O proletariado da caneta

por Tony Monti

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Na bandeira do Partido dos Trabalhadores da Coreia, dentro da simbologia socialista, chama a atenção o terceiro elemento entre a foice e o martelo. Trata-se de um pincel. Assim, além dos trabalhadores do campo e das indústrias, estão ali representados também os trabalhadores intelectuais.

No Brasil, o passado associado a uma elite aristocrática e escravista produziu o pensamento de desvalorizar o trabalho braçal. São presentes aqui e ali os sinais desse passado que divide os homens em duas categorias. As recorrentes piadas sobre o passado de metalúrgico do presidente Lula não estão distantes desse preconceito.

Uma boa quantidade do proletariado da caneta insiste em marcar sua diferença em relação aos demais, criando relações verticais e sectárias em vez de construir um princípio de igualdade. Pode-se ser garçom em Londres ou lavar pratos em Paris, é verdade. Vale notar que ir à Europa é um sinal de diferenciação.

Na universidade, por exemplo, o trabalhador intelectual ultraespecializado muitas vezes tem condições de trabalho ruins em seu cotidiano. Pode não lhe agradar acordar e ir à universidade para trabalhar e conviver. Às vezes trabalha em casa. Mas, em vez de se juntar à luta dos demais trabalhadores, é calado, por exemplo, com a possibilidade de ir à Europa uma vez por ano, para um congresso, onde pode tirar fotos e colher histórias. A gente vive de pequenos prêmios. E a gente esquece.

A ideia exótica que estou defendendo é que o proletário da caneta talvez tenha maneiras refinadas de esconder de si as relações verticais que estabelece e seu menosprezo pelo cotidiano, já que consegue benefícios, de maneira não-regular, seja por herança, pelos contatos sociais ou pelos prêmios que a vida oferece, para além do salário (que já é maior que a dos demais proletários).

Por seu lado, o proletário do martelo e da enxada só tem mesmo o cotidiano. Não tem alternativa a acordar, trabalhar e dormir, diariamente. Não vai à Europa para congresso ou para seis meses lavando pratos enquanto estuda francês e junta um dinheiro para o curso de fotografia, ou para o mestrado, que vai fazer em Paris. Isso, se tiver emprego.

Chato, para mim, é um piolho.

por Abilio Godoy

Parece que a moda veio mesmo para ficar. Já há algum tempo ressurgem com frequência, na mídia narcisopolitana, matérias em que escritores e críticos diagnosticam como um dos maiores problemas da literatura narcisolandesa contemporânea o fato de ela ser muito chata. A exemplo do escritor nacional mais vendido no exterior – que, dia desses, ousou brandir tão refinado predicativo contra a obra de James Joyce – aquela galera descolada (que inclui de fedelhos a velhinhos veteranos) acha que a função da literatura é mesmo a de cativar o público – e, sobretudo, os jurados dos prêmios literários – para, numa consequência discreta, quase acidental, encher os próprios bolsos de grana.

Essa populosa turminha hispter-pós-moderna gosta de frases de efeito e tiradas irreverentes. Dizem que a literatura morreu, que a arte morreu, que a história morreu como quem diz que prefere seu café sem açúcar, com aquela convicção blasée de que sua bem polida personalidade gourmet será admirada de imediato por seus interlocutores. Não desconfiam, contudo, que talvez o que esteja morrendo, não só no seu discurso, como por toda parte, seja qualquer objetividade da crítica. Talvez o que apodrece não seja a literatura, nem a arte, nem a história, mas a noção de que é preciso, ou pelo menos recomendável, que se analisem os conceitos, que se fundamentem as opiniões e que se discutam os valores antes de estampá-los em jornais que se parecem cada vez mais com páginas de Facebook.

Acontece que, como tantas chatas e tantos chatos tantas vezes nos disseram, não se admira o trabalho, coisa de escravo, aqui na Narcisolândia. Não, senhor; aqui vale antes o drible, o improviso, o repente, o trocadilho. Esforçar-se para que, hein, quando se tem genialidade e malemolência? Para que arar o solo na terra onde tudo dá? Quem é que precisa de erudição do lado de baixo do equador? O que nos interessa o que outras pessoas de outros lugares ou outras épocas discutem sobre a nossa condição humana? Não precisamos de nada disso. Literatura erudita, música erudita, cinema erudito, arte erudita? Tudo isso é muito chato. Divertido é tuitar na espera do restaurante chique, é passar horas na fila da exposição do programa infantil, é pagar vinte reais na pipoca que entope nossas veias enquanto a gente se aliena e realiza a fantasia adolescente de se imaginar com superpoderes.

Tutorial

por Abilio Godoy

Bem-vindo, asceta, ao nosso tutorial. Aqui você encontra as informações necessárias à sua iniciação. Sim, aceitamos fiéis provenientes de todos os credos. A nossa é uma religião da forma e não há incompatibilidade de conteúdos. Você pode ser católico, por exemplo, desde que a sólida tradição da sua Igreja encha você de um orgulho histórico que o remeta aos tempos de Leão, o grande. Por outro lado, se for evangélico ou muçulmano, sugerimos uma implacável cruzada de intolerância contra tudo que divergir das leis antigas. Ignore o que elas disserem sobre mulas e camelos – essa parte ficou obsoleta – mas considere todo o resto em perfeita sincronia com o mundo atual. Agora, se for espírita, você pode sorrir com condescendência desses dogmas menos evoluídos enquanto lê a cartinha de um parente defunto.

Também é possível ser ateu, desde que por isso você despreze o crente mais do que o credo, desde que você se considere um iluminado e o seu suposto ceticismo, no fim das contas, atire no próprio dedão do pé. São bem vindos os extremistas islâmicos, os hipsters umbandistas, os executivos budistas, os cínicos judeus e toda sorte de agnósticos acadêmicos. O essencial é que, no céu ou na terra, o segurança do seu paraíso só deixe entrar os seus trutas.

Ademais, nós da Igreja do Narcisismo Definitivo estamos abertos a qualquer procedência política. Você pode ser de esquerda ou de direita, neoliberal ou comunista, evangélico ou feminista, punk ou skinhead, fascista ou anarquista. O fundamental é que seja arrogante, autoritário e violento.

O nosso código de conduta é simples. Exige que você grite, mas não discuta: toda essa gente estúpida que discorda de você não merece os seus argumentos. A preguiça é o comportamento adequado, afinal você já atingiu o nirvana e repensar qualquer coisa a esta altura seria um desperdício imperdoável de energia. Em caso de dúvida, apresse-se em julgar e evite ponderações. Lembre-se de que o mundo sempre pode ser divido entre a verdade óbvia e a idiotia gritante, entre o aplauso e a vaia, enfim, entre tudo aquilo que é você e tudo aquilo que são os outros.

Não prometemos a felicidade, mas garantimos a segurança do isolamento. Sozinho, você reinará no seu feudo. E, pelas janelas virtuais do seu castelo, vencerá nas redes antissociais todas as disputas cotidianas de autoafirmação.

Facebook nas ruas

por Rodrigo Linhares

Saio de casa na manhã de sábado e, ao virar a esquina com a av. Brigadeiro Luis Antonio, dou de cara com um dos motivos de minha indisposição em relação a passeatas – todas elas.

Um deles, talvez o principal, é mesmo a impressão de que o acirramento dos ânimos, agora, no melhor dos casos, é apenas inútil. No pior deles, é um desserviço. Antes de exigir a guinada à esquerda, aquela que deveria acelerar, de uma vez por todas, o passo lento da melhoria dos índices sociais pelos governos lulistas, seria bom, talvez, que deixássemos de olhar apenas para o espelho. Quem sabe passar em revista nossas próprias fileiras? A quantas anda, hoje, o exército de Brancaleone? Tem ele alguma capacidade de ser propositivo – ou melhor, tem ele alguma capacidade de sustentar politicamente sua proposição?

Mas não foi isso o que me paralisou a caminhada. Ali, em um muro branco da av. Brigadeiro Luis Antonio, alguém havia escrito: Mate os homens.

O assunto exige todo o tipo de cuidado e uma introdução longa: reconheço a violência e o desconforto a que mulheres, cotidianamente, estão submetidas; reconheço o direito de uso político do espaço público por quem quer que seja – reconheço, inclusive, razões em atitudes mais ou menos selvagens que venham a aflorar em tais momentos.

Não me esqueço de que o principal problema, agora, é o do retrocesso no debate de como ampliar direitos, o retrocesso no debate a respeito de exclusões e violências historicamente impingidas.

Ainda assim, não há como não fazer o paralelo: muitas vezes, durante as passeatas pelo impedimento da presidente, argumentou-se que as mensagens que pediam a derrubada do atual governo através de um gesto militar não apenas não refletiam o espírito que reinava entre a maioria dos manifestantes (sarcástico, eventualmente agressivo, mas legalista) como também eram produzidas por sabotadores – ou ingênuos. De outro lado, entre os ativistas de esquerda (governistas ou não), era óbvio essa desculpa não colava, que essas mensagens apenas sintetizavam o que estava disperso naquela multidão. Eram declarações abertas daquilo que a maioria dos manifestantes considerava justo, ou necessário, mesmo que eles não tivessem a coragem de dizê-lo francamente.

E o que fazemos com isso, agora? Mate os homens.

Não faz muito tempo desde que nós saudamos a subida de tom nos debates como uma benéfica polarização. Como aquilo que faria engrossar nossas fileiras, aquilo do qual retiraríamos força para ordenar as ideias. Mas tornamo-nos, em grandes grupos, uma espécie de materialização do Facebook: emissores de opiniões que ficariam melhores se não fossem efetivamente opinadas. Concorrentes, uns contra os outros, na arte publicitária de produzir sensação. É como se estivéssemos, todos, atendendo a um único chamado: vamos, gente, vamos dar aquilo que temos de pior.

E me pergunto: quanto pior pode ainda ficar se todo mundo concorda, parece, que é piorando que se faz o caminho?

O algoritmo

por Abilio Godoy

Quatro meses solteiro, trinta e dois anos de solidão, reencontro destrutivo com a ex no fim de semana e me vejo, na segunda, encarando o questionário do aplicativo que uma amiga recomendou. Este programa é melhor que os outros, ela me disse, porque seleciona as pessoas com quem você tem mais afinidade. Veja bem, tento argumentar comigo mesmo enquanto me submeto à bateria de perguntas, você até poderia raspar o fundo da sua consciência à procura de alguma indignação contra esta preguiça de ir lá fora conversar, mas é segunda-feira e você não vai achar ninguém na rua. E, depois, quem tem paciência de esperar o médio prazo, hm? Quem tem tempo para encontros aleatórios que desmoronam de repente num comentário racista que chega a revoltar os seus leucócitos? Ok, então, computer, eu me rendo às linhas mecânicas do seu algoritmo. Procure você, para mim, o meu reflexo na superfície do lago. Encontre, na multidão de gente inadequada, a mulher das respostas certas, para dividir comigo a minha jaula e os meus antibióticos.

Celular, celular meu, existe por aí alguém assim perfeito que nem eu? Olha, majestade, 100% perfeito, hoje não vai estar tendo; mas essa daqui é 96% e parece bonitinha. Pois bem, meu querido Sancho ciborgue; vá dizer a ela que estamos satisfeitos com seu design e sua compatibilidade. Ela mandou dizer que também curtiu o senhor. Filho de Turing! Seus serviços são valiosos. De quantos jantares incômodos, de quantas buscas frustradas, você me poupou? Quanto tempo eu levaria para encontrar sozinho alguém tão conveniente? Numa dissonância de 4% não devem caber nem os sete erros do jogo.

À medida que trocamos mensagens, a garota e eu medimos o ajuste fino da nossa pressuposta sintonia, que vai resistindo sólida aos exames preliminares e provocando em mim algum encantamento… até que discordamos do primeiro adjetivo. Ela prefere a palavra clássica para se referir à musica de concerto, e eu me dou melhor com o termo erudita. Em poucos minutos, para a minha angústia, nos vemos num furioso arranca-rabo retórico em que ela me acusa de ignorância e esnobismo, enquanto me esforço para apontar no seu discurso uma certa apologia da indústria cultural. Não demora para estarmos tão irritados um com o outro que precisamos interromper o diálogo.

Lembro-me então de uma infinidade de discussões semelhantes que tive com amigas e amigos, ex-namoradas e ficantes, colegas de classe ou profissão. Tudo gente parecida comigo, que divide comigo visões de mundo muito próximas e convicções políticas semelhantes. Penso nas incontáveis ocasiões em que, em vez de unir forças para qualquer projeto oportuno de qualquer intervenção coerente, nós insistimos em esmiuçar nossas diferenças e nos entrincheirar em nossas vaidades por causa de um único grão de discórdia, de uma ligeira dissonância qualquer.

Deixo o celular de lado, triste, menos com o desfecho da anedota do que com a impressão crônica de que cada vez mais nos isolamos no nosso narcisismo galopante. Não, eu não tenho dúvida de que é melhor ser contestador do que conivente, de que se deve estar, sempre que possível, atento aos meandros duvidosos dos discursos; não quero de modo algum propor uma atitude café-com-leite para qualquer tipo de conversa e tenho, no pensamento crítico, a fé inamovível de um fanático. Mas, também me pergunto se, nesse esforço constante de criticar o mundo, às vezes não nos tornamos caricaturas da própria crítica; se nessa vontade de ser corretos não há certo prazer em ser melhor que o outro; se, ao exagerarmos na patrulha, não nos reduzimos também ao automatismo do algoritmo e nos limitamos a buscar, na fala alheia, os trechos que poderemos grifar em vermelho.

Três mentiras que me contaram

por Abilio Godoy

A maior mentira que já me contaram foi que a morte não é a morte. Não é o fim de tudo. Nossa alma vai para o céu, ou reencarna. A gente sabe porque está nos livros. A gente sabe porque, se não for assim, nossa vida não faz sentido. Mas, e se a vida não fizer mesmo sentido? E se esse ser mesquinho que sou eu não importar quase nada para o mundo? E se sentido e importar forem palavras que a gente inventa? E se for a gente que escreve os livros, para esquecer nossa pequenez e finitude? A Xuxa disse outro dia que queria ir para a Terra do Nunca para não ter que envelhecer. Ela também se baseou num livro.

A segunda maior mentira que me contaram é que no final dá tudo certo. Pode confiar, nada acontece por acaso. Se ainda não deu certo, é porque não chegou ao fim. Não se aflija, não pondere, não questione. Trabalhe, reze, ame, goze, que no fim há de dar certo. Mas, e se não der, como não dá para tanta gente? E se não houver justiça maior, divina ou metafísica, ponderando o destino de cada um? Será que todas as dez mil pessoas que sucumbiram no terremoto do Nepal mereciam morrer? Será que todas as 185 pessoas que a PM matou no estado só no primeiro trimestre mereciam morrer? E se justiça e merecer forem palavras que a gente inventa? E se a natureza for aleatória e a sociedade, enviesada? Será que todo mundo que segue as regras e se esforça consegue o que foi prometido? Se é no seu fim que as coisas dão certo, então ficam nas mãos da morte os bens que a gente deveria gozar em vida.

A terceira maior mentira que me contaram mora dentro da palavra amanhã. Amanhã a gente vê isso. Semana que vem damos um jeito. Depois eu passo aí. Qualquer dia a gente se encontra. Mas, e se amanhã for muito tarde? Será que o futuro existe além dos verbos? E se a morte for mesmo a morte e o acaso for soberano? Existe alguma garantia? E se a justiça depender da gente? Será que vai dar tempo? Vale esperar que no final alguém nos salve, que, num milagre, acabe dando tudo certo? Enquanto a gente espera, a sociedade continua enviesada, a natureza continua aleatória. E a felicidade com que a gente sonha fica nas mãos descarnadas do amanhã.

A incredulidade implacável dos dentistas

por Abilio Godoy

Eu ia chegar atrasado para a consulta. Por conta de problemas técnicos na linha verde, o trem estava parado havia vinte minutos na estação Brigadeiro. Não gosto de me atrasar, ainda que, neste caso, a culpa não fosse minha. O que me afligia mesmo era como convencer minha dentista da veracidade da desculpa. Sem dúvida pareceria muito conveniente uma pane no metrô quando eu me atrasava para um compromisso logo de manhã. Perdeu a hora, é?, seria a pergunta que ela me faria à queima-roupa; eu lhe relataria o problema e, desconfiada, ela fingiria por educação que acreditava. Apesar de inocente, eu não poderia fazer nada. O que se esquece sobre o Pinóquio é que também sabiam quando ele dizia a verdade.

Cada vez que encaro essa consciência aflitiva de que não acreditam numa verdade que digo, penso que muita coisa seria mais fácil se a gente não mentisse, ou, pelo menos, se a mentira não fosse tão banal em Narcisópolis. Sim, eu sei que pareço ingênuo, que nem sempre as fronteiras da verdade cabem numa linha, mas não me refiro a questões filosóficas. Estou falando de culpar o trânsito quando você perdeu a hora ou de mentir para o seu namorado sobre seu paradeiro na noite passada. Aí vão protestar que há mentiras e mentiras, mais ou menos graves e com boas ou más intenções. Não discordo, mas também não deixo de ver em todas elas uma opção questionável por driblar o que se reconhece dos fatos e, embora alguns argumentem que esse é um cimento social necessário, prefiro acreditar que existem escolhas e que podemos ter uma postura mais crítica em relação aos engodos que criamos.

Afinal, não fosse por eles e não haveria tanta desconfiança, tanta insegurança, tanto ciúme, tanto desapontamento. E nem tanta necessidade de juras e promessas; de contratos, declarações e atestados. Não faz muito tempo saí com uma menina que me provava tudo por multimídia. Mesmo eu dizendo que não precisava, ela compartilhava sua localização por GPS e me mandava capturas do chat com sua chefe, para assegurar a veracidade das suas desculpas. É que já não existe honra em Narcisópolis e, na falta de deuses que nos endossem, hoje juramos pelos nossos smartphones.

Foi pensando nisso que há uns dois anos decidi tentar um experimento social. Em nome do Spock, dos samurais e dos houyhnhnmns, quis ver se era possível enfrentar essa convenção narcisopolitana e tratei de eliminar toda mentira deliberada do meu discurso. Sabe aquela mentirinha branca que a gente conta para poupar alguém de uma verdade cruel, ou aquela distorcida que se dá nos fatos para aparar uma aresta constrangedora? Pois é, não posso. E, passado esse tempo, juro (embora muitas vezes já não precise) que sinto que não perdi quase nada com isso. Claro, fui chamado de radical quando um amigo me ligou para ver se eu encobriria sua pulada de cerca, e magoei um pouco minha ex-namorada quando ela me perguntou se eu achava a atriz do seriado mais bonita do que ela. Mas, aos poucos, tanto essa mesma ex-namorada como outras pessoas próximas passaram a gostar da brincadeira e as ações da minha palavra logo dispararam na bolsa.

Minha dentista, entretanto, não sabe do meu experimento e apresentá-lo naquela ocasião em que ele tanto me convinha poderia parecer ainda mais suspeito. É que uma promessa assim, individual, só pode dar conta do domínio privado. Para que a coisa funcionasse em público, o voto não poderia ser só meu; precisaria ser de todo mundo. Confesso que sonho com um dia em que seremos vulcanos, samurais ou houyhnhnms. Antes desse dia, porém, diante da incredulidade implacável dos dentistas, terei que sacar do bolso o celular com o vídeo que gravei com o anúncio da pane e jurar pelo meu smartphone.

Control Balt Delete [Tradução]

por Dave Pell

[Traduzido por Fabiana Jardim]

 Cinco reflexões sobre Baltimore organizadas em uma lista. Porque a última coisa que alguém precisa é outro artigo a respeito de Baltimore.

1) Eis algo que comumente se perde na narrativa geral: quando um bairro é esmagado por um ciclo interminável de violência e pobreza e falta de trabalho e escolas de desempenho baixo, as vítimas de fato são os moradores desses bairros. Quando professores e policiais e outros em quem precisamos confiar sentem-se esgotados e tomam atalhos, desistem ou se tornam maus, as vítimas de fato são os moradores que vivem nesses bairros. Quando jovens são mortos pela violência (de gangues, drogas, doméstica, policial), as vítimas de fato são os moradores desses bairros. Quando a mídia aparece, é ainda essa a verdade. E quando percepções públicas falsas são criadas, é ainda essa a verdade. E quando as vidas reais das pessoas e suas experiências cotidianas se transformam em teatro político, é ainda essa a verdade. E, siga-me ainda aqui, quando revoltas explodem nessas vizinhanças, as vítimas de fato são os moradores desses bairros. Percebe uma direção aqui? Acredite ou não, é uma direção muito frequentemente ignorada.

2) Eu dava aula no ensino médio [high school] em uma das cinco piores escolas no Brooklyn. Um pouco depois, escrevi uma dissertação de mestrado sobre o uso dos detectores de metal nas escolas. Retornei à minha antiga escola e apliquei uma enquete com estudantes, professores e pais sobre a segurança da escola. Aqui vai a resposta esmagadora que encontrei. Em primeiro lugar, toda criança na escola sabia que o detector de metal era falho e lhes oferecia pouca proteção. Os caminhões carregando a equipe e os equipamentos detectores de metal apareciam uma vez por semana, estacionavam bem em frente à escola e iam embora após o primeiro período [de aula]. Esta era a segurança extra que a escola conseguiu. Em segundo lugar, quase todas as crianças da escola ainda queriam o sistema funcionando. Eles sabiam que ele oferecia pouca segurança extra, mas o queriam ainda assim. Crianças vivendo em bairros violentos não querem menos polícia e menos proteção: elas querem mais de ambos.

3) Não simplifique demais o papel da polícia nessas situações. Devemos demandar justiça quando a polícia especificamente ou sistematicamente abusa das pessoas? Com certeza. Devemos agrupar todos os policiais e a profissão em geral nesse monte? Claro que não. Nós celebramos os caras quando eles correm para os edifícios de que todos estão fugindo. Eles têm um trabalho reconhecidamente duro pelo qual são selvagemente mal pagos. A sorte e os recursos tornam muitas de suas metas inalcançáveis. Sim, nós precisamos ser capazes de confiar neles, então quando eles quebram (ou destroem) esta confiança, justiça precisa ser feita. E sim, a polícia em nossos bairros mais violentos tem um trabalho difícil, ingrato e perigoso que com frequência falha em recompensar aqueles que exibem os melhores traços que poderíamos desejar. Ambas as coisas são verdadeiras. Isso é uma parte do que torna este um problema tão difícil de lidar e compreender.

4) Não ocorrem muitas prisões e condenações nos bairros pobres. Ocorrem poucas. A lista de assassinatos sem solução nos bairros difíceis é um fator chave que leva à desesperança, sentimentos de desimportância, e finalmente a mais “ausência de lei”. Se queremos de fato corresponder [ao significado da] frase Vidas negras importam, temos que identificar e punir aqueles que acabam com essas vidas. Para um panorama do tema e um olhar sobre as vítimas e policiais (bons e maus) em uma das áreas mais violentas, recomendo vividamente Ghettoside by Jill Leovy. Eis uma citação do livro: “Onde o sistema de justiça criminal falha em responder com vigor a ferimentos violentos e mortes, o homicídio se torna endêmico… O fracasso do sistema em capturar os assassinos efetivamente faz das vidas negras algo barato”.

5) Finalmente, um breve “causo” do passado, de quando eu ensinava literatura afro-americana naquele ensino médio no Brooklyn. Um dia, quando a turma discutia Native Son, de Richard Wright, tivemos uma estudante, vinda de Los Angeles, em visita. Durante a minha carreira de professor em Nova Iorque, essa foi a única vez em que eu não era a única pessoa branca na sala de aula. Havíamos chegado ao ponto, no romance, quando Bigger Thomas, a personagem central, havia cometido seu segundo assassinato e estava se escondendo da polícia num prédio de apartamentos, em Chicago. Comecei a aula com a seguinte questão: se você morasse no bairro em que Bigger Thomas estava se escondendo e você soubesse de sua localização, você contaria à polícia? A questão disparou um debate acalorado na sala de aula. Um terço dos estudantes disse que não entregaria Bigger Thomas para a polícia porque o sistema de justiça era muito enviesado e Bigger nunca teria um julgamento justo. Outro terço da sala explicou que se sentiriam obrigados a entrega-lo à polícia porque, independente das falhas do sistema de justiça, assassinato é moralmente errado. Os demais estudantes explicaram que eles também delatariam Bigger Thomas à polícia, mas por motivos mais concretos: eles não queriam ser as próximas vítimas. Uma pessoa violenta nas ruas simplesmente aumentava as chances de ser morto. Então perguntei aos alunos quantos deles haviam sido vítimas de um tiroteio ou conheciam alguém que fora assassinado. Todas as mãos da sala se levantaram. Ao final da aula, nossa visitante de Los Angeles se aproximou de minha mesa para me contar que sua turma avançada de inglês tinha acabado de ler a mesma novela. Ao longo das duas semanas que dedicaram ao livro, nem um único tópico que acabáramos de discutir apareceu. Ela disse que se eu perguntasse a mesma questão inicial para sua turma, todos os estudantes diriam que entregariam Bigger à polícia. Eles inclusive teriam pensado que a pergunta era uma piada. Todos esses acontecimentos – e a cobertura deles – podem ser percebidos de modo inteiramente diferente através de diferentes conjuntos de olhares. Esqueça [aquela história] de calçar o sapato dos outros por uma milha. Sequer enxergamos os mesmos significados nas palavras que lemos em uma página.

Original aqui.

Nota da tradutora: para quem quiser pensar as mesmas questões no contexto brasileiro, na Região Metropolitana de São Paulo – Jaime Amparo Alves. Necropolítica racial: a produção espacial da morte na cidade de São Paulo.

Junho de novo

por Rodrigo Linhares

Alguém já disse isso. No protesto do último dia 15, aqui em São Paulo, a empregada esteve junto com a patroa.

O ressentimento não está apenas entre os que percebem uma degradação relativa em suas condições materiais. Está também entre aqueles que, em movimento inverso, vindos de baixo, talvez já estejam topando com a cabeça no teto. Entre aqueles que se dão conta de que o ascenso efetivamente percorrido teve um fôlego muito mais curto do que aquilo que as expectativas antes prometiam. Entre os que descobriram que a TV de plasma é realmente legal, mas que esse item – o grande centro da vida familiar – acabou perdendo, com o tempo, a sua magia. Se rotinizou. Entre aqueles para quem o diploma de Administração de Empresas da faculdade de bairro, conseguido com esforço ascético e endividamento financeiro, não significou um salto para algo melhor que o atual emprego em telemarketing. Entre os que, guiando o carro recém-adquirido, decepcionam-se com a constatação de que os percursos não se tornaram assim tão mais agradáveis, já que quase todo mundo nas grandes cidades tem de passar pelos mesmos congestionamentos.

Umas pesquisas interessantes confirmaram que, na Avenida Paulista, no dia 15, os manifestantes eram mais ricos e mais brancos. Só que não é absurdo supor que, manejando um discurso fulminante de combate à corrupção (quem é que pode ser contra?), eles se irmanavam não apenas com os mais pobres e mais negros que, em menor número, também estavam ali, mas com a maioria silenciosa das periferias distantes que, pela TV, apenas acompanhava o protesto de casa.

Aprendemos, em junho de 2013, como é possível fazer com que uma única reivindicação se transforme em abrigo para todo tipo de desconforto. Agora é novamente o caso: uma “frente” anticorrupção que tem a capacidade de encaminhar, ao mesmo tempo, críticas vindas de diferentes perspectivas sem que, em algum momento, essas divergências tenham de se haver entre si. É uma multidão que está contra o ajuste, mas que, ao mesmo tempo, reclama da falta de velocidade e indecisão com que ele se realiza. Que está contra o corte de direitos trabalhistas, mas que também se queixa da alta do salário mínimo. Que denuncia o ritmo lento da diminuição das desigualdades, que exige mais recursos para o financiamento estudantil, mas que se enfurece com qualquer pequena concessão feita às custas de nossa rígida estrutura de privilégios.

Antes de se desfazer, vai causar estrago.

Ensaio de interpretação das motivações políticas da classe média

Por Daniel Pereira Andrade (professor de sociologia FGV-SP)

Quero fazer um exercício de interpretação da possível racionalidade estratégica que perpassa as atuais manifestações de ódio da classe média (ou ao menos de parte dela, especialmente, mas não exclusivamente, em São Paulo, como se pôde verificar na manifestação do dia 15 de março de 2015 e em outras amostras cotidianas que vêm ocorrendo ao menos desde as manifestações de junho de 2013 e quiçá antes). O fenômeno fundamental a ser compreendido é a conversão à direita dessa classe, já que ela não foi sempre majoritariamente adepta desse espectro político (para exemplificar, basta lembrar sua posição de centro-esquerda na redemocratização e também na primeira eleição de Lula). Antes de iniciar, apenas duas ressalvas. Primeiro, é importante lembrar que a classe média não é homogênea politicamente, sendo que ao menos 1/3 dela permanece alinhada com um projeto de esquerda, seja uma aspiração socialdemocrata, seja uma opção socialista mais radical. Segundo, que a compreensão dessas motivações como estratégia racional não implica uma concordância ou uma defesa da sua legitimidade (já adianto que a minha posição política é contrária).

Vamos lá:

1) A classe média possui alguns motivos concretos de queixa (ainda que as classes trabalhadoras possuam muitos mais). Três queixas, em especial: a) a precarização que cada vez mais atinge as profissões tradicionais de classe média. Exemplos são o aumento da competição em setores administrativos como resultado das modernas estratégias de gestão, a intensificação do trabalho sob a ameaça de demissão, o rebaixamento dos salários e benefícios e a conversão em pessoa jurídica de jornalistas, advogados, pessoal da saúde, etc.; b) o aumento do custo de vida, especialmente dos serviços, cujo consumo caracteriza a classe média e a distingue das classes trabalhadoras populares – a inflação média dos serviços está acima da média da inflação nos últimos anos; c) pagar duas vezes por serviços básicos, já que, além dos impostos para os serviços públicos, a classe média paga educação, saúde, segurança privadas. Combinando essas queixas, podemos dizer que, para manter o mesmo nível de vida, com acesso a serviços privados cada vez mais caros, a classe média precisa trabalhar cada vez mais em profissões cada vez mais precarizadas.

2) A decepção diante da opção petista e com a nova república. Após a redemocratização, a classe média se dividiu entre dois projetos: um neoliberal, representado por Collor e depois FHC, outro socialdemocrata, representado pelo PT. Depois da clara decepção com o neoliberalismo durante os anos de 1990, as fichas foram apostadas no PT como possibilidade de constituição de um Estado de Bem-Estar Social. Quando a classe média realizou que o PT não aumentou suficientemente os investimentos públicos, pois não rompeu com o compromisso neoliberal de manter os altos lucros do capital financeiro (lembrar da “carta ao povo brasileiro”), a decepção veio não apenas com o PT, mas com a república nova. Ficou claro que não havia alternativa política capaz de promover serviços públicos de qualidade, pois nem PT nem PSDB romperiam com interesses financeiros para investir em bem-estar social.

3) Mas, além disso, os programas de transferência de renda para os mais pobres, o aumento dos empregos formais até 2 salários mínimos e o aumento substancial do salário mínimo, que converteram boa parte dos subproletários em proletários e melhoraram as condições das classes trabalhadoras populares rebateu diretamente no bolso da classe média. Sobretudo o custo dos serviços não qualificados, braçais, dos quais a classe média se servia amplamente, subiram muito e os trabalhadores passaram a não topar qualquer tarefa pesada em troca de uma ninharia. A alta do salário mínimo em um emprego formal acarretou o aumento de custo do garçom, do lavador de prato, da faxineira, do segurança, do porteiro, da empregada doméstica, e, consequentemente, do restaurante, do condomínio, da escola particular, do plano de saúde, dos serviços domésticos etc. Enfim, a melhoria das classes trabalhadoras populares implicou aumento do custo de serviços para a classe consumidora de serviços por excelência, a classe média, reduzindo seu poder de compra.

4) O aumento da renda das classes trabalhadoras populares deu acesso a elas, ainda que de maneira desigual, a esferas de consumo e lazer que antes eram exclusivas da classe média. Tal fato promoveu não uma diluição dos signos de distinção social, mas uma tensão de convivência cotidiana entre classes com habitus diferentes, mas situadas agora em um mesmo espaço social e na mesma condição. Isso representava, além de um empobrecimento simbólico relativo, um aumento da tensão e de desprezo das classes médias em relação às populares.

5) Entrevendo no PT um partido que não apenas não melhorava os serviços públicos, mas ainda encarecia os serviços privados, especialmente os braçais, a classe média abandona o PT, mesmo reconhecendo que o partido havia tirado milhões de pessoas da miséria.

6) Diante do fato de que nem PSDB nem PT romperiam com o grande capital para viabilizar serviços públicos de qualidade, a classe média volta a adotar uma visão de mundo neoliberal. O raciocínio é simples: se tenho que pagar duas vezes pelos serviços essenciais (uma vez nos impostos públicos, outra vez nos privados), e já que nenhum partido vai oferecer serviços públicos de qualidade, então que paguemos apenas os serviços privados: que tudo seja privatizado.

7) A política neoliberal, em teoria, poderia acabar com as políticas de transferência de renda e programas sociais, sujeitando as classes trabalhadoras a uma condição ainda mais precária, abaixando assim o custo de seus serviços manuais e barateando os serviços privados. Não apenas a classe média não pagaria duas vezes pelos mesmos serviços, como ainda ela pagaria mais barato pelos serviços privados.

8) A posição política passa assim a oscilar entre adesão ao neoliberalismo mais extremo do PSDB e entre uma descrença total na política, confundindo crítica à política com crítica ao próprio Estado de bem-estar social.

9) A descrença na política se dá pois tanto PT como PSDB não foram capazes de melhorar a condição de vida das classes médias. O que, aliás, é um problema internacional, pois as classes médias dos países desenvolvidos, sob governos neoliberais de direita ou de esquerda, foram sendo continuamente precarizadas, com acesso pior a serviços públicos, a renda e a direitos sociais.

10) Diante da hegemonia do grande capital no neoliberalismo, antevendo essa hegemonia como politicamente insuperável ou se identificando com as classes mais abastadas como aspiração, o ódio da classe média se volta contra as classes trabalhadoras populares. Piorar suas condições de vida significa melhorar o acesso da classe média aos serviços. Além disso, elas são vistas como usurpadoras sem méritos do dinheiro de seus impostos. Não querendo pagar a conta do fim do crescimento econômico, a classe média quer impingir esta conta aos mais pobres, excluídos históricos da sociedade brasileira. Quer voltar a colocá-los no lugar “de onde nunca deveriam ter saído”. O conflito se desloca, portanto, da luta dos assalariados contra o capital para o conflito entre faixas de assalariados, ou entre classes gerenciais e liberais profissionais contra trabalhadores não ou pouco qualificados, especialmente trabalhadores braçais. Eis a razão do ódio instintivo de classe.

11) A truculência do combate, com a recusa de qualquer sentimento de solidariedade com os mais pobres e de qualquer argumento intelectual sobre as razões históricas da injustiça social, se explica pela colocação em competição das classes assalariadas (média x trabalhadora). Nesta situação, a classe média tende a direcionar toda a agressividade que vive cotidianamente nas situações de competição intensificada no trabalho, resultantes dos modernos métodos de gestão, contra as classes trabalhadoras ascendentes ou miseráveis. A competição, agora de classes, é encarada como uma luta darwiniana pela sobrevivência, não cabendo, nesse contexto, qualquer sentimento de piedade ou compaixão. Qualquer discurso de sensibilidade diante da injustiça social é execrado. Razões históricas da desigualdade não interessam. Intelectuais e professores que insistem sobre o assunto são tidos como inimigos e devem ser boicotados – no limite, são vistos como traidores de classe, comunistas irremíveis. O “panelaço” representa bem essa recusa à escuta. O que resta é apenas uma crua racionalidade econômica, que concebe o mundo como uma luta de todos contra todos no livre mercado e que pressupõe a-criticamente (de modo deliberado?) uma igualdade de condições, especialmente de disposições subjetivas, no ponto de partida da competição. Todas as relações humanas, inclusive a concepção de justiça, reduzem-se assim a frios cálculos de custo-benefício, investimento e retorno, na qual todos os demais valores humanos são descartados, esvaziando a discussão política de que fins devem guiar a sociedade. O resultado é a truculência de um combate onde o que está em jogo é mais do que uma vitória, é a sobrevivência.

12) Por fim, o ódio é canalizado contra o PT, que aglutina uma série de simbolismos. O PT é o partido cujos principais representantes, os presidentes eleitos, carregam a marca de classe (o analfabetismo de Lula, a falta de fluência na linguagem de Dilma), é visto como o partido que interfere de maneira indevida na competição ao tirar da classe média para dar aos pobres, que rompe com a “meritocracia” com sua política social, e que por isso é corrupto tanto na cobrança de impostos tidos como indevidos, quanto no seu mau emprego, além, claro, dos escândalos midiáticos. O PT encarna, assim, o grande inimigo, que quer colocar nas costas das classes médias (especialmente de São Paulo ou do sul) o peso de carregar economicamente o país.