Chato, para mim, é um piolho.

por Abilio Godoy

Parece que a moda veio mesmo para ficar. Já há algum tempo ressurgem com frequência, na mídia narcisopolitana, matérias em que escritores e críticos diagnosticam como um dos maiores problemas da literatura narcisolandesa contemporânea o fato de ela ser muito chata. A exemplo do escritor nacional mais vendido no exterior – que, dia desses, ousou brandir tão refinado predicativo contra a obra de James Joyce – aquela galera descolada (que inclui de fedelhos a velhinhos veteranos) acha que a função da literatura é mesmo a de cativar o público – e, sobretudo, os jurados dos prêmios literários – para, numa consequência discreta, quase acidental, encher os próprios bolsos de grana.

Essa populosa turminha hispter-pós-moderna gosta de frases de efeito e tiradas irreverentes. Dizem que a literatura morreu, que a arte morreu, que a história morreu como quem diz que prefere seu café sem açúcar, com aquela convicção blasée de que sua bem polida personalidade gourmet será admirada de imediato por seus interlocutores. Não desconfiam, contudo, que talvez o que esteja morrendo, não só no seu discurso, como por toda parte, seja qualquer objetividade da crítica. Talvez o que apodrece não seja a literatura, nem a arte, nem a história, mas a noção de que é preciso, ou pelo menos recomendável, que se analisem os conceitos, que se fundamentem as opiniões e que se discutam os valores antes de estampá-los em jornais que se parecem cada vez mais com páginas de Facebook.

Acontece que, como tantas chatas e tantos chatos tantas vezes nos disseram, não se admira o trabalho, coisa de escravo, aqui na Narcisolândia. Não, senhor; aqui vale antes o drible, o improviso, o repente, o trocadilho. Esforçar-se para que, hein, quando se tem genialidade e malemolência? Para que arar o solo na terra onde tudo dá? Quem é que precisa de erudição do lado de baixo do equador? O que nos interessa o que outras pessoas de outros lugares ou outras épocas discutem sobre a nossa condição humana? Não precisamos de nada disso. Literatura erudita, música erudita, cinema erudito, arte erudita? Tudo isso é muito chato. Divertido é tuitar na espera do restaurante chique, é passar horas na fila da exposição do programa infantil, é pagar vinte reais na pipoca que entope nossas veias enquanto a gente se aliena e realiza a fantasia adolescente de se imaginar com superpoderes.

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Tutorial

por Abilio Godoy

Bem-vindo, asceta, ao nosso tutorial. Aqui você encontra as informações necessárias à sua iniciação. Sim, aceitamos fiéis provenientes de todos os credos. A nossa é uma religião da forma e não há incompatibilidade de conteúdos. Você pode ser católico, por exemplo, desde que a sólida tradição da sua Igreja encha você de um orgulho histórico que o remeta aos tempos de Leão, o grande. Por outro lado, se for evangélico ou muçulmano, sugerimos uma implacável cruzada de intolerância contra tudo que divergir das leis antigas. Ignore o que elas disserem sobre mulas e camelos – essa parte ficou obsoleta – mas considere todo o resto em perfeita sincronia com o mundo atual. Agora, se for espírita, você pode sorrir com condescendência desses dogmas menos evoluídos enquanto lê a cartinha de um parente defunto.

Também é possível ser ateu, desde que por isso você despreze o crente mais do que o credo, desde que você se considere um iluminado e o seu suposto ceticismo, no fim das contas, atire no próprio dedão do pé. São bem vindos os extremistas islâmicos, os hipsters umbandistas, os executivos budistas, os cínicos judeus e toda sorte de agnósticos acadêmicos. O essencial é que, no céu ou na terra, o segurança do seu paraíso só deixe entrar os seus trutas.

Ademais, nós da Igreja do Narcisismo Definitivo estamos abertos a qualquer procedência política. Você pode ser de esquerda ou de direita, neoliberal ou comunista, evangélico ou feminista, punk ou skinhead, fascista ou anarquista. O fundamental é que seja arrogante, autoritário e violento.

O nosso código de conduta é simples. Exige que você grite, mas não discuta: toda essa gente estúpida que discorda de você não merece os seus argumentos. A preguiça é o comportamento adequado, afinal você já atingiu o nirvana e repensar qualquer coisa a esta altura seria um desperdício imperdoável de energia. Em caso de dúvida, apresse-se em julgar e evite ponderações. Lembre-se de que o mundo sempre pode ser divido entre a verdade óbvia e a idiotia gritante, entre o aplauso e a vaia, enfim, entre tudo aquilo que é você e tudo aquilo que são os outros.

Não prometemos a felicidade, mas garantimos a segurança do isolamento. Sozinho, você reinará no seu feudo. E, pelas janelas virtuais do seu castelo, vencerá nas redes antissociais todas as disputas cotidianas de autoafirmação.

O algoritmo

por Abilio Godoy

Quatro meses solteiro, trinta e dois anos de solidão, reencontro destrutivo com a ex no fim de semana e me vejo, na segunda, encarando o questionário do aplicativo que uma amiga recomendou. Este programa é melhor que os outros, ela me disse, porque seleciona as pessoas com quem você tem mais afinidade. Veja bem, tento argumentar comigo mesmo enquanto me submeto à bateria de perguntas, você até poderia raspar o fundo da sua consciência à procura de alguma indignação contra esta preguiça de ir lá fora conversar, mas é segunda-feira e você não vai achar ninguém na rua. E, depois, quem tem paciência de esperar o médio prazo, hm? Quem tem tempo para encontros aleatórios que desmoronam de repente num comentário racista que chega a revoltar os seus leucócitos? Ok, então, computer, eu me rendo às linhas mecânicas do seu algoritmo. Procure você, para mim, o meu reflexo na superfície do lago. Encontre, na multidão de gente inadequada, a mulher das respostas certas, para dividir comigo a minha jaula e os meus antibióticos.

Celular, celular meu, existe por aí alguém assim perfeito que nem eu? Olha, majestade, 100% perfeito, hoje não vai estar tendo; mas essa daqui é 96% e parece bonitinha. Pois bem, meu querido Sancho ciborgue; vá dizer a ela que estamos satisfeitos com seu design e sua compatibilidade. Ela mandou dizer que também curtiu o senhor. Filho de Turing! Seus serviços são valiosos. De quantos jantares incômodos, de quantas buscas frustradas, você me poupou? Quanto tempo eu levaria para encontrar sozinho alguém tão conveniente? Numa dissonância de 4% não devem caber nem os sete erros do jogo.

À medida que trocamos mensagens, a garota e eu medimos o ajuste fino da nossa pressuposta sintonia, que vai resistindo sólida aos exames preliminares e provocando em mim algum encantamento… até que discordamos do primeiro adjetivo. Ela prefere a palavra clássica para se referir à musica de concerto, e eu me dou melhor com o termo erudita. Em poucos minutos, para a minha angústia, nos vemos num furioso arranca-rabo retórico em que ela me acusa de ignorância e esnobismo, enquanto me esforço para apontar no seu discurso uma certa apologia da indústria cultural. Não demora para estarmos tão irritados um com o outro que precisamos interromper o diálogo.

Lembro-me então de uma infinidade de discussões semelhantes que tive com amigas e amigos, ex-namoradas e ficantes, colegas de classe ou profissão. Tudo gente parecida comigo, que divide comigo visões de mundo muito próximas e convicções políticas semelhantes. Penso nas incontáveis ocasiões em que, em vez de unir forças para qualquer projeto oportuno de qualquer intervenção coerente, nós insistimos em esmiuçar nossas diferenças e nos entrincheirar em nossas vaidades por causa de um único grão de discórdia, de uma ligeira dissonância qualquer.

Deixo o celular de lado, triste, menos com o desfecho da anedota do que com a impressão crônica de que cada vez mais nos isolamos no nosso narcisismo galopante. Não, eu não tenho dúvida de que é melhor ser contestador do que conivente, de que se deve estar, sempre que possível, atento aos meandros duvidosos dos discursos; não quero de modo algum propor uma atitude café-com-leite para qualquer tipo de conversa e tenho, no pensamento crítico, a fé inamovível de um fanático. Mas, também me pergunto se, nesse esforço constante de criticar o mundo, às vezes não nos tornamos caricaturas da própria crítica; se nessa vontade de ser corretos não há certo prazer em ser melhor que o outro; se, ao exagerarmos na patrulha, não nos reduzimos também ao automatismo do algoritmo e nos limitamos a buscar, na fala alheia, os trechos que poderemos grifar em vermelho.

Três mentiras que me contaram

por Abilio Godoy

A maior mentira que já me contaram foi que a morte não é a morte. Não é o fim de tudo. Nossa alma vai para o céu, ou reencarna. A gente sabe porque está nos livros. A gente sabe porque, se não for assim, nossa vida não faz sentido. Mas, e se a vida não fizer mesmo sentido? E se esse ser mesquinho que sou eu não importar quase nada para o mundo? E se sentido e importar forem palavras que a gente inventa? E se for a gente que escreve os livros, para esquecer nossa pequenez e finitude? A Xuxa disse outro dia que queria ir para a Terra do Nunca para não ter que envelhecer. Ela também se baseou num livro.

A segunda maior mentira que me contaram é que no final dá tudo certo. Pode confiar, nada acontece por acaso. Se ainda não deu certo, é porque não chegou ao fim. Não se aflija, não pondere, não questione. Trabalhe, reze, ame, goze, que no fim há de dar certo. Mas, e se não der, como não dá para tanta gente? E se não houver justiça maior, divina ou metafísica, ponderando o destino de cada um? Será que todas as dez mil pessoas que sucumbiram no terremoto do Nepal mereciam morrer? Será que todas as 185 pessoas que a PM matou no estado só no primeiro trimestre mereciam morrer? E se justiça e merecer forem palavras que a gente inventa? E se a natureza for aleatória e a sociedade, enviesada? Será que todo mundo que segue as regras e se esforça consegue o que foi prometido? Se é no seu fim que as coisas dão certo, então ficam nas mãos da morte os bens que a gente deveria gozar em vida.

A terceira maior mentira que me contaram mora dentro da palavra amanhã. Amanhã a gente vê isso. Semana que vem damos um jeito. Depois eu passo aí. Qualquer dia a gente se encontra. Mas, e se amanhã for muito tarde? Será que o futuro existe além dos verbos? E se a morte for mesmo a morte e o acaso for soberano? Existe alguma garantia? E se a justiça depender da gente? Será que vai dar tempo? Vale esperar que no final alguém nos salve, que, num milagre, acabe dando tudo certo? Enquanto a gente espera, a sociedade continua enviesada, a natureza continua aleatória. E a felicidade com que a gente sonha fica nas mãos descarnadas do amanhã.

A incredulidade implacável dos dentistas

por Abilio Godoy

Eu ia chegar atrasado para a consulta. Por conta de problemas técnicos na linha verde, o trem estava parado havia vinte minutos na estação Brigadeiro. Não gosto de me atrasar, ainda que, neste caso, a culpa não fosse minha. O que me afligia mesmo era como convencer minha dentista da veracidade da desculpa. Sem dúvida pareceria muito conveniente uma pane no metrô quando eu me atrasava para um compromisso logo de manhã. Perdeu a hora, é?, seria a pergunta que ela me faria à queima-roupa; eu lhe relataria o problema e, desconfiada, ela fingiria por educação que acreditava. Apesar de inocente, eu não poderia fazer nada. O que se esquece sobre o Pinóquio é que também sabiam quando ele dizia a verdade.

Cada vez que encaro essa consciência aflitiva de que não acreditam numa verdade que digo, penso que muita coisa seria mais fácil se a gente não mentisse, ou, pelo menos, se a mentira não fosse tão banal em Narcisópolis. Sim, eu sei que pareço ingênuo, que nem sempre as fronteiras da verdade cabem numa linha, mas não me refiro a questões filosóficas. Estou falando de culpar o trânsito quando você perdeu a hora ou de mentir para o seu namorado sobre seu paradeiro na noite passada. Aí vão protestar que há mentiras e mentiras, mais ou menos graves e com boas ou más intenções. Não discordo, mas também não deixo de ver em todas elas uma opção questionável por driblar o que se reconhece dos fatos e, embora alguns argumentem que esse é um cimento social necessário, prefiro acreditar que existem escolhas e que podemos ter uma postura mais crítica em relação aos engodos que criamos.

Afinal, não fosse por eles e não haveria tanta desconfiança, tanta insegurança, tanto ciúme, tanto desapontamento. E nem tanta necessidade de juras e promessas; de contratos, declarações e atestados. Não faz muito tempo saí com uma menina que me provava tudo por multimídia. Mesmo eu dizendo que não precisava, ela compartilhava sua localização por GPS e me mandava capturas do chat com sua chefe, para assegurar a veracidade das suas desculpas. É que já não existe honra em Narcisópolis e, na falta de deuses que nos endossem, hoje juramos pelos nossos smartphones.

Foi pensando nisso que há uns dois anos decidi tentar um experimento social. Em nome do Spock, dos samurais e dos houyhnhnmns, quis ver se era possível enfrentar essa convenção narcisopolitana e tratei de eliminar toda mentira deliberada do meu discurso. Sabe aquela mentirinha branca que a gente conta para poupar alguém de uma verdade cruel, ou aquela distorcida que se dá nos fatos para aparar uma aresta constrangedora? Pois é, não posso. E, passado esse tempo, juro (embora muitas vezes já não precise) que sinto que não perdi quase nada com isso. Claro, fui chamado de radical quando um amigo me ligou para ver se eu encobriria sua pulada de cerca, e magoei um pouco minha ex-namorada quando ela me perguntou se eu achava a atriz do seriado mais bonita do que ela. Mas, aos poucos, tanto essa mesma ex-namorada como outras pessoas próximas passaram a gostar da brincadeira e as ações da minha palavra logo dispararam na bolsa.

Minha dentista, entretanto, não sabe do meu experimento e apresentá-lo naquela ocasião em que ele tanto me convinha poderia parecer ainda mais suspeito. É que uma promessa assim, individual, só pode dar conta do domínio privado. Para que a coisa funcionasse em público, o voto não poderia ser só meu; precisaria ser de todo mundo. Confesso que sonho com um dia em que seremos vulcanos, samurais ou houyhnhnms. Antes desse dia, porém, diante da incredulidade implacável dos dentistas, terei que sacar do bolso o celular com o vídeo que gravei com o anúncio da pane e jurar pelo meu smartphone.

21sp – entrevistas – Abilio Godoy

Abilio Godoy é mestre em teoria literária pela USP e autor de Plano de Fuga (Prumo, 2013).

1. Abilio, você acha que a literatura traz felicidade?, alivia as dores da gente?

Nem uma coisa nem outra. Em primeiro lugar, acho a palavra “felicidade” um tanto vaga, além de perigosa por poder trazer oculta uma ideologia normativa sobre como deve ser uma vida humana. Prefiro discutir o nível mais primário das sensações e falar em prazeres e dores. Sem dúvida a literatura pode trazer prazeres, que, embora sejam trabalhosos, valem, na minha suspeita opinião, muito mais a pena do que muitos prazeres fáceis. Por outro lado, acredito que o envolvimento com a literatura tende a amplificar nossa sensibilidade e, como sou um pouco pessimista em relação ao estado das coisas, acho que isso implica também uma boa parcela de dor. Mas, se você me perguntar se no fim das contas vale a pena, eu vou dizer que vale, menos como uma convicção lógica do que como uma profissão de fé. Minha crença é a de que na maioria das vezes é melhor saber e sentir do que não saber e não sentir.

2. Nosso país tem péssimos níveis de escolaridade. Você acha que transformações sociais significativas e positivas podem acontecer em meio a uma população que lida melhor com pensamento mágico do que com estruturas abstratas e com política?

A resposta mais sincera que eu posso dar é: não faço a menor ideia. Careço do aparato teórico sociológico para especular sobre isso, mas concordo com a relevância da pergunta. O que posso dizer é que essa “alienação mágica” generalizada me entristece a cada dia. Grande parte das pessoas (mesmo as com alto grau de escolaridade) parece preferir transferir seu poder de decisão aos deuses, aos astros, aos orixás, do que assumir sua liberdade no mundo e a reponsabilidade pelas próprias atitudes. Num dos textos que publiquei aqui, comentei como as pessoas preferem reclamar da sorte do que tentar mudar o jogo. Acho que é para isso que os deuses servem, para serem os dados invisíveis que rolam por cima das nuvens. Para que cada derrota, cada injustiça possa ser entendida como azar. Sei que é uma postura radical, mas para mim o sujeito que pensa a si e os outros em função das vicissitudes dos signos ou das demandas dos espíritos do além está no mesmo espectro (embora no limiar oposto) do que justifica sua homofobia com argumentos religiosos.

Escudo antiprivatizador – contra o raio de Satan Goss

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por Abilio Godoy

Com o começo do circo publicitário eleitoreiro nas últimas semanas, fez sucesso nas redes sociais o anúncio de um candidato a deputado que voa como um super-herói por Narcisópolis e combate vilões comunistas com seu raio privatizador.

Tendo sucumbido à curiosidade mórbida de ver o anúncio no Youtube, eu me sinto na obrigação de parabenizar o marqueteiro responsável por sua acertada concepção simbólica do processo de privatização.

Sim, porque o único personagem que conheço que solta dos olhos um raio vermelho com o poder de modificar seus alvos – e não apenas incendiá-los ou destruí-los, como no caso do Super-Homem – é o arqui-inimigo do Jaspion, Satan Goss, que, na sua sanha de submeter a Terra ao Império dos Monstros, faz uso frequente de um raio que “tem o poder de enfurecer os seres e transformá-los em monstros incontroláveis”.

E olha que bacana: é isso mesmo que pregam os defensores do Império dos Monstros Privados. Que empresas e instituições públicas (com ênfase recente nas universidades) se tornem incontroláveis, ou, melhor dizendo, que o Estado abra mão do controle que tem sobre elas e as deixe sob o jugo do mercado.

A ideia é que quanto menos o Estado intervier mais os monstros privados poderão controlar uns aos outros por livre concorrência. Assim, o monstro que prestar melhores serviços ou oferecer melhores produtos pelo menor preço obterá a preferência do público e, como consequência, maior sucesso financeiro. Com o tempo, só os monstros mais eficazes prevalecerão e a competição incessante do mercado fará com que tudo tenda ao melhor e ao mais justo.

Uma pena que o monstro que surgiu na cidade estadunidense de Wilkes-Barre, quando o raio privatizador atingiu uma instituição estatal encarregada de reabilitar menores delinquentes, não viu problema – afinal era incontrolável – em pagar alguns juízes para estenderem as sentenças de jovens que, por seus delitos insignificantes, não deviam nem ser encarcerados. É que no Império dos Monstros Privados mais justo não é o que é justo; mais justo é o que dá lucro.

Uma pena também que os monstros que surgiram quando o raio privatizador atingiu nossas telecomunicações, em vez de competirem pelos melhores serviços, preferiram – são incontroláveis – nivelar o jogo por baixo. Graças a Satan Goss, hoje temos a liberdade de escolher entre a operadora que presta serviços medíocres por preços altíssimos, a que presta serviços ruins por preços altos e a que presta serviços péssimos por preços medianos. É que no Império dos Monstros Privados melhor não é o que é bom; melhor é o que dá lucro.

O que esses exemplos demonstram é que a privatização generalizada, defendida por neoliberais como o candidato do anúncio, é uma proposta enganosa que parece não levar em conta – ao menos no plano da propaganda ideológica – as complexidades mais sujas do capitalismo. 

A maior mentira no projeto do Império dos Monstros Privados é a de que eficácia e excelência sejam os únicos ou principais trunfos no livre mercado. Existem inúmeros atalhos pantanosos para o lucro e, na ausência ou enfraquecimento de um Estado que garanta a vigência de valores independentes do dinheiro, não há nenhum herói de seriado japonês capaz de impedir que os monstros descontrolados devorem como bem entendam os cidadãos indefesos de Tóquio.

Não reclama contra o temporal

seca

por Abilio Godoy

Eu não devia reclamar tanto. É o comentário que mais escuto sobre minhas publicações aqui. Seus textos são bons, você escreve bem – mas não devia reclamar tanto. Você é muito ácido, negativo, pessimista. Assim fica parecendo um chato, um despeitado. Não pega bem reclamar em Narcisópolis. Não se pode disparar por aqui uma metralhadora cheia de mágoas. A vida não passa de um jogo e ninguém atura um mau perdedor.

Tudo bem, eu posso aceitar a crítica. O que não posso é deixar de observar que mesmo os que me pedem para reclamar menos costumam se queixar com frequência da sorte, das ressacas, da insônia, das dores de cotovelo, do dedo indelicado do urologista. O bom perdedor, parece, é o que reclama dos dados – deselegante é o que pretende questionar as regras do jogo. E fundamental é a civilidade de se queixar em privado, na janela do chat ou no divã do consultório. Somos quase todos perdedores, mas precisamos guardar isso em segredo.

E por que mesmo precisamos? Ah, sim, porque temos vergonha de perder e aceitamos a culpa por cada uma das nossas derrotas. Você é pobre? A culpa é sua. Está doente? A culpa é sua. Foi demitido? A culpa é sua. Foi traído e abandonado? A culpa é sua. Foi estuprada? Culpa sua. É drogado, alcóolatra, gordo, deprimido? Sua máxima culpa. Não há nada de errado com o jogo – a culpa é sempre do jogador. E se mais de 20% das pessoas no planeta sofrem de depressão, a culpa só pode ser dessa gente chata, reclamona e derrotista.

Afinal, é só ligar a tevê para ver o depoimento de um monte de gente que venceu dificuldades enormes. Do goleiro – coitado, que só ele e a família sabem o que passou – à senhorinha feia que virou uma grande cantora. Do empreendedor que enriqueceu com uma ideia criativa ao sujeito que não tinha nada e chegou lá, com uma mãozinha do apresentador gente boa.

Poxa, é do otimismo dos vencedores – não de reclamações – que o mundo precisa! Quem sou eu para reclamar, se essa gente sofrida conseguiu chegar tão alto? Se perdemos, a culpa só pode ser nossa, porque não jogamos direito. Ou então porque faltou um pouco de sorte, faltou aquela mãozinha do apresentador. O importante, porém, é não desanimar. É continuar jogando de queixo erguido. Se for para reclamar, que seja das cartas e só para os íntimos.

‘Não reclama contra o temporal’, dizia uma velha canção de Narcisópolis*. Não reclama, insistia o sambista, que hoje talvez nos aconselhasse a não reclamar da seca. Não reclama, ele assobiava enquanto seu sarcasmo fino escancarava os absurdos. Não reclama, ele cantava para nos ensinar a não culpar a chuva, ou qualquer lance dos dados. Não reclama, ele reclamava com a coragem resoluta de um mau perdedor que não se conforma com as regras injustas no manual que os vencedores imprimem.

* https://www.youtube.com/watch?v=xvYO3z8q-QY

Você não vai conhecer o homem dos seus sonhos

toad_prince

por Abilio Godoy

Dia desses uma amiga comentou que eu só tenho criticado tudo aqui na 21sp. Poxa, existe amor nesta cidade, ela provocou. Foi aí que, amuado pela bronca, decidi ceder e falar mal também do amor em Narcisópolis.

Por coincidência, nas últimas semanas, quatro pessoas próximas vieram reclamar para mim dos seus relacionamentos. Duas garotas e dois caras. Uma delas casada e os outros três com namoros sérios. O ponto em comum entre todos: descobriram que seus parceiros os enganavam com frequência, mentido e dissimulando a tal ponto que, quando descobertos, pareceram-lhes irreconhecíveis.

Abrindo o foco e olhando para o que tenho visto nos últimos anos, fico com a impressão de que temos mesmo lidado muito mal com nossas vidas afetivas. E uma das coisas que sempre me incomoda é que seguimos buscando um parceiro ideal e desejando um relacionamento perfeito. Ou seremos o casal mais feliz do mundo ou não seremos nada, me disse convicto um dos quatro reclamantes.

Acontece que, longe de Hollywood e das telenovelas, ninguém encontra a pessoa dos seus sonhos. Porque a pessoa dos nossos sonhos é só a idealização de alguém capaz de satisfazer nossos desejos sem qualquer necessidade ou carência próprias. O casal mais feliz do mundo só pode existir como abstração imóvel, nas páginas do romance ou na tela do cinema. Aqui, no domínio da matéria, o aumento da entropia é inevitável: tudo há de ser precário, instável e provisório.

E, não obstante, corremos para todo abrigo que possa nos esconder do tempo. Gostamos tanto das redes sociais porque nelas podemos enfim nos tornar as abstrações que queremos ser. Numa foto do Tinder, em que não há processo nem história, a pessoa dos nossos sonhos pode surgir com seu sorriso eterno e imperturbável. Com um pouco de sorte, o casal mais feliz do mundo será anunciado semanas depois pelo Facebook.

Qual a surpresa, portanto, quando nos descobrimos mentirosos, se o que buscamos é uma mentira? Qual a surpresa, se o que temos chamado de amor é um fosso que cavamos para que a realidade não invada o faz-de-conta? Qual a surpresa, se às atitudes concretas preferimos as boas intenções e as palavras vazias? Qual a surpresa, se damos prioridade ao espetáculo em detrimento da rotina?

Tristes, decepcionados e ansiosos, meus quatro amigos não têm escolha além de deixar que a mesma força que antes quiseram negar – o tempo – aja sobre eles e eroda as ruínas dos castelos abandonados. Enquanto isso suas fotos aguardam o próximo sapo, sorrindo felizes para sempre nas redes sociais.

Contra o Bolsa Família

por Abilio Godoy

Nós, os cidadãos de bem de Narcisópolis, somos contrários ao Bolsa Família.

Afinal, melhor que dar o peixe, é ensinar a pescar. Pouco importa o contexto, ou o sujeito em questão – essa é a máxima universal. Pouco importa se o sujeito não tem vara, linha ou anzol – o conhecimento é o que vale mais. Pouco importa se quando ele chegar com seu barquinho, nossa lancha já tiver passado a rede. Sempre sobra algum para quem se esforça um pouco. E se não sobrar, seremos generosos e lhe daremos um trocado para olhar nosso carro, cuidar das nossas crianças, ou lavar nossas privadas. Melhor que dar esmola é dar trabalho e oportunidade.

E, por falar em oportunidade, por que não usar esse dinheiro para construir escolas? Quem precisa de comida, remédio, roupa…? As crianças precisam é de estudo – o conhecimento é o que vale mais. Pouco importa que até a escola ficar pronta as crianças cresceram marginalizadas. Pouco importa que a escola pública não conduza à universidade. Não precisamos só de doutores – também precisamos de faxineiros e lixeiros e serventes de obra e garçons e coveiros e babás e professores. Precisamos, inclusive para essas novas escolas, encontrar por aí alguém idealista ou desesperado o bastante para copiar o livro na lousa por algum trocado. E se a aula for ruim, não tem problema. Melhor a criança desestimulada na sala do que roubando e usando droga. Mas se a meninada matar a aula também não faz mal, que a nossa polícia mata. Melhor que dar esmola é dar educação e oportunidade.

Como pode ser justo o governo distribuir o dinheiro do imposto que sonegamos com tanto custo? Agora então é socialismo? Não, não está certo o sujeito receber sem trabalhar. Isso só na cabeça de comunista. Com a exceção da parte que herdou tudo o que tem, ou que roubou tudo o que tem, nós trabalhamos muito para chegar aonde chegamos. Passamos noites sem dormir pensando em como lucrar mais e pagar menos aos nossos funcionários. E aí vem o governo e começa a dar dinheiro? Quem vai querer trabalhar se o governo dá dinheiro? Quem vai olhar o nosso carro e cuidar dos nossos filhos e lavar a nossa privada? Quem quer trabalhar se o governo paga setenta reais para o cara ficar de barriga para cima. Setenta reais é muito dinheiro para essa gente simples. A gente viveria muito bem com setenta reais se não tivesse que pagar cartão de crédito, telefone, internet, escola, plano de saúde, seguro do carro. Mas essa gente humilde não precisa de nada disso. Gasta setenta reais com cachaça e é tudo uma festa. Não, senhor. Ganhar dinheiro assim, sem trabalhar, é desonroso. Os ricos podem, mas é por causa da sua dignidade natural. Já os pobres precisam do trabalho para se civilizarem e aprenderem o valor das coisas. Melhor que dar esmola é dar dignidade e oportunidade.

E se for mesmo para dar esmola, deixem o dinheiro do imposto – o que a gente não sonega – conosco e nós mesmos entregamos ao mendigo do farol. Não setenta reais, que não andamos com muito dinheiro na carteira. Mas sempre tem umas moedas ali no porta-copos do automóvel. Quinze, vinte, trinta centavos não hão de faltar. A não ser que o carro seja blindado, porque aí ninguém é louco de abrir o vidro nessa cidade violenta.