A língua que pensa

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por Orlando M. Ferreira

O que se pleiteia é que leiamos. Ora, geralmente o brasileiro lê, e lê muito. Lemos livros, revistas, jornais, placas de trânsito, nomes de loja, outdoors, convites de casamento, facebooks, twitters, e principalmente os inevitáveis torpedos de celular, chats, messengers, whatsupps, androids, boilers, dumbers ou qualquer outro barbarismo que a criatividade impagável da arte publicitária esteja prestes a inventar. Lemos o tempo todo porque deciframos, compreendemos, ou pensamos que compreendemos.

Lemos, mas pensamos no que lemos? Claro que sim, quando está calado até o Frota pensa. Por isso, quando alguém se surpreende falando sozinho e se desculpa pela suposta loucura, respondo que é sinal de inteligência, de que um rico mundo interior quer pular para fora. Se o pensamento se realiza como linguagem, considerar que quem fala sozinho é louco não é muito diferente de dizer que quem pensa é louco. O que seria normal, pelo menos aqui em São Paulo, onde o pensamento é considerado perigoso a ponto da direita pleitear a extinção das aulas de Sociologia, Filosofia e História.

Mas creio que me perdi. Ah, sim. Então estamos de acordo a respeito da leitura, que todos nós, até os mais analfabetos, lemos; e que lemos até pensamento (pelo menos cada um lê o seu, ou deveria).

Chegamos então ao antro mais profundo do problema. Se até o humano mais iletrado lê e pensa, o que falta para que possamos nos considerar uma nação plenamente letrada, no sentido em que ler deveria ser alguma coisa mais do que juntar letrinhas, fonemas e sentidos, ou interpretar códigos visuais e sonoros? Eu chamo isso de ler a linguagem, quer dizer, quando ouço, penso, ou leio, tento pensar no que ouvi, pensei ou li. Sim, isso é um lugar comum. Mas não me refiro somente à “interpretação” do texto. É preciso considerar que, como dizia o poeta, existe algo de profundamente engraçado na linguagem, que ela não diz propriamente o que pensamos dizer, ou pretendemos dizer, mas sempre diz algo mais que escapa à nossa intenção.[1] A linguagem tem vida própria, existe à parte de nós e tenta comandar nossos pensamentos. Estamos tão imersos nisso desde que nascemos, que esquecemos que a linguagem é um jogo de convenções, sentimentos, crenças, intuição e preguiça.

Há uma fé assumida na linguagem e no sentido, fé absolutamente humana, um artifício da humanização, se me permitem falar bobagem. Ler, no sentido do termo ao qual convido o leitor a refletir, requer a suspensão desta fé na linguagem, ao menos por um momento. Não é fácil, admito. Mas a operação se assemelha com a brincadeira do garoto que repete teimosamente uma palavra até perceber, surpreso, que gastou o sentido, que ela se tornou estranha, uma mera sequência de sons que não se referem mais ao objeto que antes designavam. Eis o primeiro passo para a verdadeira alfabetização, e o pressuposto para qualquer ambição de liberdade linguística.

Por outro lado, a crença profunda na fala, que toma por realidade os símbolos que designam as coisas, acaba tendo consequências funestas.  O poeta alemão Schiller escreveu certa vez a respeito da “língua que poetiza e pensa por ti”, que ”conduz meu sentimento, dirige a minha mente, de forma tão mais natural quanto mais eu me entregar a ela inconscientemente”.[2] A coisa fica patente quando pensamos em termos que são investidos de uma forte carga ideológica.

Na época da ditadura, quando eu era criança, “comunista” era um palavrão terrível, tinha um conteúdo que não compreendíamos bem, era algo sujo, perigoso, porém indefinido. Uma coisa semelhante acontece com a palavra “bandido”. Quando lemos na imprensa que os “bandidos” foram presos, não se trata jamais de uma declaração objetiva e imparcial, como o jornalismo sustenta. Ela cobra nossa fé. É como se a pessoa designada, culpada ou não (isso realmente não importa aqui) fosse vestida com o casaco linguístico da “bandidagem”. Porque estamos educados pela linguagem, pela língua viva, a compreender a palavra de uma determinada maneira. Palavras deste tipo me trazem à mente a imagem de uma locomotiva que arrasta uma infinidade de vagões – outras palavras, valores, imagens,  construções ideológicas inconscientes. Por exemplo: “o bandido facínora que espreita na noite prestes a atacar uma família ordeira e pacífica; o ladrão que se aproveita do trabalhador que ganhou o dinheiro com o suor do rosto; que merece ser linchado porque a justiça vai soltar; o sujeito que não trabalha porque é vagabundo e drogado”; e no mais das vezes remete ao “preto pobre que vive na favela, perigoso à espreita do branco”. E por aí vai. Outra palavra é “crise”. Periodicamente ela reaparece e volta a nos assombrar. Pois sabemos que “a crise é um horror, a crise remete à desordem, à penúria, ao descontrole, à inflação; crise é terrível, é uma doença, uma mácula, tem que ser evitada a todo custo, é sinal de má gestão, de incompetência, de desmando”. E então lemos em letras garrafais no jornal do dia: “USP em crise”. O que são afinal essa crise e esse bandido, além do que a língua nos oferece na sua imediatez?[3]

Por isso digo que para ler é preciso antes desaprender a ler. Porque o bandido designado pela palavra “bandido” não está realmente lá. Assim como não existe o “corrupto”, a “crise”, o “vândalo”, o “baderneiro”, nem a “política”, nos quais as palavras querem nos fazer crer. Porém, ao designarem as coisas, ao deformarem o real, as palavras reconstroem o que designam; convidam à ação, reconfigurando a realidade segundo sua pretensão significante. Enquanto isso, nossa identidade e história, o sentido preciso de nossas vidas e lutas são deformados ou destruídos. São apagados pela linguagem vil que bombardeia nossos olhos e ouvidos sem cessar. E se damos fé demais às palavras, acabamos contribuindo para isso, desempenhando os papéis que a linguagem nos impõe.[4]


NOTAS:

[1] Novalis. Pólen: fragmentos, diálogos, monólogo. São Paulo: Iluminuras, 1988, p. 195.

[2] Victor Klemperer. LTI: a linguagem do Terceiro Reich. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009,  p. 55.

[3] Seria de grande proveito listar as palavras pensantes referentes ao momento político atual. No topo despontariam “corrupto”, “vândalo” e “baderneiro”. Por convidarem à fé, à entrega à “língua que pensa por nós” é que essas palavras são as preferidas da TV, da imprensa e da publicidade.

[4] É digna de nota a lógica linguística (e ideológica) que rege hoje a Universidade, com destaque para os termos “produção”, “produto”, “capital humano”, “sucesso”, “vencedor/derrotado”, e seus congêneres, relacionados com um ideal empreendedor típico do marketing, que valoriza o senso de oportunidade e a esperteza numa realidade tida como a da jogatina.

Ilustração:  Paul Weber, Der Schlag ins Leere / O golpe no vazio (1933).

Fragmento de virtualidade

por Orlando M. Ferreira

Algumas coisas perecem pela virtualidade. É como uma evaporação do suporte material da existência, transposta para o etéreo virtual – a foto, o livro, o disco.

Todas as fotos que guardo nas caixas são antigas. Um dia deixei de segurar fotos nas mãos. Me cerco de livros, mas vejo quadros na tela, não nos livros. Minhas paredes são quase brancas.

Tudo me parece excessivo agora. Excesso de peso para as letras, o papel; excesso de espaço para os livros, as estantes; excesso de vida, o corpo. A máquina contém o livro, o papel e a vida. Impera sobre a matéria desencarnada.

A tela pede atenção: “vem, está tudo aqui.” Onde? “Lá, mais além – sempre – no espaço intangível da virtualidade onde tudo se perde”.

O acesso tem que ser absoluto, total. As portas nunca devem se fechar.

O acesso não é propriamente um contato, é sempre intermediado. Há sempre uma barreira entre eu e o conteúdo – uma tela, um código, uma variedade de símbolos e de caminhos.

Começo com nostalgias. Uma foto, um disco, um livro são sempre mais do que uma foto, um disco e um livro. São presentificações do passado. Agora se tornaram ainda mais do que eram, por denotarem um conteúdo perdido, por serem objetos que atraem pelo arcaísmo (são vintage). Não são antiguidades, mas também perderam a atualidade. Existem como sinal de carências e imperfeições, numa espécie de limbo (o lado de cá) ao qual se opõe o espaço virtual.  

O corpo fala mais do que eles como presentificação. É um supercorpo. Ele se oblitera pela letra no etéreo, e retorna depois, cada vez mais destacado de si. Sou o que se apresenta ao toque e aos olhos. A carne e o signo da carne. Ser é perecer, sempre, à exaustão.

Bachelard elaborou uma poética do espaço e dos objetos. O fogo não é só uma operação química de combustão. Outros atributos simbólicos se sobrepõem às tentativas de controle científico do objeto. A mágica do fogo domina a ciência do fogo. O fogo primordial, a chama dos caçadores, a fogueira onde nos reunimos para conversar à noite, a hipnose da labareda, o conforto da chama crepitante.

Revelo uma fotografia. Decepcionado, percebo que ela não é como as antigas. É uma exceção, um acidente, uma anomalia. As imagens não vivem mais aqui, mas nos programas, nas nuvens. Pretendo trazer para cá parcelas desta existência efetiva, materializar a vida, mas só consigo migalhas.

O futuro do passado (1): o videofone

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por Orlando M. Ferreira

Nos filmes de ficção científica dos anos 70 nos impressionávamos com o videofone, aquele aparelho telefônico que permitia que as pessoas vissem a cara umas das outras. Era um telefone com tela de TV, ou vídeo, daí o nome. O mais famoso é o que aparece em 2001: Uma Odisseia no Espaço, na cena em que o dr. Floyd conversa, da estação orbital, com sua família que está na Terra.

Há uma lógica de desenvolvimento progressivo na ideia do videofone: primeiro surgiu o papel e o texto escrito, a carta; depois o telégrafo, que emitia sinais sonoros simples; daí veio o telefone, que transmitia a fala; então apareceu a TV e a transmissão da imagem; a próxima etapa seria, com certeza, o acoplamento de uma TV a um telefone, dando origem ao ápice da comunicação moderna, o videofone. Esta previsão não considerou, contudo, aspectos que se delinearam depois, durante a revolução técnico-científica dos anos 80 e 90, principalmente hábitos culturais relacionados com as novas tecnologias informáticas. Isso nos chama atenção para o fato de que as concepções lineares do progresso e as teorias do futuro que nelas se sustentam costumam ser, apesar das aparências, equivocadas.

O videofone a rigor não existe hoje em dia.* Apesar de realizarmos o sonho da ficção científica do passado, ele não é um aparelho telefônico – um hardware, diríamos – mas um software subordinado ao contexto físico de um computador, algo que não participava de sua representação no passado. Na ficção científica, até os anos 60, o computador era um aparelho que respondia perguntas. Os cientistas falavam e ele soltava um rolo de papel ou dizia a resposta. Nos anos 70 ele foi se tornando uma figura ameaçadora, um cérebro eletrônico meio desequilibrado, como o próprio Hal9000 em 2001. Já o videofone era um artefato diferente, existia à parte dos computadores, como os carros voadores, aerotrens e o teletransportador de Jornada nas Estrelas.

No entanto, o maior equívoco do passado, que deixaria as pessoas dos anos 60-70 atônitas, é nosso descaso em relação ao videofone justo no momento em que ele se tornou virtualmente real.  Ao invés de nos fartarmos com o uso do Skype, ele permanece como um recurso restrito por certos hábitos culturais que condicionam sua utilização, na maioria das vezes, entre pessoas que guardam alguma intimidade, colegas, amigos, parentes ou amantes. Além disso, o próprio uso do telefone recuou diante do texto, pela prática de teclar mais do que falar, o que ocorre tanto nas redes sociais quanto nos celulares. E apesar do que se alega por aí, isso não ocorre somente, nem principalmente, pelos custos da telefonia. Sabemos como pode ser inconveniente o uso do telefone em certas circunstâncias, quando consideramos mais polido (menos invasivo) utilizar o SMS ou aplicativos de bate-papo. A popularidade recente do WhatsApp só veio reforçar esta tendência.

Imagino então como seria louca e fora de cabimento em 1968, para um espectador de 2001: Uma Odisseia no Espaço, a ideia de que em 2014 “ainda” nos comunicaríamos por textos, ou pior, nos comunicaríamos preferencialmente pela palavra escrita, ao invés de utilizarmos os sonhados videofones. Na concepção da época, teríamos regredido para modos primitivos de comunicação, paradoxalmente incrustados em máquinas inacreditavelmente avançadas para os anos 60 e 70. Por um outro lado, para nós o futuro pensado em 1970 parece sempre um pouco ridículo, ou charmosamente kitsch.

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* O videofone (como uma tela acoplada ao telefone) existe, porém seu uso não se popularizou, sendo indicado para surdos ou pessoas com problemas de articulação. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Videofone, em 25/08/2014. O caso do interfone com tela pode ser mencionado, mas ele não é utilizado como comunicador no sentido atribuído ao videofone nos antigos filmes de ficção científica.

Cartman, Diógenes e os bárbaros

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por Orlando M. Ferreira

Definitivamente, o humor se tornou cínico. Não é preciso procurar muito na infinidade de canais a cabo para encontrar  desenhos animados “adultos” onde os pontos de dor do mundo contemporâneo são apresentados sem a menor cerimônia e se tornam motivo de riso. Sabem do que estou falando, o modelo pré-histórico e desgastado é Os Simpsons, superado em ousadia por South Park que, no entanto, já se arrisca a perder o troféu para Uma Família da Pesada e American Dad. O consenso é que os autores chocam para vender, mas que também há uma vaga aspiração crítica; como a propaganda de South Park menciona, sua vantagem é ser “cada vez mais ácido”, em referência a um humor que não respeita nada.

Neste sentido, talvez não haja uma grande diferença entre o humor boçal de Danilo Gentili, que chama o riso pela escatologia “transgressora”, e o humor de seriados do gênero de South Park, nos quais o trabalho infantil, a escravidão, o assassinato político, a tortura e todo tipo de sofrimento humano se tornam motivo de piada. A ordem é “não há limites”, é prosseguir “breaking all the rules”. Daí a recusa a qualquer censura moral como babaquice politicamente correta ou “coisa de hippie”, como diria Cartman, o anti-herói de South Park.  

É possível perceber aí um traço fundamental do cinismo pós-moderno que o distancia do cinismo da Antiguidade, expresso por filósofos como Menipo e Diógenes.* Se estes debochavam dos homens, denunciando sua vileza, especialmente a dos ricos e poderosos, eles o faziam em defesa da moral e não contra ela.

Por outro lado, transparece um ponto ambíguo de convergência. De modo semelhante a South Park, o cinismo antigo se funda na constatação irônica do absurdo do mundo, uma ordem infernal, louca e cruel na qual o único consolo é o riso. Um riso ácido, por certo, mas somente por seu potencial em dissolver esta ordem de coisas, como desejo de transformação do mundo.

Eis porque considero South Park uma das poucas coisas inteligentes atualmente exibidas na TV brasileira. Com seu desfile cínico de bizarrices politicamente incorretas, sua sátira abre uma  brecha crítica no real. Mas apenas se o telespectador quiser exercer a crítica, é claro, porque a série pode ser, como na maioria das vezes é, assistida como um programa na linha da maioria do humor que pulula por aí. Na medida da atração exercida pela boçalidade de Cartman, podemos achar tudo engraçado e pensar, “o.k., o mundo é mesmo bizarro e cruel, mas dane-se, é melhor rir do que chorar e no fim posso até lucrar com isso”.

Mas também é possível assumir a postura crítica de Stan Marsh, o personagem que foi ao médico porque um dia “começou a achar tudo uma merda”, e recebeu o diagnóstico de que era um cínico irremediável.** O “cinismo” de Stan não é como o de Cartman, que se conforma com o sofrimento humano, nem como o de Diógenes, que evoca o absurdo pelo riso para o desmascarar. Na verdade, o diagnóstico do médico estava errado. Stan não é um cínico. Ele se entedia profundamente com uma realidade que de repente se revela “uma bosta” e se torna um tipo de realista deprimido e alcoólatra.

Os grandes cínicos, afinal, são os próprios criadores/roteiristas da série, que não operam nos termos de uma recusa da ordem das coisas que retratam, mas a favor de um conformismo pós-moderno. Pois no fim o objetivo, sabemos, é empacotar e vender o produto, um desenho animado facilmente digestível.

Isso sinaliza para a visão de mundo dominante na atualidade, expressa na cena do filme As invasões bárbaras, em que velhos intelectuais de esquerda da geração dos anos 60 relembram com humor seus ideais políticos de juventude: “um dia fomos existencialistas, então viramos trotskistas, daí nos tornamos maoistas, e depois…, e depois…”; para no fim se descobrirem rindo de si mesmos, da inocência censurável que um dia foi crer em alguma coisa além da falta de sentido das coisas.  Eis que agora nada mais vale o esforço, a crença e o sacrifício desinteressados, porque na selva do livre-mercado pós-tudo (e antes do nada) a única coisa que interessa e valida a ação é vencer. Para não serem arrastados para a lama dos que, como Stan Marsh, se deprimem com essa grande merda.

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* Diógenes de Sinope (s. V-IV a. C.) e Menipo de Gadara (s. IV – III a. C.). Devo a ideia apresentada neste parágrafo a Michel Onfray, no artigo “Revolta”, in: Café Philo, RJ, Zahar, 1999, p. 32-36. 

** South Park, Temporada 15, episódio 7, “You´re getting old”.

O lobo e o cordeiro

por Orlando M. Ferreira

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Pois não é que esta semana um colunista da Veja acusou a professora de filosofia da UFRJ Camila Jourdan, um dos 23 ativistas presos no Rio de Janeiro na operação Firewall, de proselitismo político em sala de aula? Eu não daria a menor importância ao que o Reinaldo Azevedo escreve, mas a prof. Jourdan teve por bem publicar uma réplica no Facebook, abrindo um debate que chamou minha atenção por apontar para alguns problemas do cenário político brasileiro.

Jourdan respondeu a Azevedo declarando que sua prova tratava de tópicos de lógica nos quais o conteúdo pouco importava para a resolução dos problemas. É como achar que o fato de serem laranjas ou melancias vai alterar o resultado de uma soma puramente numérica. Azevedo não compreendeu as questões da prova nem os termos fundamentais de lógica tratados ali. Considerando a resposta de Jourdan, a todos que se utilizam dos rudimentos da lógica fica clara a demonstração de má fé e ignorância do colunista. Contudo, se a resposta é boa do ponto de vista lógico, ela não é politicamente eficiente. Porque Azevedo e seus acólitos não se movem no território da razão, mas da truculência.

Essa história empresta um sentido atual à velha fábula do lobo e do cordeiro. Só para refrescar a memória, um lobo e um cordeiro estão bebendo água na beira de um riacho. O lobo, como pretexto para devorar o cordeiro o acusa de sujar a água, o que o cordeiro responde ser impossível, já que a corrente desce do lobo para ele. Ok, não entendi, diz o lobo, que logo em seguida devora o carneiro. Moral: contra a força bruta e a ignorância não adianta argumentar.

No caso de Azevedo, vale o que dizia o filósofo e historiador Vidal-Naquet a respeito dos pseudo-historiadores que negam o holocausto. Ele se recusa a responder a quem quer que seja desta vertente, pois, afirma, debater com eles no fim legitimaria a autoridade historiográfica do seu discurso, os colocaria como iguais.* Para que se estabeleça um debate intelectual é preciso decoro, boa fé, conhecimento e aceitação tácita dos termos sobre os quais ele será realizado. É a base do que se chamava, nos  tempos do humanismo, de república do saber. Neste sentido a filosofia não é no fundo uma coisa muito democrática, para cuja prática qualquer um se encontra habilitado só por possuir um cérebro operante. Filosofar não é uma “viagem” como dita o senso comum por aí, mas uma tarefa difícil, demanda disciplina, anos de estudo, leitura e escrita, noites em claro e alguns danos vertebrais.

Mas o debate político não é assim. Digamos que ele é mais democrático então, mas seria ingenuidade pensar que é possível estabelecer um diálogo racional com opositores do gênero de Azevedo – como se pudéssemos convencê-los racionalmente do que quer que seja. Seu pensamento não se move no campo da racionalidade, mas de uma mitomania cínica para a qual não importa a lógica, a filosofia nem a verdade. Reinaldo Azevedo e seus lobos-leitores não estão interessados no significado real da prova de lógica da prof. Jourdan.  Só desejam morder.

E nisso infelizmente eles não estão sozinhos, mas contam com o apoio de um formidável aparato institucional e midiático. Temos testemunhado desde as jornadas de junho de 2013, e principalmente da copa para cá, o acirramento da repressão às manifestações de rua que culminou com a prisão de ativistas políticos, sendo que foram 5 em São Paulo e 23 no Rio de Janeiro, sem contar o que está preso por porte de Pinho Sol. Há um processo nacional de criminalização da política não institucional em andamento, associado a uma ampla campanha midiática centrada na demonização dos manifestantes e dos black blocks. Jourdan é mencionada como uma das lideranças deste grupo num inquérito muito mal amarrado, cujos detalhes não me cabe mencionar aqui, mas que sabemos ter incluído como suspeito até o anarquista Bakunin, nascido em 1814. Como Azevedo, os diversos discursos governamentais, jurídicos e jornalísticos que envolvem as manifestações e os presos recusam qualquer compromisso com a razão e a verdade, descambando para a criação de enredos fantásticos, como se estivéssemos num programa do History Channel, onde a única coisa que interessa é o espetáculo.

Isso me recorda o tratamento dado pelos nazistas a todo discurso político com pretensões racionais. Sua postura contra o que denominavam “blá blá blá intelectual”, desprezando toda argumentação que não fosse fundada na força bruta (retórica e física) e nos sentimentos crus. E nisso razão era um estorvo. A política para eles era o reino da mentira deslavada, com a calúnia em posição de destaque. Tinham até um termo para a elaboração de fantasiosos enredos políticos: Märchen (contos de fada). Ademais, é clara em Mein Kampf a posição de Hitler a este respeito, de que o povo é ignorante e de que ao nos dirigirmos a ele não devemos utilizar argumentos intelectuais, mas somente imagens simples e claras. Estes traços da extrema direita do século XX estão sendo reeditados de modo preocupante na cena política brasileira do século XXI, no que temos visto de mais grotesco na opção pela propaganda difamatória, a calúnia e o linchamento público.

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* Vidal-Naquet. Os assassinos da memória. Campinas, Papirus, 1988, p. 11.

Anistiar o passado

por Orlando M. Ferreira

O Brasil é um país sem memória, dizem. Não concordo. Como todo chavão, este serve para poupar a atividade do pensamento, para impor a sua ausência ou para disfarçar uma lacuna na interpretação do real.

A não memória é o caos, a loucura ou a morte.* Não é possível a identidade sem a memória. Mas a desmemória brasileira referida no chavão seria de outro gênero, um tipo de esquecimento malemolente, por desleixo ou ignorância, como se não atribuíssemos ao passado a importância que lhe é devida. Como dizia uma frase publicitária que ouvi certa vez,

“é preciso anistiar o passado e construir um futuro melhor”.

Memória há, portanto. Resta saber o porquê de ela cobrar uma anistia. Por que ela assusta a ponto de se esconder por aí como uma criminosa? Talvez essa anistia seja uma espécie de exorcismo, no que caberia melhor dizer que “é preciso exorcizar o passado”, para nos livrarmos de sua capacidade desestruturadora, para reprimirmos conteúdos traumáticos.

A obrigação então é falar, tratar de tudo o que aconteceu, até que a verborragia seja capaz, pela magia da palavra e das imagens, de afastar o que nos impressiona e amedronta. Como as torres gêmeas em chamas, atingidas pelos aviões foram exibidas à exaustão até que perdessem toda capacidade de causar assombro, o ato de falar e ver a coisa traumática participa de um rito para o apaziguamento dos demônios da memória. Daí a necessidade de um sacrifício, de uma guerra “ao terror” que vingasse com sangue o 11 de setembro. Movimento de exorcismo e expiação sacrificial que revela um triste padrão no trato contemporâneo das memórias políticas.

Partindo daí é possível sustentar que, ao contrário do que reza o chavão, há no Brasil um transbordamento da memória, um excesso de evocação do passado que é diretamente proporcional ao trauma causado pelos eventos. “Anistiar o passado” seria portanto forjar consensos pacificadores – mesmo que à bala, haja vista o grande projeto em curso de pacificação nacional –, unanimidades, pactos que nos permitam (forcem) a continuar, apesar de tudo, rumo à ordem e ao progresso.

Isso se evidencia no modo como vem sendo feita a elaboração das memórias de junho de 2013, sobretudo pela mídia. O fato é relido como momento de grande mobilização patriótica, movimento puro, inocente, pacífico, no qual os brasileiros teriam lançado um grito moralizador contra os desmandos da “política corrupta”. Contudo, este momento de efusão nacional teria sido desvirtuado por vândalos e baderneiros que acabaram transformando a festa das ruas numa orgia de fogo e depredações. A imagem nacionalista idealizada pela mídia, de um povo unido pela moral, mascara o que inquietava as elites desde o começo, um movimento popular autêntico que tinha um objetivo específico, abaixar o preço das passagens, e que foi vitorioso, colocando de joelhos o empresariado do transporte urbano. Mascara também o fato de que desde o princípio a própria mídia se posicionou radicalmente contra o povo nas ruas, acusando já naquele momento os ativistas de serem vândalos e baderneiros.**

É evidente que esta interpretação não é neutra, mas tem como objetivo incidir sobre os acontecimentos futuros. A presença nas ruas é demonizada para que jamais se repita, para que nunca mais as classes dominantes e seus governantes se sintam acuados. O problema é que este ritual cobra sacrifícios, cerimônias públicas de vingança e apaziguamento que reiteram a presença da ordem contra a baderna. A demanda por trás desta tentativa de construção de uma memória oficial (conservadora) de junho é que o mal precisa ser cortado pela raiz. Sabemos quem são suas primeiras vítimas.

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* A desmemória amnésica não é propriamente a ausência da memória, mas a memória sublimada no desejo de se reencontrar: “o que sou, sei que me tornei de algum modo, mas não sei como; minha memória está perdida e a desejo ardentemente”.

** Neste parágrafo devo ao prof. Pablo Ortellado a crítica à elaboração das memórias de junho.

A invasão

por Orlando M. Ferreira 

Adoro filmes ruins porque acho que eles nos ensinam mais sobre as coisas do que qualquer filme cabeça pode nos ensinar sobre cinema. Eis que zapeando a TV a cabo um dia desses topei com um que prometia: “Invasão do mundo – A batalha de Los Angeles”. Etês chegam nos EUA detonando tudo com uma tecnologia militar que deixa a dos ianques no chinelo. No melhor estilo “Guerra dos mundos”, inaugurado por H.G. Wells no despontar do século XX, os homens formiga lançam raios da morte e voam em naves indestrutíveis, transformando a capital do cinema norte-americano num cenário digno de Faluja, Gaza ou qualquer outro lugar para onde as polícias do mundo estejam apontando os raios lasers de seu arsenal superinteligente.

Invasao do Mundo - A Batalha de Los Angeles 9

À maneira de outros clássicos do gênero, como “Independence Day” e a própria refilmagem recente de “Guerra dos mundos”, em “A batalha de Los Angeles” os civis são massacrados pelos aliens numa situação de guerra total. O exército dos EUA está perdido, derrotado e humilhado pela tecnologia superior dos invasores. São obrigados a assumir táticas desesperadas, como a guerrilha, a sabotagem e o uso de artefatos explosivos improvisados, que não os diferenciariam dos grupos insurgentes que desafiam seu poder pelo mundo afora. Poderiam até ser acusados pelos etês, se eles tivessem boca para isso, de serem um terrível grupo terrorista, tornando até justo seu extermínio. Mas o filme não chega a tanto, claro, porque como qualquer polícia do mundo, um bom etê em pé de guerra não precisa falar nada quando o assunto é arrombar a porta de um planeta.

Curiosa inversão realizada por Hollywood, na qual os ianques se transformam, ao enfrentarem os aliens no cinema, nos insurgentes que eles combatem nas guerras reais. Esse paradoxo dadaísta poderia ser transposto para outros contextos, dando origem a uma fauna cinematográfica interessantíssima. Despontariam títulos como:

Jerusalém sitiada. Produção israelo-americana na qual Jerusalém é vitimada por um exército venusiano que toma as terras dos judeus e os obriga a viver em campos de refugiados, assolados por bombardeios punitivos. A resistência judaica utiliza foguetes e bombas artesanais, risíveis diante das armas avançadíssimas dos etês.

Stalag Europa – campo de concentração. O continente europeu é presa de uma horda de vulcanianos armados até os dentes que expulsa parte da sua população para a África, enquanto os europeus que permanecem são escurecidos por um vírus alienígena e obrigados a realizar trabalhos aviltantes, vivendo para sempre em campos de triagem cercados por arame farpado eletrificado.

Terror em SP – o retorno dos marcianos. Nesta superprodução do cinema nacional, a megalópole é invadida por extraterrestres com capacetes brancos, coturnos e escudos transparentes que realizam incursões noturnas nos bairros ricos da cidade, lançando gases químicos e matando a esmo para punição exemplar. A classe média abonada organiza a resistência subterrânea aos marcianos e armada de paus, pedras e coquetéis molotov, incendeia discos voadores.

 

Reciclagem

por Orlando M. Ferreira

Não tem alguma coisa errada quando começam a queimar os livros? Ora, você diria, não fazem mais essas coisas.

Subindo a Augusta num dia qualquer à tarde, vi um sebo que conhecia de longa data. Agora predominavam CDs, DVDs e vinis, na entrada uma bacia de brochuras em oferta por três reais cada. Mas nas profundezas do lugar, meio escondida por um monte de tábuas, vi uma estante de livros antigos, a maioria edições sisudas com cara de anos 50.

Perguntei se eu podia olhar os livros. Ele disse que não, que os livros não estavam à venda. Saí sem agradecer a rudeza, mas da calçada olhei aquelas lombadas antigas lá no fundo do sebo e resolvi tentar de novo.

Não posso nem dar uma olhada?

Nós não trabalhamos mais com livros. E olha lá, nem dá pra alcançar onde eles estão.

Era verdade, os livros estavam em uma estante alta, depois da multidão de vinis e CDs rigorosamente catalogados.

Inacessíveis.

Mas por que vocês não vendem os livros?

Não trabalhamos mais com livros, disse ignorando as brochuras, só com CDs, DVDs e vinis. Não tem saída. Vai tudo pra reciclagem.

E completou a obra:

É só um monte de livros velhos.

Dei as costas e saí dali com um aperto no peito. A coisa me detonou. Procurei um lugar pra sentar, mas não tinha lugar, então recomecei a subir a Augusta e a feiúra daquilo tudo bateu fundo. As pessoas indo pra lá e pra cá, sem saber o que estava acontecendo, pareciam bonecos representando algum papel numa distopia absurda. O simbólico da coisa era forte demais. Precisava de um lugar pra tirar aquilo de dentro, mas não tinha lugar, então continuei subindo.

Então tentei racionalizar. Ok, é só um negócio. Ele vende CDs e vinis e esses livros velhos não tem saída. Afinal as editoras não queimam milhares de livros encalhados todo ano? Queimam ou reciclam? Ou tanto faz? E lembrei daqueles montes de óculos, sapatos e roupas que vemos nas fotos tiradas em campos de concentração onde pessoas eram recicladas. Os nazis aproveitavam tudo, o ouro dos dentes, o cabelo, as roupas, os sapatos e as jóias que as famílias desesperadas traziam. Pensei também nas fogueiras de livros que fizeram em comemoração à tomada do poder em 33, parte de um projeto de reciclagem da cultura alemã. Aqueles livros também não tinham saída. Porque o trabalho liberta, mas só se tiver saída, senão é o forno e a reciclagem. E isso foi me aturdindo a cachola até o próximo sebo, onde eu esperava encontrar a salvação enquanto se repetia na minha cabeça o mantra diabólico das palavras e a imagem de velhos e crianças sendo enfileirados para a morte.

Vai pra outra fila por favor. A fila de cá fica, a da lá vai pra reciclagem, diria o SS para um Lobato embolorado, junto a um Goethe meio trôpego amparado pela Enciclopédia Universal da Juventude. E depois deles seguiriam milhares de volumes anônimos. Reciclados.