia, apenas restávamos ali, parados, aguardando que o inevitável ocorresse; sem desespero, sem gritaria, sem correria, sem explosões, sem milagres. A espera já era a catástrofe. Lembro de ter acordado muito angustiada. Todo o sonho se dava no registro do familiar: a mãe, o filho, o perto de casa, a escola… e de repente aquela estranheza interrompendo a rotina, atravessando as coisas de um jeito não nomeável senão como essa angústia difusa da expectativa de algo acontecesse.

Foi querendo traduzir esse sonho – sua sensação de peso e agonia, muito semelhante ao que aprendi com minha avó se chamar o estado de “antes da chuva”, uma agitação que deixa as crianças um tanto loucas e, sobre adultos, provoca algo um pouco distinto: pressentimento, atenção, angústia… Até que as primeiras gotas comecem a pingar e então, finalmente, algum nó se desata por dentro e a gente volta a respirar sem tanta densidade. Eu dizia: foi querendo traduzir esse sonho que quis fotografar o céu de chumbo, quando as nuvens ficam tão carregadas que o dia vira noite. Mas enquanto quis fotografar esse céu, só houve dias de sol e calor. Foi num deles, pensando que o céu do sonho, afinal, era azul, que fiz essa primeira fotografia, da janela mesmo: entardecia, mas o azul ainda mostrava sua consistência. Por coincidência, poucos dias depois uma amiga postou em seu instagram justamente uma foto semelhante a que eu gostaria de fazer: o cinza ainda não era daquele limiar tênue entre o seco tenso e o começo de chuva, mas o espírito era esse – um céu coalhado de nuvens cinzas, mais ou menos pesadas, que ao menos indicassem um risco qualquer.

Foto: Veronika Paulics.

Mais tarde, me lembraria da exposição Levantes e da importância que Georges Didi-Huberman dá à atmosfera – como se um levante também fosse fenômeno meteorológico, como se as forças também lentamente se acumulassem, a despeito de tantos esforços políticos em drená-las; como se ao invés de escoar por entre a rotina, os lazeres impostos, a regulação do tempo e dos afetos, insubmissas evaporassem lentamente para constituir um corpo comum que, se a pressão for favorável (ou insuportável), pode finalmente desabar. Nas ruas tantas vezes nos últimos anos, também conhecemos em nossos corpos essa pressão, essa densidade, essa expectativa de um estalo, que pode ser tanto de alegria explosiva como de violência destampada por parte do estado contra nós.

Diz Didi-Huberman: “Os ‘tempos sombrios’ só são tão sombrios por baterem na nossa cara, comprimirem nossas pálpebras, ofuscarem nosso olhar. Como fronteiras que se impõem em nosso próprio corpo e pensamento. Na verdade, se olharmos a certa distância, não são apenas sombrios, mas cinzentos: o cinza triste do céu chuvoso e, mais ainda, o cinza-chumbo dos arames farpados, das armas de guerra e do próprio chumbo que as mais cruéis prisões utilizaram. Tempos sombrios são tempos de chumbo. Eles não só impedem nossa capacidade de ver mais além e, com isso de desejar, mas são pesados, pesam em nossos ombros, em nossas cabeças, sufocam nossa capacidade de querer e de pensar. […] Deve-se, no entanto, entender com isso que o desejo contrário – a sobrevivência do desejo nesse espaço concebido para neutralizá-lo – ganha todo o sentido a partir da palavra levante e do gesto que ela pressupõe. […] O que somos nós sob o chumbo do mundo? Titãs derrotados e, ao mesmo tempo, crianças dançantes, quem sabe futuros vencedores” (Georges Didi-Huberman. Introdução. In: Didi-Huberman, G. (org.) Levantes. São Paulo: Sesc Edições, 2017a, p.15-6).

Aos poucos, porém, a imaginação deste sonho vai se deslocando, e ao invés de céu, decido explorar as imagens de limiares: batentes de portas, portões, janelas, escadas, corredores… Se o trabalho propunha, desde o início, a visita ao arquivo das resistências e dos sonhos; se ele tinha por objetivo central nos ajudar a passar pela espessura deste tempo estranho; se a proposta ainda era a de visitar tais arquivos de vida para melhor alargar as fronteiras do possível, então estas imagens porosas, de espaços que atravessamos (ou que nosso olhar atravessa, como no caso das janelas e vãos), me pareceram mais precisas para operar a “tradução” do sentimento provocado pelo sonho: pois, agora, à distância do tempo e conhecendo tudo o que se passou e nos passou ao longo dos últimos dez anos, o sonho parecia estar anunciando uma transição, uma passagem a outra temporalidade, essa da catástrofe que irrompe mesmo no mais cotidiano e familiar. Como se passássemos por uma porta e, sem aviso, ao sair do outro lado encontrássemos um mundo transtornado.

Revisito minhas fotos, ao menos aquelas mais recentes, dos últimos cinco anos.

Encontro uma infinidade de portas e janelas, de vidros límpidos ou tomados pelo tempo, tiradas com máquina fotográfica em passeios ou com celular, no calor do momento. Como esta da entrada do bloco A da FEUSP, cujo objetivo era simplesmente flagrar os pássaros que andam por ali e que, agora, impossibilitados que estamos de atravessar estas portas, ganha significado afetivo maior.

Ainda esta outra, tirada em Florianópolis.

Ou toda a sequência de imagens das sucessivas viagens a Paranapiacaba, em que o olhar indisciplinado procura atravessar as bordas do que a ordem disciplinar constituiu ou, então, onde os dentes do tempo abriram brechas e permitiram que céu vazasse sua luz, por entre o rendado do ferro corroído; ou, ainda, na gare onde a luz explode pelas beiradas da porta.

Como as fotos tiradas em pontos de ônibus: um vão onde se surpreende o céu e as folhas voltando a brotar ou o muro do cemitério…

Mais gravemente, as fotos tiradas no Museu e Memorial de Auschwitz-Birkenau: ali, sempre a tentativa de ver por meio da fotografia, um ver que é na verdade uma interrogação e um desejo de testemunho impossível – o espaço está lá, mas o que desejamos compreender não e, agora, quase tudo o que poderia dar testemunho do que ali se passou vai desaparecendo. O que não é absolutamente verdade: não apenas ainda há sobreviventes, como ao longo dos anos houve imenso trabalho de descobrir, testemunhar, arquivar este passado.

Lembro de novo de Georges Didi-Huberman, em seu ensaio Cascas, quando comenta a fotografia que tirou de um pássaro. Ao examinar os diferentes padrões das cercas de aço registradas na foto, ele comenta que “[…] em segundo plano, corre o arame farpado eletrificado do campo, com o metal já escurecido pela ferrugem e disposto segundo uma ‘trama’ bastante peculiar que não vemos no arame farpado do primeiro plano. A cor deste último – cinza-claro – sugere que foi instalado recentemente” (2017b, p.21).

Georges Didi-Huberman, imagem que compõe o ensaio Cascas.

“Compreender isto me dá um aperto no coração. Significa que Auschwitz como ‘lugar de bárbarie’ (o campo) instalou os arames farpados do fundo nos anos 1940, ao passo que os do primeiro plano foram dispostos por Auschwitz como ‘lugar de cultura’ (o museu) bem mais recentemente. Por que razão? Seria para orientar o fluxo dos visitantes, empregando o arame farpado como ‘cor local’ Ou para ‘restaurar’ uma cerca degradada pelo tempo? Não sei. Mas sinto claramente que o passarinho pousou entre duas temporalidades terrivelmente disjuntas, duas gestões bem diferentes da mesma parcela de espaço e de história. Sem saber, o passarinho pousou entre a barbárie e a cultura” (Didi-Huberman, 2017b, p.21-2).

E é esta lembrança que consolida a decisão por este primeiro exercício: a interrogação proposta pelo sonho como disparadora de uma pergunta ao arquivo; o exame do arquivo e a descoberta deste eixo – nas fotografias, na insistência em ver desde esses limiares, o esforço de transitar entre temporalidades distintas, de flagrar o que se abriga nos desvãos, nas brechas, nos batentes de portas e janelas, esperando a ocasião de passar.


Encontro os postais que vieram junto com o livro Extremo: crônicas da psicodeflação, de Franco “Bifo” Berardi, escrito em meio ao isolamento social provocado por esta pandemia, num território que foi um dos epicentros não apenas da doença, mas também das cenas de devastação por ela provocada. No verso, aspas que também remetem a esses elementos de arquitetura feitos para permitir passagem – as janelas e as portas, que pareciam tão cerradas, submersos que estávamos sob a imperiosidade das medidas de austeridade, da aceleração do tempo e da precarização de variados aspectos de nossas vidas.

Encontro ainda Jeanne-Marie Gagnebin, comentando Walter Benjamin e o lugar estratégico que confere ao limiar em seu pensamento. Diferente da fronteira, gesto de separação, o limiar é arquitetura de transição, que atravessamos, mas em que também é possível se demorar – parar para tentar lembrar de alguma coisa, encostar-nos para estender uma conversa…: “[…] o limiar não só faz separar territórios (como a fronteira), mas permite a transição, de duração variável, entre esses dois territórios. Ele pertence à ordem do espaço, mas também, essencialmente, à do tempo. Assim como sua extensão espacial, sua duração temporal é flexível, e depende tanto do tamanho do limiar quanto da rapidez ou da lentidão, da agilidade, da indiferença ou do respeito do transeunte” (Gagnebin, 2014, p.36).

Gagnebin inicia seu texto a partir de uma extensa citação de Walter Benjamin, em que este comenta que “nos tornamos pobres em experiências limiares”. Nós, aqui, mulheres e homens modernos, capturados na temporalidade do progresso e impelidos a passar rapidamente por todas as transições necessárias, sejam aquelas ligadas aos ciclos de vida (nascimentos, mortes, amadurecimento, casamentos), sejam aquelas impostas por mudanças históricas. A pobreza das experiências limiares está ligada, também, aos dispositivos bio e necropolíticos que nos dedicamos a esmiuçar. Já apontava Carlos Drummond de Andrade: “Chegou um tempo em que não adiante morrer./ Chegou um tempo em que a vida é uma ordem./ A vida apenas, sem mistificação”.

Em um dos textos escritos para o que tentei manter como uma espécie de diário da pandemia, comentando sobre os primeiros desaparecimentos de pessoas mais próximas, registrava que “os ritos coletivos participam das medidas que tomamos para circunscrever o luto. a morte, o luto, também produzem seu próprio contágio. a morte de alguém querido é um corte no tempo linear do calendário. ao tempo oco da rotina e da produção sobrepõe-se o tempo vivo e latejante da memória do que foi e do que (não mais) será. os gestos variam conforme as religiões ou costumes familiares, mas procura-se assinalar os enlutados, seja envolvendo-os em roupas pretas, seja reservando-lhes o direito ao silêncio e ao choro. a regulamentação social do luto também implica que o direito ao enlutamento tem seus prazos e a tolerância à manifestação da tristeza diminui conforme o “tempo passa”. o problema é que, justamente, o luto mistura os tempos, embaralha o sentido de sua passagem, e para quem vive o luto, a contagem se altera. o tempo não passa e, quando nos damos conta de sua passagem, é somente para nos assustarmos com o fato de ter passado enquanto, dentro de nós, o morto (não) acaba de morrer. quem não supera, quem não respeita os tempos normais do enlutamento, vai se dando conta de que se torna alvo de evitação, como se fosse de fato contagioso. a comunidade dos vivos depende do esquecimento, e o enlutado é aquele que insiste em lembrar, que se recusa a esquecer e, assim, reintroduz a todo o tempo a consciência da finitude no cotidiano. leva “agosto por dentro”, sem que seja possível marcar a chegada de setembro e sua primavera”.

Se a morte e o luto são dessas “experiências limiares” com as quais perdemos a intimidade, o que isto significa, neste momento, em que ultrapassamos a marca dos 160 mil mortos no país? A indiferença é efeito da passagem rápida por este umbral que nos separa da vida tal como era e do que vai se impondo como “novo normal”? É recusa em reconhecer que cruzamos um limiar que pode significar termos colocados os pés, sem volta possível, no século XXI (Viana, 2020)? Ou é recusa em nos demorarmos um pouco mais aqui, nesse tempo e espaço de indefinição, alongando uma conversa necessária sobre onde desejamos, de fato, aportar? Se do outro lado da porta parece estar o fim do mundo, por que a pressa em cruzá-la? Simplesmente para nos desembaraçarmos mais rapidamente do que vai ficando para trás e dos que vão ficando para trás?
Se tudo o que estamos vivendo representa, de fato, a abertura de alguns limiares (portas, janelas, corredores…), como atravessá-los? Ou, então, como nos demorarmos um pouco mais aqui-agora, para imaginar e sonhar outro fim de mundo? Como atrasar o passo e experimentar, de fato, este momento – não apenas como agora, mas no sentido apontado por Jacques Rancière: “[…] um momento não é apenas um ponto que se dissipa no curso do tempo. É também um momentum, um peso colocado na balança que não muda simplesmente as relações de força mas a própria

configuração daquilo que é perceptível e pensável, e, por conseguinte, daquilo que é possível.” (Rancière, 2011, p.93)?

Do sonho rememorado, passando pelos arquivos e pelas referências, pelos os pássaros, janelas e batentes encontrados – ao longo desse corredor comprido em que temos nos movido – encerro com certa formulação destas questões na escrita de Marília Garcia, trecho do poema “tem país na paisagem?”, de seu livro de poemas Câmera Lenta:

aqui só tenho uma regra:
todos os dias às 10h
tiro uma foto da ponte.
o resto é livre e gira
em torno da pergunta:
como ver o tempo
passar neste lugar?
penso no infra-
ordinário
do georges perec
e todos os dias
vou até a ponte
e tiro uma foto
que possa me dizer
alguma coisa
sobre estar aqui.
a ponte tem três arcos.
a água do rio é verde.
atravesso a ponte com 124 passos.
quando um barco passa,
uma onda se forma.
escrevo a partir das fotos e
depois apago as fotos.
[…]
antes de chegar,
ela me disse que o quarto era iluminado.
“é difícil olhar as coisas
diretamente”, penso.
são muito luminosas ou muito
escuras.
no teto tem uma claraboia
e todos os dias às 10h
pergunto:
como ver este instante
passando?
sempre tinha tentado
pular as etapas da vida
e apagar o entre.

como atravessar os meses neste lugar
e ver o que acontece?
a fotografia divide futuro
e passado – seria possível ver o que
está no meio?

Tudo isto não é mais que uma conversa de portão. Um convite a ficar ainda um tempo aqui, neste entre-tempo: a não apressarmos o passo, a costurarmos modos de carregar aqueles, aquelas e aquilo que não queremos deixar para trás.

* Texto escrito como roteiro para a primeira oficina de trabalho da disciplina Diversidades, desigualdades e educação: aportes teóricos e estudos contemporâneos, no 2º semestre de 2020.

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