Ensaio de interpretação das motivações políticas da classe média

Por Daniel Pereira Andrade (professor de sociologia FGV-SP)

Quero fazer um exercício de interpretação da possível racionalidade estratégica que perpassa as atuais manifestações de ódio da classe média (ou ao menos de parte dela, especialmente, mas não exclusivamente, em São Paulo, como se pôde verificar na manifestação do dia 15 de março de 2015 e em outras amostras cotidianas que vêm ocorrendo ao menos desde as manifestações de junho de 2013 e quiçá antes). O fenômeno fundamental a ser compreendido é a conversão à direita dessa classe, já que ela não foi sempre majoritariamente adepta desse espectro político (para exemplificar, basta lembrar sua posição de centro-esquerda na redemocratização e também na primeira eleição de Lula). Antes de iniciar, apenas duas ressalvas. Primeiro, é importante lembrar que a classe média não é homogênea politicamente, sendo que ao menos 1/3 dela permanece alinhada com um projeto de esquerda, seja uma aspiração socialdemocrata, seja uma opção socialista mais radical. Segundo, que a compreensão dessas motivações como estratégia racional não implica uma concordância ou uma defesa da sua legitimidade (já adianto que a minha posição política é contrária).

Vamos lá:

1) A classe média possui alguns motivos concretos de queixa (ainda que as classes trabalhadoras possuam muitos mais). Três queixas, em especial: a) a precarização que cada vez mais atinge as profissões tradicionais de classe média. Exemplos são o aumento da competição em setores administrativos como resultado das modernas estratégias de gestão, a intensificação do trabalho sob a ameaça de demissão, o rebaixamento dos salários e benefícios e a conversão em pessoa jurídica de jornalistas, advogados, pessoal da saúde, etc.; b) o aumento do custo de vida, especialmente dos serviços, cujo consumo caracteriza a classe média e a distingue das classes trabalhadoras populares – a inflação média dos serviços está acima da média da inflação nos últimos anos; c) pagar duas vezes por serviços básicos, já que, além dos impostos para os serviços públicos, a classe média paga educação, saúde, segurança privadas. Combinando essas queixas, podemos dizer que, para manter o mesmo nível de vida, com acesso a serviços privados cada vez mais caros, a classe média precisa trabalhar cada vez mais em profissões cada vez mais precarizadas.

2) A decepção diante da opção petista e com a nova república. Após a redemocratização, a classe média se dividiu entre dois projetos: um neoliberal, representado por Collor e depois FHC, outro socialdemocrata, representado pelo PT. Depois da clara decepção com o neoliberalismo durante os anos de 1990, as fichas foram apostadas no PT como possibilidade de constituição de um Estado de Bem-Estar Social. Quando a classe média realizou que o PT não aumentou suficientemente os investimentos públicos, pois não rompeu com o compromisso neoliberal de manter os altos lucros do capital financeiro (lembrar da “carta ao povo brasileiro”), a decepção veio não apenas com o PT, mas com a república nova. Ficou claro que não havia alternativa política capaz de promover serviços públicos de qualidade, pois nem PT nem PSDB romperiam com interesses financeiros para investir em bem-estar social.

3) Mas, além disso, os programas de transferência de renda para os mais pobres, o aumento dos empregos formais até 2 salários mínimos e o aumento substancial do salário mínimo, que converteram boa parte dos subproletários em proletários e melhoraram as condições das classes trabalhadoras populares rebateu diretamente no bolso da classe média. Sobretudo o custo dos serviços não qualificados, braçais, dos quais a classe média se servia amplamente, subiram muito e os trabalhadores passaram a não topar qualquer tarefa pesada em troca de uma ninharia. A alta do salário mínimo em um emprego formal acarretou o aumento de custo do garçom, do lavador de prato, da faxineira, do segurança, do porteiro, da empregada doméstica, e, consequentemente, do restaurante, do condomínio, da escola particular, do plano de saúde, dos serviços domésticos etc. Enfim, a melhoria das classes trabalhadoras populares implicou aumento do custo de serviços para a classe consumidora de serviços por excelência, a classe média, reduzindo seu poder de compra.

4) O aumento da renda das classes trabalhadoras populares deu acesso a elas, ainda que de maneira desigual, a esferas de consumo e lazer que antes eram exclusivas da classe média. Tal fato promoveu não uma diluição dos signos de distinção social, mas uma tensão de convivência cotidiana entre classes com habitus diferentes, mas situadas agora em um mesmo espaço social e na mesma condição. Isso representava, além de um empobrecimento simbólico relativo, um aumento da tensão e de desprezo das classes médias em relação às populares.

5) Entrevendo no PT um partido que não apenas não melhorava os serviços públicos, mas ainda encarecia os serviços privados, especialmente os braçais, a classe média abandona o PT, mesmo reconhecendo que o partido havia tirado milhões de pessoas da miséria.

6) Diante do fato de que nem PSDB nem PT romperiam com o grande capital para viabilizar serviços públicos de qualidade, a classe média volta a adotar uma visão de mundo neoliberal. O raciocínio é simples: se tenho que pagar duas vezes pelos serviços essenciais (uma vez nos impostos públicos, outra vez nos privados), e já que nenhum partido vai oferecer serviços públicos de qualidade, então que paguemos apenas os serviços privados: que tudo seja privatizado.

7) A política neoliberal, em teoria, poderia acabar com as políticas de transferência de renda e programas sociais, sujeitando as classes trabalhadoras a uma condição ainda mais precária, abaixando assim o custo de seus serviços manuais e barateando os serviços privados. Não apenas a classe média não pagaria duas vezes pelos mesmos serviços, como ainda ela pagaria mais barato pelos serviços privados.

8) A posição política passa assim a oscilar entre adesão ao neoliberalismo mais extremo do PSDB e entre uma descrença total na política, confundindo crítica à política com crítica ao próprio Estado de bem-estar social.

9) A descrença na política se dá pois tanto PT como PSDB não foram capazes de melhorar a condição de vida das classes médias. O que, aliás, é um problema internacional, pois as classes médias dos países desenvolvidos, sob governos neoliberais de direita ou de esquerda, foram sendo continuamente precarizadas, com acesso pior a serviços públicos, a renda e a direitos sociais.

10) Diante da hegemonia do grande capital no neoliberalismo, antevendo essa hegemonia como politicamente insuperável ou se identificando com as classes mais abastadas como aspiração, o ódio da classe média se volta contra as classes trabalhadoras populares. Piorar suas condições de vida significa melhorar o acesso da classe média aos serviços. Além disso, elas são vistas como usurpadoras sem méritos do dinheiro de seus impostos. Não querendo pagar a conta do fim do crescimento econômico, a classe média quer impingir esta conta aos mais pobres, excluídos históricos da sociedade brasileira. Quer voltar a colocá-los no lugar “de onde nunca deveriam ter saído”. O conflito se desloca, portanto, da luta dos assalariados contra o capital para o conflito entre faixas de assalariados, ou entre classes gerenciais e liberais profissionais contra trabalhadores não ou pouco qualificados, especialmente trabalhadores braçais. Eis a razão do ódio instintivo de classe.

11) A truculência do combate, com a recusa de qualquer sentimento de solidariedade com os mais pobres e de qualquer argumento intelectual sobre as razões históricas da injustiça social, se explica pela colocação em competição das classes assalariadas (média x trabalhadora). Nesta situação, a classe média tende a direcionar toda a agressividade que vive cotidianamente nas situações de competição intensificada no trabalho, resultantes dos modernos métodos de gestão, contra as classes trabalhadoras ascendentes ou miseráveis. A competição, agora de classes, é encarada como uma luta darwiniana pela sobrevivência, não cabendo, nesse contexto, qualquer sentimento de piedade ou compaixão. Qualquer discurso de sensibilidade diante da injustiça social é execrado. Razões históricas da desigualdade não interessam. Intelectuais e professores que insistem sobre o assunto são tidos como inimigos e devem ser boicotados – no limite, são vistos como traidores de classe, comunistas irremíveis. O “panelaço” representa bem essa recusa à escuta. O que resta é apenas uma crua racionalidade econômica, que concebe o mundo como uma luta de todos contra todos no livre mercado e que pressupõe a-criticamente (de modo deliberado?) uma igualdade de condições, especialmente de disposições subjetivas, no ponto de partida da competição. Todas as relações humanas, inclusive a concepção de justiça, reduzem-se assim a frios cálculos de custo-benefício, investimento e retorno, na qual todos os demais valores humanos são descartados, esvaziando a discussão política de que fins devem guiar a sociedade. O resultado é a truculência de um combate onde o que está em jogo é mais do que uma vitória, é a sobrevivência.

12) Por fim, o ódio é canalizado contra o PT, que aglutina uma série de simbolismos. O PT é o partido cujos principais representantes, os presidentes eleitos, carregam a marca de classe (o analfabetismo de Lula, a falta de fluência na linguagem de Dilma), é visto como o partido que interfere de maneira indevida na competição ao tirar da classe média para dar aos pobres, que rompe com a “meritocracia” com sua política social, e que por isso é corrupto tanto na cobrança de impostos tidos como indevidos, quanto no seu mau emprego, além, claro, dos escândalos midiáticos. O PT encarna, assim, o grande inimigo, que quer colocar nas costas das classes médias (especialmente de São Paulo ou do sul) o peso de carregar economicamente o país.

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