A depressão e outros placebos semânticos

por Tiago Novaes

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 Os nomes fora do Éden. Não me lembro se foi Deus ou Adão quem, na gênese dos tempos, deu nomes às coisas. No paraíso primevo, o mundo possuía uma correspondência perfeita entre palavras e as coisas. Para nós, caídos, a verdade é outra. Nem tudo tem nome. E em quase tudo o nome atribuído a algo não lhe cai muito bem – uma saia muito justa ou um casaco folgado, um traje que altera as formas daquilo que reveste e deixa nuas pequenas ou grandes vergonhas. Os nomes editam os fenômenos à sua maneira. São um editor da realidade, aplicando filtros, retocando imperfeições ou transformando-as em deformidades.

Somos todos Roberto Carlos. Por falar em edição, já se foi o tempo em que as pessoas faziam caricaturas na praça. As pessoas se divertiam constatando a versão exagerada das próprias desarmonias – o que despontava num rosto ganhava no papel conspicuidade ainda maior. Um nariz se agigantava, orelhas ressaltavam, queixos ganhavam verrugas. Hoje, ninguém se diverte com caricaturas de si. Ao contrário, esforçamo-nos para eliminar qualquer traço disfuncional de nossa versão online. Em questões de auto-imagem, somos todos Roberto Carlos. A realidade é outra fora da esfera pessoal. Basta pensarmos na política, convertida em um jogo de filtros e caricaturas. Para que uma ideia se propague ela precisa revestir-se de inteligibilidade. Transformamos os fatos para que se adequem às palavras. E como andamos escassos de palavras nesta enchente de discursos, transitamos entre a perfeição e a deformidade.

Vazios de sentido. O que são as coisas sem nome, e o que provocam em nós? A pergunta é ousada, mas podemos supor que o que não tem nome é aquilo ao redor do qual orbitam todos os nomes. Quanto maior a quantidade de palavras atribuídas a algo, mais indomável é esta coisa e mais impermeável ao campo simbólico. Pensemos na morte, na dor, no sexo, na beleza, e em como essas coisas são mais que tudo “não-coisas”, buracos negros de sentido, atraindo toda a matéria para um oceano onde a luz vira do avesso.

A infância e a árvore do bem e do mal. A infância é um desses buracos negros, e por isso todos falam sobre ela. Em Charles Dickens ela é a inocência brutalizada na era industrial, a orfandade do self made man. O conflito se dá nesse choque entre o desamparo e a sobrevivência. A infância permanece imaculada em Manoel de Barros. Ali ela é pura inocência. A criança é natureza, é o faz de conta e a poesia lírica. Em Capitães de Areia, de Jorge Amado, a criança preserva o seu encanto e heroísmo, mas os meninos já não são inocentes. São lampiões, michês, assassinos, estupradores. Mas quando o grande carrossel japonês chega à cidade, revela-se no encanto as crianças que são. O faz-de-conta reaparece nas luzes, na “música da pianola (velhas valsas de perdido tempo), ou talvez nos ginetes de pau”. Em Quixote e Bovary, a inocência é desvario, a loucura de brincar fora de hora, de tomar a literatura pela realidade, o nome pela coisa. Já não se brinca de princesa e cavaleiro. E quando a inocência ultrapassa os limites, converte-se em humor, ironia e em ridículo. Quixote e Bovary foram expulsos do Éden, mas se esqueceram de comer da maçã.

Órfãos vs. órfãos. Os que buscam encanto de algum modo preservam um espaço da semente úmida enterrada na terra escura. Tem coisas que só crescem no faz-de-conta, no pacto de eternidade entre pais e filhos. Já para os recrudescidos é preciso endurecer cedo. A inocência é um mal, uma tolice. Melhor que o órfão de sentidos logo cresça e aprenda a se defender da orfandade bruta dos adultos.

Os nomes da tristeza. Dessa anomia entre inocência e realidade surge algo que nos acostumamos a chamar de tristeza. A tristeza é um território sem geografia cujas fronteiras são um campo minado de poder e discursos. O buraco negro da tristeza passa por entendimentos e soluções as mais variadas. Para uns a tristeza é falta de ânimo e de “pensamento positivo”. Podemos controlar o nosso humor como quem conduz um automóvel. Para outros, a tristeza é uma charada, um nó a ser desatado, uma história a ser recordada. Um terceiro grupo o reconhece como karma – a expiação de um pecado, uma sina astral. E mais recentemente a tristeza adquiriu um sinônimo nada inocente: depressão. O assunto foi transferido para a saúde pública, para o trato médico e das indústrias farmacêuticas. Formadores de opinião reproduzem o discurso, convidando os enfermos a sair do armário. O que era vago, impreciso, abismal traduziu-se em código inteligível, e todo um vocabulário e taxonomias foram criados para dar conta de sua infinidade de variações. Tornou-se comum falar em TDA e em bipolaridade, intercambiar experiências com distintos remédios e indicações de bons psiquiatras.

A metafísica dos neurônios. Depressão não é a tristeza. Ela é uma caricatura para que retoquemos a nossa imagem pessoal. A depressão não passa de um nome. Um nome que transporta a tristeza para a metafísica dos neurônios. A ciência médica advoga uma cura orgânica por meio da manipulação sintética, mas não passa de um sistema de produção de sentidos. Pretende encontrar no corpo a raiz do problema, defendendo o caráter objetivo (não subjetivo) de uma elaborada alquimia simbólica. Aquele que se considera acometido pela febre da depressão de algum modo poderá descansar: encontrou-se o problema, e ele é real e alheio. O alívio advém desta dupla legitimação: de um lado o reconhecimento de sua existência em meu cérebro, e de outro, a apaziguante confirmação de que ele não é um problema meu e, nesse sentido, sua solução está além do meu alcance. Não é a minha tarefa resolvê-lo. A depressão, desta maneira, torna-se uma injunção que reconhece e absolve, autoriza e perdoa. É nesse registro que são prescritas as cápsulas tarja preta.

Antipoesia do excesso. Para outros – àqueles cujos sentidos transitaram tanto que acabaram por perder seu poder de aderência às coisas, a anomia da tristeza foi tamponada com outras drogas. A verborragia, o trabalho, a embriaguez, a cocaína e a maconha. O excesso, enfim, mais excessivo quanto mais ineficaz, quanto mais ignorantes de que falta e excesso não se complementam.

Placebos de inteligibilidade. Não padecemos de reminiscências, de disfunções sinápticas, de falta de ligação com o cosmos ou de carência de pensamentos positivos. Padecemos – como todos os homens – do abismo indelével entre as coisas e os sentidos, padecemos de incompatibilidade semântica, e padecemos ainda mais ao ignorarmos o fato de que não se pode preencher algo que não é um espaço. Não é possível iluminar a escuridão. As palavras não bastam para a matéria negra de nossa história, para o hiato entre inocência e ceticismo, entre infância e idade adulta. No jogo entre vento e força da gravidade, seguimos como uma pipa que rodopia, eleva-se, despenca, volta a subir – e para a imprecisão do voo e da queda não há remédio.

 

A criança e o luto dos encantos

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por Tiago Novaes

O ânimo das crianças. A criança é um adulto animado. A criança é naturalmente animista. Animar: ânima: alma. As bonecas têm vida, a escuridão têm vida, os sonhos têm vida. Tudo é importante – o detalhe é fascinante porque mínimo. É o mínimo onde perder-se como um labirinto de encantos. As coisas grandes são grandes! As pequenas são pequenas! As cores valem por si. O vermelho e o rosa surpreendem, um trator azul é fascinante porque é um trator azul. Ele existe tanto, um trator azul. Um gato é uma aparição que se funde ao frenesi e faz com que o que vejo se torne eu mesmo. Eu sou o gato. Eu sou azul. Eu sou o sonho e a escuridão.

Lentidão lânguida dos adultos. Quando criança, recordo que um dia percebi que os adultos caminhavam em câmera lenta. Para mim, partir era chegar, ou não chegar e frustrar-se até querer alguma outra coisa. Para os adultos não. Eles se levantavam devagar do sofá, como se estivessem tomando cuidado, como se o corpo fosse feito de engrenagens frágeis. Eles não corriam. Não tinham pressa, não tinham ânimo. E estavam sempre cansados.
Sempre que chegávamos a uma pousada, meus pais se recolhiam no quarto para dormir, ou “dormir”. Falavam: estamos cansados. Eu e meu irmão não nos conformávamos e ficávamos enlouquecidos com isso, mas nos víamos enfim livres para explorar os enigmas que o hotel escondia. “Hotel Príncipe”, em Curitiba, fachada do início do século XX, um sobrado descascando, por onde doutores passavam com cartolas e compotas de sanguessuga. A face desbotada do recepcionista velava assassínios. Uma reunião secreta. O corpo sob a cama, mofando o carpete. As histórias estavam lá.

Bovary e Quixote. Crescer foi deitar água fria à fervura. Essa imagem é de Manuel Bandeira quando descobriu a tuberculose na adolescência. A morte acabou com seu viço e perpetuou, como sabemos, sua vida. Bandeira é um encanto. Em sua poesia encontramos o menino e a morte. Destino mais trágico foi o de Emma Bovary e Dom Quixote. A dama e o cavaleiro que crescem como crianças. Os dois querem as aventuras que a infância e os livros prometeram. A água fria à fervura: o realismo ao romantismo, o prosaico à loucura. Para ambos, o desfecho é trágico.

Um aparte. Trabalhei quando jovem como voluntário de uma ong, coordenando oficinas sobre sexualidade com meninos da Febem Tatuapé. O que me surpreendia era o fato de que aqueles meninos – os pequenos bandidos, os pequenos assassinos – estavam ali por quererem mais. Eles queriam tudo. Cresceram no delírio do consumo, na sedução da vertigem. O crime foi só a forma a que tinham acesso. A que tinham excesso. O crime foi o excesso permitido aos pequenos Quixotes e Emmas. Até a tragédia os animava. Mas no lugar do encanto havia sangue.

Leiam Madame Bovary. “Era uma existência acima das outras entre o céu e a terra, nas tempestades, algo de sublime. Quanto ao resto do povo, estava perdido, sem lugar preciso, e como não existindo. Quanto mais as coisas, aliás, eram vizinhas, mais a sua mente se desviava delas. Tudo que a cercava de imediato, o campo enfadonho, pequenos burgueses imbecis, mediocridade da existência, parecia-lhe uma exceção no mundo, um acaso particular em que ela se encontrava presa, ao passo que para além se estendia, a perder de vista, o imenso país das felicidades e das paixões. Ela confundia, no seu desejo, as sensualidades do luxo com as alegrias do coração, a elegância dos costumes e as delicadezas do sentimento.”

O adulto que queimava livros. O Chefe dos Bombeiros em Farenheit 451 tem livros em casa mas não os lê. Priva-se do combustível que inflamou os ânimos de Quixote e Bovary. No futuro imaginado por Bradbury, ler tornou-se um crime. Em certo momento, ele confessa já ter sido um leitor: “Ah, olhe para mim, Montag. O homem que amava livros, não; o menino que era selvagem por eles, louco por eles, que escalou as estantes como um chimpanzé enlouquecido por eles.” Mas o que aconteceu, então? Montag pergunta. “Ora, a vida me aconteceu. A vida. O de sempre. O mesmo. O amor que não foi muito bem, o sonho que se estragou, o sexo que se desfez, as mortes que vieram subitamente para amigos que não mereciam, o assassinato de um ou outro, a insanidade de alguém próximo, a morte lenta de uma mãe, o suicídio abrupto de um pai; uma debandada de elefantes, o ataque de uma doença. E em lugar nenhum, em lugar nenhum encontrei o livro certo, para na hora certa enfiar na parede prestes a desmoronar do dique que se rompe, para conter a inundação, dar ou tomar uma metáfora, perder ou encontrar um símile.”
O ânimo inflamado pela ficção era um despreparo para a vida. A ficção era uma traição. A alegria era uma mentira.

Crescer. Crescer foi deparar-se com gente que dizia: ah, isso eu já sei. Isso conheço bem. O desânimo era o valor da maturidade. Tinha um amigo no colegial para quem mostrei uns trechos de Grande Sertão. Recordo o desprezo com que o recebeu. “Viver é perigoso. Carece de ter coragem.” Ora, mas isso é um chavão, ele disse. E senti que meu animismo era uma estupidez, que minha alegria era o saltitar de um tolo, de uma criança retardada por achar aquilo a maior das revelações. Viver era perigoso de formas que a gente nem imaginava.
Os artistas eram mais emancipados quanto melhor conhecessem as coisas com a frieza dos doutores de bisturi. E para mim a literatura seguia como aquele gato diante da criança que tremia de excitação. A maturidade e o desânimo vieram como em Bovary e Quixote. Eu não era ninguém. Eu não derrotava dragões. O hotel príncipe era um sobrado descascado. A paixão, um idealismo datado. Meus excessos não tinham serventia, não eram adequados. O cianureto da melancolia espalhou-se na boca, e no século XXI se chamava sertralina.

Psicotrópicos. Tranilcipromina, moclobemida, doxepina, maprotilina, duloxetina, venlafaxina, fluoxetina, paroxetina, isocarboxazida, iproniazida, fenelzina, clorgilina, citalopram, fluvoxamina, toloxatona, brofaromina, befloxatona, amitriptilina, clomipramina, imipramina, desipramina, nefazodona, trazodona, tianeptina, mirtazapina, mianserina, minaprina, bupropiona, amineptina, viloxazina, reboxetina.

Ser adulto. A sertralina é um antidepressivo que atua nas ligações sinápticas do cérebro, inibindo a recaptura da serotonina. Já a melancolia era uma enfermidade que tornava a vida mais pobre. Havia os que alertavam para o fato de que a tristeza – o luto eterno dos encantos – produzia um déficit cognitivo irreversível. Os efeitos adversos do remédio podiam ser resumidos numa palavra: inapetência. Perda da fome sexual, perda da fome por comida, perda da curiosidade, perda da ansiedade sem nome, perda do sentimento de perda – tudo desaparecia. A sertralina era um inibidor de bovarismo, um mecanismo de integração na paisagem. Não me importava ser eu ou ser outro. Não me importava se o trator era azul ou amarelo, se as coisas demoravam para acontecer. Eu podia me erguer devagar do sofá, eu podia desfrutar do processo. Menos tomado pelas coisas, seria eu a tomá-las. Agora eu poderia ter ambições. Tomar casas, mulheres, enxergar as coisas como eram. Planejar com a paciência de um estrategista. Amotinar-me, matar Ulisses e tampar os ouvidos com cera, para que jamais tomássemos conhecimento do cântico mortífero das sereias e pudéssemos continuar navegando.
Minha cera se chamava sertralina.

(continua)

Alguém para conversar sobre livros

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por Tiago Novaes

Basta de começo meio fim. Tudo é meio. Quem ainda liga para a lógica? Viva os efeitos de verdade. Para os que buscam densidade, vide MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 20xx.

Quando Freud fala de pulsões parciais, está se referindo ao fato de que nenhum de nós neuróticos vai querer uma única coisa durante toda a vida. Não há um rei que sacie todas as nossas esperanças. Não há uma mãe que ame tanto o seu filho único. O amor não se fixa a um único objeto. O amor é um desdobramento infinito. O amor é uma narrativa.

Estou viajando já tem algum tempo. SP é para quem pode, alguém disse uma vez. E em algum momento nesta minha longa viagem eu já havia suprido minha vontade de experimentar sabores exóticos, escalar as pirâmides khmer, percorrer a moto as 762 curvas da estrada entre Pai e Chiang Mai na companhia de uma grega ortodoxa, meditar enquanto travava conversas telepáticas com meus colegas, passar horas na praia, nadar em rios caudalosos e entrar clandestino em um campo de refugiados. Foi do caralho. Fiz dos meus dias uma aventura excitante e cansativa. Nunca me senti tão velho.

Todas pulsões parciais. Sentia falta de livros. Conheci muita gente, engenheiros, arquitetos, ciclistas, matemáticos, monges, agentes de viagem. Não eram nada disso. Eram pessoas, algumas brilhantes. Com exceção de uma jovem belga em Myanmar e um alemão na Tailândia, ninguém tinha o hábito de ler, ou parecia deter um conhecimento razoável de história ou das artes plásticas. Revoluções de 1848? Entschuldigung. Goya? Lo siento. Borges? Yeah, sure, but never read it. O mundo seguia indiferente ao seu legado cultural e eu me sentia só.

Em Berlim, comprei um Kindle por 50 euros. Guardava uma abstinência insana pelo idioma português. Minha pátria é minha língua. Ao longo de todo o mês de julho, reservei duas horas diárias à leitura de ficção, coisa que no primeiro semestre, por estar escalando pirâmides khmer não pude fazer.

Conheci uma garota com quem podia conversar sobre livros. Ela faz doutorado na Humboldt, pesquisa um tema relativamente obscuro e fala alemão. Depois, passei a dividir o apê com um cara que nunca leu um livro em toda a sua vida. Ele volta do trabalho e passa o tempo que lhe resta com a tv ligada em two and a half men dublado e jogando um negócio no celular.

Depois de Retrato do artista quando jovem, inspirado na viagem a Trieste (Joyce passou ali dez anos de sua juventude), comprei o Karl Ove por recomendação da Roberta Martinelli. Senti falta de prosa brasileira contemporânea, e decidi emendar no Divórcio do Lísias. Por sugestão da Leusa Araújo, li Fugitiva, da Nobel canadense Alice Munro. Depois, via Ricardo Rios, Meu coração de pedra-pomes da Juliana Frank, uma jovem paulistana. Busquei Faulkner, mas as traduções são todas pela Cosac Naify, que por apostar no refinamento das edições, não parece disposta a liberar os seus livros em ebook. Na contramão da Cosac, pela primeira vez achei que o livro de papel estivesse com os dias contados. Ninguém a não ser nós cervantinos prezam por sua materialidade. E eu, mais do que livros, queria ler. Gastei 110 reais nas cinco obras. Na livraria, teria gasto duzentos. Só o de Munro custava R$ 40, e na versão digital saía por R$ 10. Em Berlim tem um trem que dá a volta na cidade, numa linha circular. Você pode tomar o ringbahn no sentido horário ou anti-horário. Eu gostava de tomar um desses sempre no anti-horário e ler enquanto admirava a vastidão urbana pela janela, e após umas trinta páginas descia pra tomar um café ou comer um currywurst, e subia de novo para minha segunda rodada de leitura. Em um mês li 1488p. A minha amiga estudiosa gosta de dizer que estou de férias. Em defesa, afirmo que este é o meu trabalho, que medeio encontros etc. Mas é claro que ela tem razão. Não sinto a estafa do labor alienado. Não senti-la sempre me angustiou. Entre estafa e angústia, sou mais a primeira. O meu dia é um vazio impossível de preencher. (vide WEBER, M. Die protestantische Ethik und der ‘Geist’ des Kapitalismus).

Talvez as pulsões parciais não sejam nada do que eu disse que são. Averiguar. (Três ensaios sobre a sexualidade, 1905)

Há um efeito interessante em ler os livros em sequência e sem pausa. Entre James Joyce e Karl Ove, a impressão foi de tirar os sapatos. Entre Ove e Lísias amparei um choque, como se o segundo guardasse de rancor o que o primeiro preserva de melancolia nórdica. Entre Lísias e Munro, tive de frear. De Munro a Frank, foi como passar do uísque ao toddy. Gosto de toddy. Mas tive de fincar-me em outros valores. Cada livro defende os seus pontos fortes. Quando o leitor discorda desses pontos, fica difícil gostar do livro.

As pessoas aqui em Berlim praticam o sol e a grama, a tatuagem, a alimentação vegana, a bicicleta, as hortas coletivas, as expressões dramáticas, performáticas, as festas de topless, as drogas orgânicas e inorgânicas, o blasé (também conhecido como “capciosa indiferença” ou “aversão ao deslumbramento provinciano”), a união entre os povos (adolescentes), e sobretudo a beleza, que consiste num aperfeiçoamento profissional do bom gosto. Esse bom gosto está no vestuário, na publicidade, na proliferação viral de videos nonsense, na cenografia das vitrines, na decoração doméstica, nos efeitos de um cabelo x e uma tatuagem y e uma composição cromática z. O bom gosto dita que nada signifique, mas desenhe uma sedução, a alusão a algo que ninguém sabe muito bem o que é. Efeitos sutis. Em matéria de bom gosto eu devo ser um neandertal. Ou não. Já os livros persistem até para os artistas como uma referência, um modo a mais de absorver tendências, ou um descanso solitário. Mas não um ato, e não como forma.

Ia concluir dizendo que o meu tablet era um objeto total, que em sua mesma página toda a literatura escorria como num bloco mágico sem sulcos ou traumas, mas fui comprar agora Madame Bovary da Penguin-Companhia, na tradução do Mario Laranjeiras (a tradução que li na juventude era uma fraude). O livro deu pau e o aparelho me deixou na mão. Tive de ligar no sac em São Paulo para resolver o bug do Flaubert. Frustrado, tive ganas de realizar outros desejos.

De Choisy: abade, viajante e ‘crossdresser’

por Tiago Novaes

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Em 3 de março de 1685, o abade francês François Timoleón de Choisy embarcou no navio Oiseau que partia do porto de Brest rumo à Tailândia, o então reinado de Sião, em uma delegação capitaneada pelo embaixador Alexandre de Chaumont. O navio levava jesuítas, físicos, matemáticos e especialistas em budismo e mandarim, além de enviados do reino do Sião e até mesmo um espia cujo propósito jamais se revelou e que foi logo desmascarado e enviado de volta à terra em um bote. A missão da comitiva, planejada ao longo de meses sob o escrutínio atento de Luís XIV, era nada menos do que converter o rei de Sião ao cristianismo e garantir uma influência dominante no comércio com o sudeste asiático, ameaçada pelos holandeses e ingleses.

O abade de Choisy era uma personalidade influente. Filho de um rico comerciante muito próximo a Luís XIV, foi o primeiro a beijar a sandália do novo papa Inocêncio XIX. Talvez por isso a Igreja não houvesse manifestado objeções quando se descobriu por seus escritos que, ao longo de toda a sua infância e juventude, Choisy tivesse o hábito de vestir-se de mulher. Foi a mãe, segundo ele mesmo, que lhe infundiu o gosto pelo panier, pelas anáguas adornadas, saias de musseline, espartilho e perucas de prata. Mas a despeito do que se poderia imaginar, a de Choisy apeteciam as mulheres. Quando jovem, costumava seduzir meninas inocentes fazendo-se passar por uma aristocrata mais velha que lhes ensinaria os segredos para agradar os homens na intimidade. A pubescência dos conselhos, confiada aos ouvidos sensíveis das virgens, abria caminho para as mãos suaves do sedutor, um beijo nas maçãs pálidas. Quando descobriam que a senhora era um homem, soía ser tarde demais.

Consta que após uma séria enfermidade, de Choisy abandonou o hábito herdado pela mãe e vestiu um outro, o respeitável e sacrossanto hábito do monge. De modo que, aos quarenta e dois anos e a bordo do Oiseau, já não se distraía com tais travessuras. Ao invés disso, dedicava-se a manter um diário de viagem onde relatava os pequenos, às vezes ínfimos acontecimentos durante a longa travessia marítima, diário que foi editado como Journal du voyage de Siam fait en 1685 et 1686, no qual descreve as naus sem tripulação vagando à distância no oceano, um arco-íris noturno, a crise de escorbuto até a chegada ao Cabo, os fogos de São Erasmo, uma eclipse lunar que deixou pasmos os siameses à bordo, o espetáculo secreto de um raio atingindo as águas, um amigo que agonizou lentamente, acometido por uma doença misteriosa.

Além destes episódios e de barrocos pormenores náuticos, de Choisy tece considerações sobre seus aprendizados. Na época, o português era o idioma ocidental mais falado na Tailândia, e por isso, distraía-se entre leituras de Euclides e os aprendizados do idioma. Uma leitura não deve ser feita de palavra em palavra, ele diz, mas de frase a frase. Apenas assim se poderá manter a delicadeza das línguas.

Aportando em Sião, dirigem-se à capital do reino, que não era Bangkok, mas Ayutthaya. A Corte recebe-os com honrarias. Impressionaram-se com os nativos, que andavam quase nus e descalços, e ainda assim cobertos de joias de ouro. Com ironia, os europeus enxergaram o hábito dos siameses de tomarem três banhos por dia nas águas do rio, sem saber que foi justamente por isso que não sofreram das epidemias malignas dos europeus. Os asseados tailandeses não se lavavam nas águas estanques de banhos coletivos como os europeus o faziam, e tampouco bebiam da água que usavam para se lavar. O nativos viviam em arejadas casas suspensas de bambu, a alguns metros do solo, tão fáceis de construir quanto de transportar (de fato, o Monsenhor de La Loubère conta como três casas foram levadas para longe da vista do palácio real em menos de uma hora, e trezentas se ergueram em dois dias em Ayutthaya).

Ao final da jornada, de Choisy sentia-se cansado, envelhecido. O plano de catequizar o rei malograra, mais preocupados estavam os siameses de impedir as invasões de ingleses e holandeses. Um grego muito astuto e influente na Corte, Constantine Phaulkon, pediu que Choisy advogasse em favor da intervenção de um exército francês, para conter as ameaças estrangeiras. Com palavras gentis, o abade recusou. Mesmo assim, alguns meses depois, o rei acabou aceitando o conselho. Aportaram em Sião milhares de homens viris e equipados, muito superiores aos exércitos do rei Petraja. Os franceses, que supostamente deveriam socorrer os tailandeses, acabaram vistos como uma ameaça, e foram expulsos. Desde então e até hoje, o termo que utilizam para francês, farangset, é ampliado para todos os estrangeiros invasores. Todos os vinte e três milhões de turistas que hoje chegam à Tailândia todos os anos são Farangs.