O proletariado da caneta

por Tony Monti

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Na bandeira do Partido dos Trabalhadores da Coreia, dentro da simbologia socialista, chama a atenção o terceiro elemento entre a foice e o martelo. Trata-se de um pincel. Assim, além dos trabalhadores do campo e das indústrias, estão ali representados também os trabalhadores intelectuais.

No Brasil, o passado associado a uma elite aristocrática e escravista produziu o pensamento de desvalorizar o trabalho braçal. São presentes aqui e ali os sinais desse passado que divide os homens em duas categorias. As recorrentes piadas sobre o passado de metalúrgico do presidente Lula não estão distantes desse preconceito.

Uma boa quantidade do proletariado da caneta insiste em marcar sua diferença em relação aos demais, criando relações verticais e sectárias em vez de construir um princípio de igualdade. Pode-se ser garçom em Londres ou lavar pratos em Paris, é verdade. Vale notar que ir à Europa é um sinal de diferenciação.

Na universidade, por exemplo, o trabalhador intelectual ultraespecializado muitas vezes tem condições de trabalho ruins em seu cotidiano. Pode não lhe agradar acordar e ir à universidade para trabalhar e conviver. Às vezes trabalha em casa. Mas, em vez de se juntar à luta dos demais trabalhadores, é calado, por exemplo, com a possibilidade de ir à Europa uma vez por ano, para um congresso, onde pode tirar fotos e colher histórias. A gente vive de pequenos prêmios. E a gente esquece.

A ideia exótica que estou defendendo é que o proletário da caneta talvez tenha maneiras refinadas de esconder de si as relações verticais que estabelece e seu menosprezo pelo cotidiano, já que consegue benefícios, de maneira não-regular, seja por herança, pelos contatos sociais ou pelos prêmios que a vida oferece, para além do salário (que já é maior que a dos demais proletários).

Por seu lado, o proletário do martelo e da enxada só tem mesmo o cotidiano. Não tem alternativa a acordar, trabalhar e dormir, diariamente. Não vai à Europa para congresso ou para seis meses lavando pratos enquanto estuda francês e junta um dinheiro para o curso de fotografia, ou para o mestrado, que vai fazer em Paris. Isso, se tiver emprego.

Panelaço − o paradoxo dos silenciosos

por Tony Monti

Amanhã, terça-feira, o PSDB vai à TV discorrer sobre crises econômicas, éticas e políticas, focalizando o governo federal e o PT, sem jogar nenhuma suspeita sobre questões estruturais do país nem sobre os governos de outros partidos. Quando, há algumas semanas, era o PT na televisão, o PSDB chamou um panelaço: fazer barulho sobre uma causa simples, contra algo, velando, com o barulho feito sobre a energia dos eufóricos e desejosos, interesses e favorecimentos político-eleitorais.

Se, amanhã, alguém, algum grupo, quiser fazer uma queixa mais silenciosa, mais política e mais complexa, possivelmente não baterá panelas. O impasse não é novo. Para se fazer escutado, para causar repercussão em maior escala, é preciso simplificar o discurso e fazer barulho. Como se faz isso quando o que se quer é justamente tornar a discussão mais ponderada e complexa?

Se, amanhã, alguém, algum grupo, fizer um panelaço durante o programa eleitoral do PSDB, qual a chance de a mensagem transmitida ser a de que é possível fazer uma crítica ao governo federal, mais política, menos ruidosa, à esquerda? A pauta está dada. Infelizmente a polarização PT x PSDB toma o lugar da discussão sobre as estruturas, as reformas, a política. É difícil estabelecer agora uma alternativa à esquerda que não seja, ou pareça aos olhos de muitos, uma adesão ao PT. Mas é preciso.

Um palpite sobre internet e política

por Tony Monti

Escutei nas últimas semanas mais de uma pessoa argumentar que, graças às novas tecnologias. a Dilma, e não o Aécio, se elegeu. O argumento se baseia na ideia de que, não fosse a liberdade da internet (que teria possibilitado a existência de meios alternativos de informação), Globo, Veja e jornais afins teriam pautado as eleições em um discurso unívoco. Pode ser verdade. Ao que parece, o uso que se fez da internet teve mesmo papel significativo no resultado das eleições.

Não vejo, no entanto, motivo para supor que a internet favoreça determinado discurso, determinadas ideias ou ideologias. Nem mesmo me parece que a internet é mais livre. Usuários do Facebook e do Google têm seus dados vasculhados sem parar, seus hábitos mapeados para que, ao consumirem, reproduzam as ordens sociais do interesse destes grandes conglomerados. Antes, a GM e a Philips, agora o Google e o Facebook. Um pequeno deslocamento do capital, sem visíveis alterações nos índices de desigualdade entre as pessoas.

A existência da internet não torna o mundo mais livre, nem menos, do que o mundo de antes. Ou mais, mas também menos. A internet é agora parte do chão em que pisamos, do solo histórico, do horizonte de possibilidades para as transformações. Ignorar a internet e as redes sociais é ignorar uma parte grande do momento presente, é jogar sem conhecer as regras. Mas não vejo na internet uma via melhor do que as vias anteriores, em outros momentos da história. Ela é inevitável, incontornável, mas não joga necessariamente do nosso lado.

21sp – entrevistas – Tony Monti

Tony Monti é autor dos livros de contos eXato acidente o menino da rosa, e do infantil Três coisas que eu gostofinalista do Prêmio Jabuti 2014.

[Desta vez, as perguntas foram enviadas por Carolina Peters, a quem a 21sp agradece.]

1. Tony, há muita conversa sobre o fim do papel e das edições impressas. Mas do ponto de vista da produção literária, o que a popularização das plataformas de leitura eletrônicas pode representar?

 Antes de tudo, devo dizer que não costumo ver a tecnologia como sujeito de mudanças (políticas) importantes. As mudanças importantes se dão nos modos de pensar.

 Acredito que o acesso a muitos livros o tempo todo, num tablet, em vez de poucos, numa estante, faz com que a leitura fique mais caótica, que as pessoas leiam muita coisa ao mesmo tempo, em fragmentos, o que não é bom nem ruim, apenas diferente. Outra consequência, talvez a mais importante, é que as pessoas não poderão mais apreciar as estantes das outras quando se visitam.

 Eu não levo essas mudanças intencionalmente para minha produção literária, mas talvez tenha incorporado essa dinâmica de leitura em estilhaços ao que escrevo. Talvez eu não consiga escrever uma história longa nunca mais, porque já não leio livros do modo como lia antes. Mesmo minhas narrativas curtas têm mais de um cenário, mais de uma trama, o que pode um dia ser lido como um efeito dos meus hábitos pouco lineares de leitura.

 2. O baixo índice de leitura entre os brasileiros é uma questão recorrente, apesar do crescimento nas vendas de livros e expansão do mercado editorial. Pensando além da literatura, algumas exposições que vieram recentemente ao Brasil atraíram um público fora dos padrões anteriores, com muita repercussão espontânea nas redes sociais. Entre críticos e estudiosos houve tanto quem vibrasse com o interesse crescente da população pela arte; como quem menosprezasse uma relação apontada como consumo mecânico, sem reflexão. Como você lê esse movimento? (Consumir literatura não é ler, mas é o quê?)

 Acredito que a fruição da arte é transformada pela possibilidade de pensar arte. Em uma população pouco acostumada ao pensamento abstrato, a fazer hipóteses, a entender o desejo do outro como um desejo diferente do seu, a se ver e se entender em grupos maiores do que os que os olhos podem alcançar, a fruição torna-se mesmo fenômeno de massa, comércio, livro, exposição e sabonete.

 Na minha opinião, ter leitores é melhor que não ter; ter exposições é melhor que não ter. Mas isto é olhar para arte como um objeto de coleção, olhar para a leitura como um acúmulo neutro. A possibilidade da arte de ser transformadora é que ela venha acompanhada de reflexão sobre a sociedade e sobre os desejos mais essencialmente humanos. Algo se aprende, inevitavelmente, quando se sai de casa e vai ver Monet. Mas o raciocínio do colecionador está muito aquém do raciocínio do indivíduo que, em vez de colocar o quadro na parede, anda com ele na algibeira.

Vencemos

por Tony Monti

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[às vezes de longe, às vezes de perto, pode parecer que a gente é mais vermelho]

Escrevo com alguns dias de antecedência, antes de as hipóteses se enraizarem na história. Adianto a reflexão da vitória. Sei o que comemoramos. Entre as opções postas, venceu aquela que escolhe o ser humano antes dos números da economia. Não quero chamar injustamente os números de “frios”. O Estado e a administração pública tratam de coisas enormes, e nem sempre o caminho que aposta no desejo quente é o que produz os resultados esperados. O Estado não é a expressão dos desejos da maioria. Desejos podem ser perversos, individualistas, violentos. Talvez as vontades, algo mais subordinável a uma razão. A política, me parece, é justamente a possibilidade concreta, de fundo abstrato, de lidar com os afetos para grupos grandes, quando a autoridade do pai ou as simplicidades da Lei da casa já não dão conta de alimentar a todos os que dividem o pão à mesa.

Ao mesmo tempo, quando foge do tamanho humano, dos afetos pulsantes nas curvas de cada corpo, o Estado, abstrato a princípio, pode ser pouco. A frieza do Estado depende da confiança e do aquecimento dos afetos dos indivíduos.

Vencemos, 2% de diferença. Isso significa que metade da população não entende o que para nós parece óbvio.

Mas o principal, “vencemos” inclui uma pregunta difícil de responder – que somos nós? O eleitor da Dilma que votou Skaf? O eleitor da Dilma que não anulou o voto por nojo do 45? O eleitor da Dilma que se beneficiou com o Bolsa Família? O eleitor da Dilma que votaria Aécio se ele não tivesse sido arrogante naquele momento específico? Nós vamos comemorar como clubes de futebol, como uma maioria inespecífica preenchida de imensas diferenças?

Nós não somos iguais. A democracia eleitoral é uma forma de igualar os diferentes, o que é bonito, porque constrói um identidade fraternal, naquilo que, para grupos enormes como países, não pode ser mais uma família. “Nós” é essa identidade forjada em pedra dura à base de democracia eleitoral.

No mais, que Reforma Política, que Reforma Tributária, que transformação na educação básica são possíveis? Ganhamos? Sinto falta de um discurso mais entortadinho à esquerda, de menos gerência e de mais vontade (para não me render e dizer “desejo”, o específico humano que não se resume à contabilidade).

Perdemos

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por Tony Monti

Escrevo com alguns dias de antecedência, antes de as hipóteses se enraizarem na história. Adianto a reflexão da derrota, para não cair depois na esparrela de apenas comemorar a mediocridade. Perdemos. Tenho dificuldade de escrever o nome do presidente.

Perdemos por 2% de diferença, o que quer dizer que 49% estão conosco. Mentira. Nas eleições estaduais, as primeiras pesquisas indicavam que a soma dos partidos da esquerda (incluindo o PT) não chegava a 5% dos votos. Não somos politicamente, neste sentido, mais do que 5%.

Em São Paulo, como disse o Tiago Novaes, ao sair na rua, saiba que 80% das pessoas que você encontrar terão votado Alckmin ou Skaf. Os motoristas de táxi, os atendentes na padaria, o garçom que serve sua cerveja gelada, sua professora de gafieira, os skatistas da praça, os ornitólogos e os fetichistas da tabacaria. Descontam-se ainda neste cenário os Russomanos, Tiriricas, Felicianos e a bancada da bala.

Perdemos, na eleição federal, uma pequena inclinação dos rumos do mundo, porque havia algo ali no governo m PT ainda daquela vontade de igualdade que move os nossos. Mas perdemos.

A verdade, no entanto, é que já estiávamos perdendo há algum tempo, ao não encarar e bancar grandes transformações como a reforma política e a reforma tributária.

Já estávamos perdendo quando em junho de 2013 mostrou um Brasil violento e conservador. Que surpresa?

Essa campanha eleitoral começou com junho de 2013, como assunto, porque essas coisas grandiosas, as catedrais e os viadutos, nos agarram o espírito. Mas tudo no fim se resumiu a “vontade de mudança”, que paradoxalmente veio a ser “muda mais”, com a situação, e “manutenção dos avanços sociais”, com a oposição. Mudança nenhuma. Menos que isso. Mudança de mentira. Conservação.

O pobre ganha um dinheiro e fica com raiva do governo que o ajudou, por não o ajudar mais, por não cumprir a promessa do capital, de recompensar os desejos de todos. Algo errado aí. Confundiu a oferta e a promessa.

Nos últimos debates, os candidatos falavam de números, acusavam-se e tentavam garantir a paternidade do que, supostamente, foram nossos dividendos recentes. Eles, Aécio e Dilma, se igualam em muito, dois gerentes de clubes de futebol.

Eleição não é política, ou é muito pouco, eleição é propaganda, mercado. O eleitor quer uma mudança de mentira, cada um que ofereça uma.

Perdemos. Deu Aécio. Mas não foi só isso. Preferiria ter escutado de alguém uma proposta concreta para a reforma política ou para a educação. Ou, pelo menos, que nos debates houvesse seres humanos, como foram a Luciana Genro, coerente e incisiva, e o Eduardo Jorge, carisma puro, socialista num partido de conservadores. O modelo esgotou-se mesmo, e não é reclamação de perdedor, acho. Deu Aécio. Que desse Luciana Genro. Votei Dilma com alguma convicção, mas entendo os amigos que costumavam anular o voto e que, dessa vez, votaram 13 por nojo do 45. Perdemos. Temos perdido há algum tempo. Temos ganhado há algum tempo. Tem gente que é acostumado a ser minoria.

Três coisas que não existem: Piauí, africano e faxineiro

por Tony Monti

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O Piauí não existe, a gente costumava dizer, e não sem alguma razão. Há outros lugares que não existem, assim como são invisíveis os rostos dos funcionários da faxina. A África é um continente inteiro esquecido. Há décadas, a Aids é uma epidemia. O Ebola é a novidade perigosa da vez. Os telejornais falam da infecção de um americano como se ele estivesse em quarentena por ter ido a Marte (um lugar desabitado, suponho), não à África.

De volta ao Piauí, me desconforta quem cinicamente chama de esmola os programas assistenciais federais. Eles deveriam ser maiores, não?, para os caras terem banda larga, não?, para os caras terem cinema e livros, não?, para que o Piauí exista. Ou então que se declare abertamente, como fez o candidato Fidelix na TV, que somos nós contra eles (ou eles contra nós), em clara manifestação de desacordo com qualquer suposta fraternidade humana.

Entendo, embora discorde, o argumento liberal de que a livre iniciativa produzirá a igualdade. Há sinais de que não é assim. Este best seller do francês Piketty parece nos dar argumentos numéricos, como gostam os humanistas contabilistas. Mas, abertamente, tratar o cidadão americano possivelmente infectado com o Ebola de modo tão especial, em relação aos milhares de mortos na África, é perverso, mesmo para o contabilismo mais ortodoxo.

Do mesmo modo, dizer que os 70 reais do Bolsa Família produzem preguiça é desumano. Tenho vergonha e medo desse egoísmo. Entendo o desacordo entre os que se agarram na liberdade e acham que a igualdade talvez venha depois, contra os que se apegam à igualdade, que gradualmente produziria a liberdade possível. Isso é política, isso me parece uma discussão quase honesta. Mas há uma parcela dos que dão opinião na rua, na tv e na internet que ignora a fraternidade (humana), o conceito que cimenta as diferenças.

Perdão, deus, se te pareço religioso.

Enquanto a eleição não acaba, a água (do discurso) não acaba, e enquanto um americano não é infectado, os trajes dos médicos africanos a tratar do Ebola são ficção científica para alimentar algum plano obsceno de imposição de força, pela Nasa, no espaço, ou pelo American Army no Oriente Médio.

Considerações retórico-metafísicas sobre a política na prática

por Tony Monti

Eu sou Dilma. Acho grosseiro votar Aécio. Considero grosseiros os motivos da maioria dos que votam nulo. Não todos. Eu votaria em outra pessoa, se outras opções houvesse.

“Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é a tentativa de colonização do outro”. A reflexão do Saramago me leva a pensar nos inúmeros temas sobre os quais falamos, falamos, sem sairmos do lugar. Alguns destes temas estão fincados em crenças profundas e firmes, que nem sequer sentem, que não se movem, a despeito dos ânimos envolvidos na superfície dos diálogos. Parte dos nossos modos de pensar, senão tudo, está baseada em repetições involuntárias de procedimentos de ação ou de fala. Não mudamos de opinião facilmente sobre as profundezas. Podemos escovar os dentes, usar fio dental, mas o grosso da civilização ou de nossa desumanidade só muda (é extraída) com boticão, sangue e mucosas expostas.

Estou sendo simbólico, percebe? Ou será que estou falando de sangue mesmo? Sigamos o caminho do discurso e dos preconceitos. Não é incomum que, depois de muita conversa, eu chegue à conclusão de que meu interlocutor fala outro idioma. E de fato fala. Se não nos entendemos é porque ele enraíza as palavras, que na superfície são as mesmas, em outras convicções. Tenho um prazer estético, embora um desprazer pragmático, quando uma pessoa conclui, por absurdo, o contrário do que o que seus argumentos, na minha opinião, dizem. Prazer com o absurdo. Desprazer com as conclusões.

A comunicação é algo muito delicado. As palavras são tábuas soltas em mar revolto, ancoradas sabe-se lá onde, ligadas umas nas outras por fios inauditos. Freud descreve como ato falho aquela revelação involuntária de uma crença ou uma vontade. Tenho a impressão de que nossa comunicação é assim cheia de atos falhos, de desejos mal expressos, de falsos entendimentos. Raros e miraculosos são os momentos em que, pragmaticamente, eu digo e peço sua ajuda para x, e x acontece.

São frequentes também os momentos em que parece tudo, no limite, um absurdo ainda maior, em que as conexões entre os interlocutores são tão sutis que intangíveis. Não se trata mais de falarmos de coisas diferentes porque as palavras estão vinculadas, de maneiras insondáveis, a crenças distintas. Resta bem pouco neste ponto-limite. É quase tudo abismo além da crença (nunca uma convicção) de que argumentar vale mais do que calar-se, não necessariamente para convencer alguém, mas pela ideia quase religiosa de que fazer algo, existir ativamente, produz melhores efeitos do que a inércia, ainda que as palavras e as coisas possam ser ilusões. Etimologicamente, abismo significa “sem fundo”. Neste ponto, prefiro tampar o precipício com a ilusão de que eu existo, produzir um fundo imaginário, que dificilmente será verdadeiro, uma crença que, apesar de tudo, me conforta mais que seguir em queda livre. Um instante de religiosidade. Fora isso, ninguém sabe em que vícios estão ancoradas as virtudes.

A invenção da pobreza

por Tony Monti

Há algum tempo não existiam pobres no Brasil. Negros não eram pobres. Nem humanos eles eram. Índios eram outra gente estranha pouco afeita à catequese. E os brancos não nobres e sem posses, no século XIX, viviam próximo à aristocracia, como agregados, para deixar bem claro que branco era gente, preto não.

É como falar na incrível democracia grega, perfeita entre os cidadãos. Mulheres e miseráveis, 90% da população, não cidadãos, não tinham direitos políticos.

A invenção da pobreza é a invenção do indivíduo. Quando o branco deixou de ser em grupo (humanidade, nobreza, família etc) e passou a ser indivíduo, supostamente livre para ganhar e perder, se não tivesse posses, seria pobre. Preto também, ao virar gente, virou imediatamente indivíduo e pobre.

Curiosa é a conveniência deste liberalismo. Todo mundo é livre para tentar, mas ainda tem gente que acha que tem gente que é menos gente. Que não se pode ser gay, que não se deve ser preto, judeu, índio. Pobre também, pobre ainda é um pouco subumano. Não se deve ser pobre. Pobreza é o destino dos inferiores. Só quem merece fica pobre. Só quem é subumano é pobre. E o que mudou então com essa ideia de capitalismo e liberdade, que substituiu o feudalismo?

Capitalismo é melhor que feudalismo, de uma maneira sutil, porque preto e pobre ganharam status simbólico de gente. São todos livres, é o que se diz. Mas é preciso transformar ainda umas discretas condições materiais para que o ganho simbólico não seja como dinheiro em país estrangeiro, que vale muito, mas não na prática, mas não aqui. Enquanto isso, pode-se mandar a polícia bater em quem ocupa prédio vazio há anos, que não paga imposto. Todo mundo é livre para comprar o que quiser, certo? Cada um que compre seu prédio vazio.

Gregório (o outro)

por Tony Monti

Na semana passada eu ia dizendo a alguém que queria entender melhor o Gregório de Matos. Imediatamente alguém me disse “Gregório de Matos é muito chato”, e o assunto morreu.

Mas que Gregório de Matos? Shakespeare, Lars von Trier, José de Alencar, Murakami, Paul Auster, Miranda July e Gregório de Matos não nos chegam sem intermediários. Estão imersos em uma rede de discursos que os tocam, transformam e moldam nossa leitura. Ler Gregório de Matos, hoje, não é apenas ler Gregório de Matos. É ler os poemas e os manuais e as análises e os comentadores, além das opiniões dos amigos, da televisão, das conversas que a gente escuta no ônibus e o que mais houver sobre Gregório de Matos. Gregório de Matos não é Gregório de Matos. Não há um sentido a priori ou um sentido fixo. Gregório de Matos se transforma a cada vez que se coloca outro texto em jogo para dialogar com ele.

O que vale agora, ao ler Gregório de Matos, não é um Gregório de Matos essencial, mas as impressões de pontos de vista distintos, sobre as coisas do mundo, inclusive sobre Gregório de Matos. Gregório de Matos é ao mesmo tempo cenário, personagem, interlocutor, assunto, espírito de um tempo, texto, contexto e motivação.

Há quem leia Gregório de Matos como coleciona figurinhas, para preencher um vazio em um mapa literário. Mas, cada vez mais, lê-se Gregório de Matos, embora se leia cada vez menos Gregório de Matos, para se colocar em campo no jogo Gregório de Matos, para modificar os próprios pontos de vista sobre o mundo em geral e sobre o mundo Gregório de Matos.

Essa reflexão me lembra da etimologia da palavra “estilo”. Estilo, raiz de “estilete”, era uma faquinha para escrever em tábuas enceradas, quando papel e tinta ainda não eram usados. O estudo do estilo, neste sentido, é o estudo das marcas pessoais, o modo particular como cada faquinha deixa marcas na tábua, a interação entre a faca e tábua, o autor e o mundo. Isso me ajuda a pensar a oposição entre o Gregório de Matos objeto e o Gregório de Matos como um elemento nas disputas de pontos de vista sobre as coisas, inclusive sobre o próprio Gregório de Matos – as diversas faquinhas duelando no espaço público.

O principal, vale dizer, é que o que vale para Gregório de Matos, vale para Fellini, Bukowski, gatos, redes sociais, vestibulares, dinheiro, política, amor, pulmões, abraços, pétalas, papeis coloridos, paredes, olhos e esgares, não no sentido em que as opiniões sobre as coisas são infinitamente relativas, mas no sentido de que os significados e os valores das coisas estão em disputa e em transformação.