Facebook nas ruas

por Rodrigo Linhares

Saio de casa na manhã de sábado e, ao virar a esquina com a av. Brigadeiro Luis Antonio, dou de cara com um dos motivos de minha indisposição em relação a passeatas – todas elas.

Um deles, talvez o principal, é mesmo a impressão de que o acirramento dos ânimos, agora, no melhor dos casos, é apenas inútil. No pior deles, é um desserviço. Antes de exigir a guinada à esquerda, aquela que deveria acelerar, de uma vez por todas, o passo lento da melhoria dos índices sociais pelos governos lulistas, seria bom, talvez, que deixássemos de olhar apenas para o espelho. Quem sabe passar em revista nossas próprias fileiras? A quantas anda, hoje, o exército de Brancaleone? Tem ele alguma capacidade de ser propositivo – ou melhor, tem ele alguma capacidade de sustentar politicamente sua proposição?

Mas não foi isso o que me paralisou a caminhada. Ali, em um muro branco da av. Brigadeiro Luis Antonio, alguém havia escrito: Mate os homens.

O assunto exige todo o tipo de cuidado e uma introdução longa: reconheço a violência e o desconforto a que mulheres, cotidianamente, estão submetidas; reconheço o direito de uso político do espaço público por quem quer que seja – reconheço, inclusive, razões em atitudes mais ou menos selvagens que venham a aflorar em tais momentos.

Não me esqueço de que o principal problema, agora, é o do retrocesso no debate de como ampliar direitos, o retrocesso no debate a respeito de exclusões e violências historicamente impingidas.

Ainda assim, não há como não fazer o paralelo: muitas vezes, durante as passeatas pelo impedimento da presidente, argumentou-se que as mensagens que pediam a derrubada do atual governo através de um gesto militar não apenas não refletiam o espírito que reinava entre a maioria dos manifestantes (sarcástico, eventualmente agressivo, mas legalista) como também eram produzidas por sabotadores – ou ingênuos. De outro lado, entre os ativistas de esquerda (governistas ou não), era óbvio essa desculpa não colava, que essas mensagens apenas sintetizavam o que estava disperso naquela multidão. Eram declarações abertas daquilo que a maioria dos manifestantes considerava justo, ou necessário, mesmo que eles não tivessem a coragem de dizê-lo francamente.

E o que fazemos com isso, agora? Mate os homens.

Não faz muito tempo desde que nós saudamos a subida de tom nos debates como uma benéfica polarização. Como aquilo que faria engrossar nossas fileiras, aquilo do qual retiraríamos força para ordenar as ideias. Mas tornamo-nos, em grandes grupos, uma espécie de materialização do Facebook: emissores de opiniões que ficariam melhores se não fossem efetivamente opinadas. Concorrentes, uns contra os outros, na arte publicitária de produzir sensação. É como se estivéssemos, todos, atendendo a um único chamado: vamos, gente, vamos dar aquilo que temos de pior.

E me pergunto: quanto pior pode ainda ficar se todo mundo concorda, parece, que é piorando que se faz o caminho?

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Junho de novo

por Rodrigo Linhares

Alguém já disse isso. No protesto do último dia 15, aqui em São Paulo, a empregada esteve junto com a patroa.

O ressentimento não está apenas entre os que percebem uma degradação relativa em suas condições materiais. Está também entre aqueles que, em movimento inverso, vindos de baixo, talvez já estejam topando com a cabeça no teto. Entre aqueles que se dão conta de que o ascenso efetivamente percorrido teve um fôlego muito mais curto do que aquilo que as expectativas antes prometiam. Entre os que descobriram que a TV de plasma é realmente legal, mas que esse item – o grande centro da vida familiar – acabou perdendo, com o tempo, a sua magia. Se rotinizou. Entre aqueles para quem o diploma de Administração de Empresas da faculdade de bairro, conseguido com esforço ascético e endividamento financeiro, não significou um salto para algo melhor que o atual emprego em telemarketing. Entre os que, guiando o carro recém-adquirido, decepcionam-se com a constatação de que os percursos não se tornaram assim tão mais agradáveis, já que quase todo mundo nas grandes cidades tem de passar pelos mesmos congestionamentos.

Umas pesquisas interessantes confirmaram que, na Avenida Paulista, no dia 15, os manifestantes eram mais ricos e mais brancos. Só que não é absurdo supor que, manejando um discurso fulminante de combate à corrupção (quem é que pode ser contra?), eles se irmanavam não apenas com os mais pobres e mais negros que, em menor número, também estavam ali, mas com a maioria silenciosa das periferias distantes que, pela TV, apenas acompanhava o protesto de casa.

Aprendemos, em junho de 2013, como é possível fazer com que uma única reivindicação se transforme em abrigo para todo tipo de desconforto. Agora é novamente o caso: uma “frente” anticorrupção que tem a capacidade de encaminhar, ao mesmo tempo, críticas vindas de diferentes perspectivas sem que, em algum momento, essas divergências tenham de se haver entre si. É uma multidão que está contra o ajuste, mas que, ao mesmo tempo, reclama da falta de velocidade e indecisão com que ele se realiza. Que está contra o corte de direitos trabalhistas, mas que também se queixa da alta do salário mínimo. Que denuncia o ritmo lento da diminuição das desigualdades, que exige mais recursos para o financiamento estudantil, mas que se enfurece com qualquer pequena concessão feita às custas de nossa rígida estrutura de privilégios.

Antes de se desfazer, vai causar estrago.

Pacíficos e Educados

por Rodrigo Linhares

Não é apenas a questão da fragilidade das leis diante dos constrangimentos impostos pelos poderes – a tal da corrupção, como já é hábito papagaiar por aí. É pior que isso. Existe um tipo de material social em que a própria noção de Direito não encontra amparo, em que a engenharia institucional das leis não consegue aderir, não consegue se fixar.

É porque existem requisitos que não estão presentes. Nunca estiveram.

Acho que poucas vezes somos tão verdadeiramente aquilo que somos como quando, com orgulho, envolvidos na bandeira verde e amarela, confessamos que não existe continuidade entre eles – os outros – e nós. Que eles não são tão humanos como nós. Não merecem a vida como nós a merecemos. Brasilidade, pra mim, é isso. Uma coisa mal resolvida que, se entregue somente a si mesma, desanda em algo muito parecido com uma zona de tiro livre. Nós contra eles. Horizontes restritos. Cada um como referência exclusiva de si mesmo.

Acompanhei de casa o noticiário das manifestações de rua em oposição ao governo federal. São pacíficos e educados os que protestam, repetem os jornalistas. Há famílias inteiras. Velhos. Crianças. Alguns deles portam cartazes pedindo intervenção militar. Ainda assim, são pacíficos e educados.

Propor, à luz do dia, que o meu adversário político seja não apenas apeado do poder, mas preso, seviciado e morto, aparentemente, não faz de mim algo diverso de um sujeito pacífico e educado. Passa batido no relato jornalístico. Não causa estranheza.

Isso porque o princípio da identidade, um humano é igual a um humano (A = A), nunca fez muito sucesso em nossa lógica particular. E nisso surpreendemos um dos sentidos que presidiram nossa formação. Não é possível que A seja igual a A sem que, em um nível palpável, o conteúdo de um dos termos seja parente, amigo íntimo, ou de algum modo apaniguado ao conteúdo do outro. O país se urbanizou, as relações políticas são mais complexas – mas continuamos a atualizar esse sentido de exclusão. Diariamente. Cotidianamente. Em diversos aspectos.

Corrupção é, convenientemente, a do outro, sempre. O outro é quem deve ser punido. Militarmente até. Como vingança. Mas não como Justiça. Porque Justiça – que é afinal o que fundamenta, é o que escreve e reescreve o Direito – exige que A seja igual a A. Incondicionalmente, e não apenas quando me convém. É um requisito elementar.

E é aquilo que tanto nos faz falta.

NÃO VAI TER AJUSTE

por Rodrigo Linhares

O que se depreende da leitura do noticiário econômico – de todo ele, mas, em especial, dos escritos e dos ditos dos economistas não-convencionais – é que não há alternativa. Vai ter ajuste fiscal. E não que houvesse surgido, recentemente, algo como um consenso entre os analistas. Pelo contrário, liberais e heterodoxos continuam a divergir e a duelar. Mas ainda que os pressupostos teóricos de um lado e de outro permaneçam em conflito, com razões muito boas, aqui e ali, ao gosto do cliente, a capacidade de cada uma das propostas em se formular de modo crível e consistente não tem sido a mesma.

A situação dos cofres do Tesouro é de lástima. Exceto para os que acham que isso não é problema, mas solução (“romper com a banca por uma verdadeira independência nacional”), quase todo mundo concorda, mesmo que atribuindo a isso um grau de importância variado, que há sim um desconforto considerável. A nova equipe econômica entra com um receituário cujo apelo é enorme, e não apenas porque pacifica o ânimo dos credores (o que, por si só, é muito relevante), mas porque estabelece uma ligação direta com a experiência que qualquer indivíduo têm do mundo das finanças. “Estourou o mês? O próximo será de mais horas extras, com menos supermercado.”

Logo de início, uma proposta de recuperação fiscal alternativa teria de se virar com a dificuldade de uma explicação que contraria o senso comum da vida econômica cotidiana.

Mas deixemos em suspenso, como se indiferente fossem, as pressões (enormes) do mercado financeiro sobre as economias nacionais e o apelo difuso (difícil de ser quantificado, mas certamente não desprezível) de uma certa lógica de contenção – sem deixar de mencionar como é fascinante que, em uma certa hegemonia de pensamento, tanto o vendedor ambulante de relógios como o presidente do Citibank tenham as mesmas opiniões a respeito da condução dos negócios do Estado.

Ou melhor, consideremos em hipótese uma situação diversa. A partir de agora, banqueiros e todo o resto do mundo que tem contas a pagar estão convencidos da necessidade de uma proposta alternativa de recuperação fiscal: é com mais desenvolvimento que se ajeita as contas públicas. Todo mundo agora concorda. E quem fala em desenvolvimento fala em política industrial. Em uma política capaz de fomentar um tal dinamismo no mercado interno que este projeta sua energia para fora, inaugurando uma inserção não submissa do país (leia-se “uma inserção outra que não a de um simples exportador de commodities”) nas cadeias produtivas mundiais.

Mas com o cofre roto? Como?

Não vale dizer que as dificuldades estão na existência de um complô empresarial, uma greve de investimentos contra um governo que faz tudo direitinho mas erra na cor vermelha da gravata. Melhor se perguntar quais foram exatamente as barbeiragens cometidas até agora.

Também não vale colocar toda a culpa no clima seco e na persistência da crise mundial.

Uma política industrial efetiva… Como? Articulando com os outros BRICS. Hmmm, demora quanto tempo a sedimentação dessa tal contra-hegemonia mundial? Porque tempo, aqui pra nós, conta. Muito. Será que a Rússia sobrevive até lá? Escaparemos ilesos, os emergentes, à declaração de aumento dos juros a ser feita pelo Federal Reserve?

No debate real, porém, as vozes dissonantes parecem reduzidas à defesa de artigos de fé, de generalidades como “é preciso redobrar a aposta e defender o programa que foi vencedor nas urnas” ou “o Estado, como afirma Keynes, tem que ser o agente que antecipa o investimento”. À pergunta simples de o que fariam, os analistas ditos não-convencionais respondem dizendo apenas o que não fariam, pontuando tudo com bravatas voluntaristas do tipo “importa não submeter esta escolha à vontade dos mercados”. Aparentemente não é preciso comprometer-se com um olhar projetivo, preocupar-se com o detalhe – o combate entre pressupostos teóricos é o que importa, e nesse nós já somos vencedores. “É mesmo?” “É sim, olha o tamanho da desolação na Grécia. Foi o que dissemos que ocorreria…” Um tipo estranho de vitória.

Ao que parece, estamos de volta às vésperas da Copa do Mundo.

Meses atrás, utilizávamos o slogan NÃO VAI TER COPA como um marcador que condensava muitas coisas – nós não esqueceríamos das famílias que tiveram suas casas desapropriadas pelas obras e dos mortos nos canteiros, não calaríamos diante do endurecimento da polícia no trato com os manifestantes e das dúvidas em relação à probidade dos negócios.

Mas sabíamos que haveria Copa. Que estávamos derrotados. Que éramos residuais diante das dimensões de um evento mundial. (De fato, fomos levados de roldão. E quando aconteceu, ninguém se surpreendeu realmente.) Mas continuaríamos batendo o pé, fazendo birra. Debochar do inegociável tem seu charme. Era uma ocasião em que podíamos nos dar o luxo de uma irresponsabilidade completa. NÃO VAI TER COPA!

Voltamos ao mesmo lugar. Como se ostentássemos agora, impresso em vermelho, o cartaz do NÃO VAI TER AJUSTE. Porque aparentemente nos desresponsabilizamos da exigência de se formular uma alternativa clara, crível e detalhada. E talvez, não sem algum prazer, estejamos a antecipar o dia em que poderemos finalmente dizer que o ajuste veio, foi feio e não deu certo. Tudo conforme o esperado. Conforme o que havíamos assinalado que aconteceria. Não havíamos dito?

Uma pena, porque o espaço de negociação, ainda que não esteja claro, talvez exista. Essa arrogância é que não ajuda em nada.

PT possível

por Rodrigo Linhares

Em seus extremos, as correntes de opinião do PT repartem-se entre o olor do purismo e o pragmatismo desencantado. Mais à esquerda, entre os puristas, onde existem muitas e inflamadas razões, o senso de oportunidade é sofrível. À direita, em contraposição, o desapego em relação a princípios rígidos tem resultado em um senso mais apurado de sobrevivência.

Como que a demonstrar a validade desse esquema, depois do choque da indicação da nova equipe econômica do governo, alguns já dizem em voz alta: “rejeitamos as soluções baseadas na austeridade fiscal, o problema do superávit primário deve ser encaminhado através da renegociação da dívida”.

Claro, onde a razão é tudo e a oportunidade é nada, o melhor momento é sempre o agora.

Na minha ingenuidade econômica, no entanto, penso que as chances de sucesso na abertura de negociações para a reestruturação de uma dívida podem ser radicalmente diferentes segundo as posições relativas de devedores e credores. Uma coisa é tentar arrancar aos credores concessões e vantagens – ou, falando com franqueza, afrontar o achincalhamento a que nos submetem – apresentando como pressuposto uma contabilidade confiável. Outra bem diversa é tentar fazer isso agora. Imagino essa proposição tomando corpo, começando a ser repetida por jornalistas, parlamentares, pessoas no governo… Ministros são nomeados com esse objetivo. Ato contínuo: rebaixamento da nota do país nas agências de classificação de risco, os juros dos títulos da dívida em disparada. E, no final, estaremos piores que antes.

De outro lado, e talvez seja preciso dizer isso com todas as palavras, o objetivo político de redução das desigualdades, colocado momentaneamente entre parênteses, desacelerado (ainda mais…), deixado em estado latente e menos manifesto, é o elemento que dá sentido à história do PT. É o elemento que justifica a sua existência. É o grão de areia na engrenagem, o resíduo que estabelece algum descompasso na recorrente e desconfortável semelhança formal entre políticas econômicas convencionais e políticas econômicas ainda possíveis para a esquerda – semelhança denunciada equivocadamente pela extrema esquerda como a equivalência pura, intercambialidade entre a direita “que faz o que faz por gosto” e a esquerda “que faz o mesmo que a direita, mas afetando contrariedade”.

É preciso que isso fique claro – e o futuro ministro, Joaquim Levy, parece ter apontado nessa direção – que as políticas de ajuste fiscal não compõem um sádico fim em si mesmo. A pacificação que se espera com o seu emprego – do clima de negócios do país, do debate público – é um pressuposto para o enfrentamento inteligente de nossas questões. Valem enquanto viabilizadoras do projeto de diminuição das desigualdades.

Ou então é melhor voltar a fazer oposição.

Diversão pós-eleitoral

por Rodrigo Linhares

Acompanho por alto os debates a respeito da regulação da mídia e a respeito da reforma política – os dois temas que têm animado a militância do PT. Na forma como eles se apresentam – excessivamente simplificados, guardando em si um tudo ou nada – parece que vêm, mais que pra qualquer outra coisa, pra cumprir mesmo essa função de dar ânimo ao que sobrou da militância do partido.

É estranho, mas o PT, mesmo no governo, continua discursando como se continuasse a ser oposição. Em parte porque, manejando através de forças que lhe são sempre superiores, sua sensibilidade oposicionista não encontrou ocasião para mudar. Mas também porque, me parece, o pouco de capilaridade que ainda mantém na sociedade civil – e que, em uma campanha eleitoral, pode ser importante, até decisivo – precisa ser acalentado frequentemente com balinhas e bombons, com o sonho de um processo de transformação em ritmo acelerado. Como há sempre a cobrança da tal da “guinada à esquerda” do PT, esse oposicionismo discursivo acaba funcionando de modo a contemporizar expectativas sem ter de desmenti-las. “Espera mais um pouquinho que já chega, já vem chegando…”

A condução da política econômica e de outros assuntos de importância para o governo, e que não suportam esse tonalidade de discurso, é isolada com uma fita. O resto é o refestelo da moçada. E eu não acho que, em tempos bicudos, esse tipo de cautela seja criticável.

Os próximos anos serão difíceis. A gestão da economia terá de se desdobrar na tarefa de apresentar credenciais atraentes para o investimento produtivo, o investimento em intensificação do capital e, ao mesmo tempo, sustentar o gasto com os programas sociais, manter os bons indicadores de emprego e aquilo que temos acumulado em direitos trabalhistas.

As exigências são quase inconciliáveis. Não há um ponto mediano de que alguém possa dizer – “oh, aqui está a virtude”. E o militante emocional não sobrevive bem num contexto desses – dramático, mas sem brilho. Precisa que o seu voluntarismo corra livremente em alguma direção. Com velocidade e grandiloquência. Os dois temas, regulação da mídia e reforma política, vêm a calhar.

Mas, convenhamos, a questão da imprensa ocupa uma centralidade às vezes abusiva. A revista Veja quase que prega apenas aos já convertidos. Quantos leem os editoriais do Estadão? Ao mesmo tempo, convenhamos mais uma vez, muito do clientelismo televisivo Brasil adentro está conosco, é base aliada. Claro, com todos os problemas de um apoio que, como o do Sarney, usa o adesivo do 13 no casaco e, na urna, não consegue evitar o atraiçoamento. Tratar com esses caras deve ser quase pior do que tratar com uma oposição aberta.

Assembléia Constituinte exclusiva para a reforma política? Com os mesmos eleitores que fizeram esse Congresso Nacional que estréia no dia 1° de janeiro?

É um péssimo momento para se pensar em reformas. Os satisfeitos não estão mais tão satisfeitos assim e os insatisfeitos estão furiosos, sonhando em abrir a caixa de pandora dos nossos terrores nacionais fundantes – obscurantismo e sangue. Por isso, quando ouço a Dilma falar em reforma política, ou algum outro dirigente do PT falar em regulação das comunicações (que disso a Dilma não fala) logo penso: “tá bem, já entendi, agora vou brincar aqui no meu canto sem atrapalhar mais ninguém”. Não vejo nisso um chamado às armas. Pelo contrário.

A esquerda que não teme a representação política

por Rodrigo Linhares

O manifesto de Vladimir Safatle, A esquerda que não teme dizer seu nome (Três Estrelas, 2012) não peca pela falta de clareza. Mas talvez pela pressa. Pelo tom categórico, unilateral, que assume em alguns momentos – em especial, na defesa que faz da da soberania popular.

Há uma relativa descontinuidade entre Justiça e Direito, relembra Safatle. Uma e outra coisa não coincidem totalmente. A Justiça contém o Direito e, ao mesmo tempo, o excede. A Justiça realiza-se no Direito e, ao mesmo tempo, pode declará-lo insuficiente. Ou equivocado. É o exercício da soberania popular que diminui o déficit do Direito em relação à Justiça. Ele aprimora a democracia, ampliando e corrigindo o Direito, adequando-o à Justiça.

A constituição dessa soberania, continua Safatle, deve apoiar-se na superação da representação política através da proliferação gradual de experiências de participação direta. Com um único limite: a soberania popular não pode nunca voltar-se contra si mesma, contra sua integridade. Através, por exemplo, da imposição de danos às partes que a constituem. Através da aprovação de leis discriminatórias contra grupos religiosos, raciais, nacionais ou sexuais.

Vemos, no nível abstrato das lógicas históricas, o desenvolvimento de um absoluto. A constituição da Soberania Popular. O problema é a tradução disso para os níveis cotidianos da prática política, o risco de uma tradução apressada. Não é difícil imaginar o perigo que correríamos no caso de um plebiscito que nos propusesse a pena de morte para certos crimes. Ou que propusesse uma questão qualquer em afronta ao caráter laico do Estado. “Ah, mas a soberania popular não pode nunca voltar-se contra si mesma.” Hmmm. Acabam de me vir à cabeça uma dezena de prováveis casuísmos em defesa de consultas tortas como essas.

Pode ser também que o problema não esteja apenas na pressa do texto, mas principalmente no encontro do texto apressado com leitores apressados. O notável da recepção jornalística de A esquerda que não teme dizer seu nome foi, sem dúvida, a confusão. Caetano Veloso rejeitou o que, na verdade, não entendeu direito. Idelber Avelar idem. Nos dois casos, uma diretriz abstrata foi lida, precipitadamente, como uma proposição atual.

Mas não. Há em Safatle uma certa indisposição para o exame das contradições que suas diretrizes suscitam. Contradições que, em si mesmas, não têm nada de absurdo. Absurdo seria, ao invés disso, imaginar que haveria, apontado para o mundo, uma caminho em linha reta e sentido único, somente à espera de conteúdos emancipatórios bem formulados. Está certo. É um manifesto, não um tratado… Mas deu em mal-entendidos.

Vai no livro a sugestão de que a proliferação de arenas de participação política direta exerceria um efeito corretivo sobre os desvios da participação mediada pela representação, em especial aqueles impostos pelo poder econômico. É verdade, acho. E uma verdade empolgante, que acalenta os sonhos libertários. O que não exclui a existência de uma necessidade (esta não vai sugerida) que caminha no sentido inverso da diretriz filosoficamente indicada. Sem brilho, cansativa, enfadonha. Como pensar a participação direta, com toda a tremenda responsabilidade que ela implica, se, aparentemente, ainda não conseguimos dominar com destreza sequer aquilo que há de mais elementar na participação mediada – sistemas eleitorais, partidos políticos, divisão de poderes, esferas administrativas…? É possível afirmar, ou pressentir, apontando pra isso no horizonte, que o potencial educador das instituições representativas está esgotado?

Como diz Safatle em um dos pontos mais interessantes do livro: “mais perigosa é a mudança que está ao alcance de nossas mãos”.

Direita e Esquerda

por Rodrigo Linhares

Tudo começou a ficar mais esquisito naqueles anos, no apagar das luzes da década de oitenta.

Começou com o surgimento de um consenso básico a reunir teóricos, jornalistas e políticos europeus. Muitos deles, nem sempre com as mesmas justificativas, alegavam que, de fato, a distinção entre direita e esquerda já não existia mais. Ou que havia perdido muito da sua antiga pertinência.

De tudo, o mais estranho era que os argumentos que negavam a existência de uma direita ou de uma esquerda política não eram os mesmos segundo a maior ou menor simpatia de quem os enunciava em relação… à direita ou à esquerda política (!)

À direita, entre o pessoal que, de um ponto de vista global (aliás, data dessa época a obrigatoriedade do uso da palavra “global”, com toda a falsa clareza que ela denota) reassumia o comando, o argumento era o da crise das ideologias.

A crise afetaria todas as ideologias, mas de modo diverso: desmentido integralmente algumas delas – das ideologias de esquerda, tão orgulhosas de suas análises históricas e científicas, não havia sobrado verdade alguma – e confirmando objetivamente algumas outras – que, por isso mesmo, amparadas pelo sucesso da economia de mercado diante de seu concorrente planificador, deixavam o universo das ideologias, elevadas agora à categoria de real natureza das coisas. “Não se trata de ser ou não de direita, mas de admitir o mundo como ele realmente é”.

À esquerda, entre o pessoal que deixava os assentos, era um pouco mais complicado. Não se dizia claramente, com todas as palavras, mas, ainda assim, a coisa transparecia.

Em uma situação de desequilíbrio, de grande predomínio de uma das partes sobre a outra (e deve ter sido assim mesmo naqueles anos de desmoronamento soviético), muita gente até então à esquerda, sentindo na pele as dificuldades de sobrevivência política, não conseguiu evitar o emprego de um último recurso: a desvalorização da dualidade esquerda-direita como maneira de ocultar a própria fragilidade.

A esquerda foi quase que reduzida a pó? “Mas que sentido tem então colocar o problema nestes termos – pergunta-se o derrotado –, se a distinção entre direita e esquerda está esgotada?” E assim, negando-se o qualificativo de “esquerda”, nosso auto-inquiridor personagem nega ao outro o qualificativo de “direita” – isso é possível já que os termos são relacionais – retira o sentido da dualidade e, pode-se dizer, agora sem vencedores ou derrotados, reinicia o jogo.

O livro de Norberto Bobbio, Direita e Esquerda – razões e significados de uma distinção política, foi publicado na Itália em 1994, há vinte anos. (E entre nós, logo em seguida, em competente tradução de Marco Aurélio Nogueira, pela Editora Unesp, em 1995).

Os dois argumentos contrários à pertinência da dualidade – tanto o que se baseia no “fim das ideologias” quanto o que se baseia na negação do termo distante através da negação do termo próximo – estão enumerados, ao lado de outros mais, em uma relação que Bobbio expõe e critica.

São vinte anos de contestações à pertinência do uso das expressões “direita” e “esquerda” na linguagem política. E, ainda assim, estas expressões mantêm até hoje pleno curso. “Todos os que as empregam não dão nenhuma impressão de usar palavras irrefletidas, pois se entendem muito bem entre si.”

São vinte anos esquisitos. E, das esquisitices, a menor delas talvez nem seja esta – a de que os argumentos que contestam a dualidade direita-esquerda, ao se distribuírem entre os preferidos de uns e os preferidos de outros, acabam repondo, em seu conjunto, os mesmos termos que esperariam ter refutado em suas versões particulares.

O Centrão fica à direita

por Rodrigo Linhares

O centro, em política, é uma referência abstrata. É tão pouco substancial quanto a linha fronteiriça que separa um país de outro. Pode-se estar aqui, pode-se estar lá. Em algumas ocasiões pode-se, inclusive, saltar de um território a outro – ou manter, ao mesmo tempo, um pé aqui e outro lá. Só não é possível equilibrar-se sobre essa linha.

A possibilidade de ocupar, de se estabelecer no centro do espectro ideológico da política, se plausível fosse, exigiria de nós a admissão de que deve haver, para cada um dos dilemas humanos, a oportunidade para um acordo em que nenhum dos antagonistas precisaria ceder – um ponto acessível em que todos ganham.

Nossos dilemas não seriam exatamente dilemas. Seriam mal-entendidos contornáveis, desvios causados pela dificuldade que um ou outro dos contendores, ou ambos, têm em saber realmente o que é melhor – o melhor para si e o melhor para o outro (sendo que o melhor para si, neste caso, seria também, forçosamente, o melhor para o outro).

No limite, recolocadas todas as nossas questões da maneira adequada, seria fácil ordená-las a partir do acordo que, em cada caso, é a solução perfeita. Assim como quem reúne argolas em um ponteiro. Bem alinhados os problemas, o centro revelaria um caminho, um sentido – a perspectiva da Razão.

Só que não.

As razões são parciais. Costumam conflitar entre si. Partem de pontos de vista diversos e, em geral, durantes seus encontros, não se acomodam bem umas com as outras. Na vida real, o acordo entre razões diferentes é quase sempre parcial, precário, sujeito a revisões. “Foi o que deu pra ser feito.” O avanço em um dos sentidos disponíveis é difícil de se empreender. Os acúmulos podem ser revertidos.

O centro, em política, é mais uma indicação que um lugar. Impõe-se pela necessidade, pela urgência das soluções, pelos impasses percebidos como onerosos ou arriscados. E, no entanto, é tênue, intermitente.

Ainda assim, os partidos brasileiros, muitos deles, costumam ser apontados como partidos de centro. Persistentemente centristas. Partidos centristas não de hoje, mas de longa data – centristas por vocação. E normalmente essa análise se faz acompanhar de outra, que lastima a inexistência, no pântano político, de contrastes cruciais entre partidos de direita e de esquerda.

Bem, é evidente que os nossos Centrões legislativos não têm se destacado pela tentativa de abrigar, das posições divergentes, somente o que cada uma delas teria de racional – e, com isso, sintetizar o melhor dos mundos. Tampouco os partidos à direita ou à esquerda poderiam, nesse mesmo sentido, ser acusados pelo desvio particularista de se insistir no mau hábito que é, afinal, o costume de rejeitar o melhor pra si mesmo. Aparentemente, portanto, a política brasileira, como no resto do mundo, não se desenvolveu segundo os padrões do pensamento iluminista.

Mas, e então?

No interessante trabalho de Marcos Nobre, Imobilismo em Movimento (Companhia das Letras, 2013), encontramos uma caracterização daquilo que o autor chama – em uma devida homenagem, frise-se – de pemedebismo, o fenômeno que qualificaria a cultura política nacional desde a abertura democrática na década de oitenta.

(a) O Centrão é governista. Está sempre no governo, seja ele qual for. (b) Compõe-se de uma supermaioria legislativa que, ao menos formalmente, garante a governabilidade. (c) Suas lideranças políticas têm a última palavra a respeito do emprego dos vetos; selecionam as matérias que devem prosseguir e engavetam o restante. (d) O Centrão dificulta entrada de novos membros, de maneira a tentar preservar e aumentar o espaço conquistado. (e) Atua bloqueando os oponentes ainda nos bastidores, evita o enfrentamento público e aberto.

Nenhum elemento programático é mencionado entre as características do pemedebismo. Não à toa. “Sob o pemedebismo, o exercício cotidiano da política não tem a ver, primordialmente, com ser favorável a estas posições ou partilhar de uma visão determinada do que deva ser o país.” Não cabe aqui uma análise de significados, mas uma análise formal.

O Centrão pemedebista soube tornar-se indispensável. Aparentemente, sua máquina eleitoral, ramificada por todo o país, é necessária a qualquer governo. Com a velocidade dos processos políticos controlada pelo seu sistema de freios, os partidos pemedebistas acenam com a ameaça do impasse permanente. Cobram recursos, cobram cargos – e os reinvestem na ampliação e reforço do pemedebismo.

Liderar o pemedebismo pela direita (como nos governos FHC) ou pela esquerda (como no governo do PT depois do mensalão) – até que alguma ruptura se desenhe, afirma Nobre, estamos condenados a isso.

Mas soa estranho. A técnica de gerenciamento político do Centrão rentabiliza a produção de acordos, explora o centro, mas tem em si qualquer coisa de extrema. O Centrão não é centrista. O pemedebismo converteu o significado do conservadorismo político em uma forma vazia – um gesto, sem dúvida, radical. E ainda que não se declare abertamente a favor da manutenção das desigualdades, assim age, silenciosa e despudoradamente.

Não é exatamente a governabilidade que os partidos, digamos, mais ideológicos, à direita e à esquerda, negociam com o Centrão. São os termos da rendição. O Centrão não é centrista. O Centrão fica à direita. Uma direita inercial, reativa, extremista sem ser ideológica.

O Centrão é a vitória da direita.

Sem futuro

por Rodrigo Linhares

1.
O filme a que assistíamos, por um desses descompassos que vez e outra acometem os aparelhos de projeção, teve de ser momentaneamente interrompido. O reparo não deve levar mais que três ou quatro minutos, fomos informados. Como que obedecendo a uma combinação prévia, visores azulados pipocaram pela sala de exibição.

Foi mesmo coisa de três ou quatro minutos até que o canhão de luz, de supetão, voltasse a atingir a tela. Os telefones celulares desapareceram. Nem todos, na verdade. Com justificada condescendência, a projeção do filme havia sido retomada de um ponto mais recuado da película, pouco antes daquele momento em que começaram os prejuízos causados pela dessincronia entre som e imagem. Mas nem todos desligaram seus telefones – houve quem entendesse essa segunda chance como oportunidade para seguir golpeando, com aparente indiferença, seus visores luminescentes.

2.
Somos difusamente acuados pela ficção de uma existência plena que está por vir. Ainda que não haja qualquer tipo de aviso ou antecipação, sabe-se, no entanto, que ela deve chegar logo mais. Faltam sempre só mais alguns minutos para a hora do recreio. São sempre só mais alguns minutos. Enquanto isso, celular à mão, é preciso manter-se atento. (Ainda que isso implique, de algum modo, uma desatenção fundamental).

Reconhecer essa angústia, a da vida em permanente expectativa, exigiria inclusive um trabalho de recomposição de estratégias teóricas e políticas. Por uma esquerda sem futuro, de T. J. Clark (Editora 34, 2013), manifesto publicado originalmente na revista New Left Review, em 2012, propõe um início para o acerto de contas.

3.
A esquerda radical fracassou em fazer com que suas respostas à derrocada na ordem financeira mundial tivessem uma repercussão mais ampla. Resta-lhe ainda, ao menos, a possibilidade de arriscar, do fundo da orquestra, uma mudança de tom.

Deve-se continuar insistindo na encenação de transfigurações, na antecipação de futuros – ou o melhor seria voltar-se para uma política de detalhes comezinhos, para “o trabalho sem lustro e sem o brilho da performance”? Deve-se permanecer o tempo todo “revolvendo as entranhas do presente em busca de sinais de catástrofe e salvação”, apostar, mais uma vez, em uma política fundada “em uma multidão de terracota que espera a hora de sair marchando do túmulo do imperador” – ou o mais sensato seria endereçar aos amanhãs uma ironia infinita, “uma ironia camponesa, com seu justificado desdém pelo futuro”?

“(…) como seria para a esquerda deixar de olhar para a frente – fincando-se para valer no presente, abandonando as veleidades proféticas, mantendo uma atitude desiludida, a todo instante ‘debochando de seus presságios’? Isto é, o que significaria para uma política de esquerda deixar para trás – removendo-os do próprio grão, da própria ideia que ela faz de si mesma – os últimos suspiros e imagens da vanguarda?”

A questão da permanência ou não do capitalismo tem de ser temporariamente deixada de lado. O que vemos enquanto franzimos o cenho no “Grande Olhar para a Frente”? Uma promessa acenando a todo instante com sua chegada iminente, finalmente prestes a se realizar. São só mais alguns minutos. “É evidente que existe uma alternativa à ordem atual das coisas. Mas isso não leva a nada.”

4.
A renovação constante das expectativas, à custa sempre de frustrações renegadas, inadmitidas, divide com as relações de consumo um mesmo aspecto de infantilidade. Na recusa, feita de antemão, em submeter-se a qualquer tipo de constrangimento – algo difícil de se evitar nas trocas que mantemos com o mundo – o que se rejeita é a própria chance, a oportunidade, a possibilidade. Diversamente, uma política adulta tem de operar “com a percepção do horror e do risco inscritos nos assuntos humanos”. Com a percepção diária do revés mais que provável. Seu tom é trágico. Mas ao menos “a tragédia não nutre esperanças de que algo aconteça – algo transfigurador – e tudo se ajeite.” Na citação que Clark faz de Bradley (1851-1935):

“Vemos homens e mulheres se entregando confiantes à tarefa. Lançam-se sobre a ordem vigente das coisas para pôr suas ideias em prática. Mas o que alcançam não é o que pretendiam; é algo terrivelmente diverso do que tencionavam realizar. Eles não entendem nada – dizemos com nossos botões – do mundo em que operam. Lutam cegamente no escuro, e o poder que age por seu intermédio faz deles o instrumento de um desígnio que não é seu. Atuam com liberdade, e, todavia, suas ações os deixam de pés e mãos atados. E não se faz a menor diferença que suas intenções sejam boas ou más.”

5.
“A radicalidade se dá no presente”. As arengas que opunham reforma à revolução, no ambiente de intenso messianismo político do pré-guerra, perderam a pertinência. Não vai passar. Nunca haverá paz. “Não está na natureza das coisas (humanas) que a paz venha a se instalar um dia. Mas para a esquerda, tal admissão só torna ainda mais essencial (…) que o ponto focal, o núcleo sempre recorrente da política, esteja voltado para a contenção dos efeitos e da extensão da guerra (…).” Nesse sentido, reforma é revolução.

“(…) é um erro supor que a moderação em política – se entendemos por isso uma política que se caracteriza por pequenos passos, por uma sabedoria desiludida, por propostas concretas, pelo desdém para com as promessas grandiosas, por uma consciência da dificuldade presente mesmo no ‘avanço’ mais mínimo – não seja revolucionária, admitindo que esta última palavra ainda retenha algum poder descritivo. Depende do que os pequenos passos têm por objetivo mudar. Depende de como se configura, no caso, o quadro de possibilidades humanas. Uma política que, passo a passo, derrota a derrota, concentrasse seus esforços na tentativa de impedir que o tigre saia da jaula seria a mais moderada e revolucionária que jamais houve.”

6.
“(…) a ‘saída da modernidade’ será precisamente (…) um processo que nada terá de apocalíptico, um processo arrastado, massacrante, chocante, banal, medíocre, sem o menor traço de ‘espetáculo’. Essa é a realidade que, no contexto político atual, a direita e o centro (assim como a ‘esquerda’ estabelecida) a meu ver não conseguem enxergar, quanto mais enfrentar. Continuo a acreditar que uma esquerda não estabelecida – uma esquerda sem futuro – pode ser capaz de fazê-lo.”