O proletariado da caneta

por Tony Monti

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Na bandeira do Partido dos Trabalhadores da Coreia, dentro da simbologia socialista, chama a atenção o terceiro elemento entre a foice e o martelo. Trata-se de um pincel. Assim, além dos trabalhadores do campo e das indústrias, estão ali representados também os trabalhadores intelectuais.

No Brasil, o passado associado a uma elite aristocrática e escravista produziu o pensamento de desvalorizar o trabalho braçal. São presentes aqui e ali os sinais desse passado que divide os homens em duas categorias. As recorrentes piadas sobre o passado de metalúrgico do presidente Lula não estão distantes desse preconceito.

Uma boa quantidade do proletariado da caneta insiste em marcar sua diferença em relação aos demais, criando relações verticais e sectárias em vez de construir um princípio de igualdade. Pode-se ser garçom em Londres ou lavar pratos em Paris, é verdade. Vale notar que ir à Europa é um sinal de diferenciação.

Na universidade, por exemplo, o trabalhador intelectual ultraespecializado muitas vezes tem condições de trabalho ruins em seu cotidiano. Pode não lhe agradar acordar e ir à universidade para trabalhar e conviver. Às vezes trabalha em casa. Mas, em vez de se juntar à luta dos demais trabalhadores, é calado, por exemplo, com a possibilidade de ir à Europa uma vez por ano, para um congresso, onde pode tirar fotos e colher histórias. A gente vive de pequenos prêmios. E a gente esquece.

A ideia exótica que estou defendendo é que o proletário da caneta talvez tenha maneiras refinadas de esconder de si as relações verticais que estabelece e seu menosprezo pelo cotidiano, já que consegue benefícios, de maneira não-regular, seja por herança, pelos contatos sociais ou pelos prêmios que a vida oferece, para além do salário (que já é maior que a dos demais proletários).

Por seu lado, o proletário do martelo e da enxada só tem mesmo o cotidiano. Não tem alternativa a acordar, trabalhar e dormir, diariamente. Não vai à Europa para congresso ou para seis meses lavando pratos enquanto estuda francês e junta um dinheiro para o curso de fotografia, ou para o mestrado, que vai fazer em Paris. Isso, se tiver emprego.

Panelaço − o paradoxo dos silenciosos

por Tony Monti

Amanhã, terça-feira, o PSDB vai à TV discorrer sobre crises econômicas, éticas e políticas, focalizando o governo federal e o PT, sem jogar nenhuma suspeita sobre questões estruturais do país nem sobre os governos de outros partidos. Quando, há algumas semanas, era o PT na televisão, o PSDB chamou um panelaço: fazer barulho sobre uma causa simples, contra algo, velando, com o barulho feito sobre a energia dos eufóricos e desejosos, interesses e favorecimentos político-eleitorais.

Se, amanhã, alguém, algum grupo, quiser fazer uma queixa mais silenciosa, mais política e mais complexa, possivelmente não baterá panelas. O impasse não é novo. Para se fazer escutado, para causar repercussão em maior escala, é preciso simplificar o discurso e fazer barulho. Como se faz isso quando o que se quer é justamente tornar a discussão mais ponderada e complexa?

Se, amanhã, alguém, algum grupo, fizer um panelaço durante o programa eleitoral do PSDB, qual a chance de a mensagem transmitida ser a de que é possível fazer uma crítica ao governo federal, mais política, menos ruidosa, à esquerda? A pauta está dada. Infelizmente a polarização PT x PSDB toma o lugar da discussão sobre as estruturas, as reformas, a política. É difícil estabelecer agora uma alternativa à esquerda que não seja, ou pareça aos olhos de muitos, uma adesão ao PT. Mas é preciso.

Ensaio de interpretação das motivações políticas da classe média

Por Daniel Pereira Andrade (professor de sociologia FGV-SP)

Quero fazer um exercício de interpretação da possível racionalidade estratégica que perpassa as atuais manifestações de ódio da classe média (ou ao menos de parte dela, especialmente, mas não exclusivamente, em São Paulo, como se pôde verificar na manifestação do dia 15 de março de 2015 e em outras amostras cotidianas que vêm ocorrendo ao menos desde as manifestações de junho de 2013 e quiçá antes). O fenômeno fundamental a ser compreendido é a conversão à direita dessa classe, já que ela não foi sempre majoritariamente adepta desse espectro político (para exemplificar, basta lembrar sua posição de centro-esquerda na redemocratização e também na primeira eleição de Lula). Antes de iniciar, apenas duas ressalvas. Primeiro, é importante lembrar que a classe média não é homogênea politicamente, sendo que ao menos 1/3 dela permanece alinhada com um projeto de esquerda, seja uma aspiração socialdemocrata, seja uma opção socialista mais radical. Segundo, que a compreensão dessas motivações como estratégia racional não implica uma concordância ou uma defesa da sua legitimidade (já adianto que a minha posição política é contrária).

Vamos lá:

1) A classe média possui alguns motivos concretos de queixa (ainda que as classes trabalhadoras possuam muitos mais). Três queixas, em especial: a) a precarização que cada vez mais atinge as profissões tradicionais de classe média. Exemplos são o aumento da competição em setores administrativos como resultado das modernas estratégias de gestão, a intensificação do trabalho sob a ameaça de demissão, o rebaixamento dos salários e benefícios e a conversão em pessoa jurídica de jornalistas, advogados, pessoal da saúde, etc.; b) o aumento do custo de vida, especialmente dos serviços, cujo consumo caracteriza a classe média e a distingue das classes trabalhadoras populares – a inflação média dos serviços está acima da média da inflação nos últimos anos; c) pagar duas vezes por serviços básicos, já que, além dos impostos para os serviços públicos, a classe média paga educação, saúde, segurança privadas. Combinando essas queixas, podemos dizer que, para manter o mesmo nível de vida, com acesso a serviços privados cada vez mais caros, a classe média precisa trabalhar cada vez mais em profissões cada vez mais precarizadas.

2) A decepção diante da opção petista e com a nova república. Após a redemocratização, a classe média se dividiu entre dois projetos: um neoliberal, representado por Collor e depois FHC, outro socialdemocrata, representado pelo PT. Depois da clara decepção com o neoliberalismo durante os anos de 1990, as fichas foram apostadas no PT como possibilidade de constituição de um Estado de Bem-Estar Social. Quando a classe média realizou que o PT não aumentou suficientemente os investimentos públicos, pois não rompeu com o compromisso neoliberal de manter os altos lucros do capital financeiro (lembrar da “carta ao povo brasileiro”), a decepção veio não apenas com o PT, mas com a república nova. Ficou claro que não havia alternativa política capaz de promover serviços públicos de qualidade, pois nem PT nem PSDB romperiam com interesses financeiros para investir em bem-estar social.

3) Mas, além disso, os programas de transferência de renda para os mais pobres, o aumento dos empregos formais até 2 salários mínimos e o aumento substancial do salário mínimo, que converteram boa parte dos subproletários em proletários e melhoraram as condições das classes trabalhadoras populares rebateu diretamente no bolso da classe média. Sobretudo o custo dos serviços não qualificados, braçais, dos quais a classe média se servia amplamente, subiram muito e os trabalhadores passaram a não topar qualquer tarefa pesada em troca de uma ninharia. A alta do salário mínimo em um emprego formal acarretou o aumento de custo do garçom, do lavador de prato, da faxineira, do segurança, do porteiro, da empregada doméstica, e, consequentemente, do restaurante, do condomínio, da escola particular, do plano de saúde, dos serviços domésticos etc. Enfim, a melhoria das classes trabalhadoras populares implicou aumento do custo de serviços para a classe consumidora de serviços por excelência, a classe média, reduzindo seu poder de compra.

4) O aumento da renda das classes trabalhadoras populares deu acesso a elas, ainda que de maneira desigual, a esferas de consumo e lazer que antes eram exclusivas da classe média. Tal fato promoveu não uma diluição dos signos de distinção social, mas uma tensão de convivência cotidiana entre classes com habitus diferentes, mas situadas agora em um mesmo espaço social e na mesma condição. Isso representava, além de um empobrecimento simbólico relativo, um aumento da tensão e de desprezo das classes médias em relação às populares.

5) Entrevendo no PT um partido que não apenas não melhorava os serviços públicos, mas ainda encarecia os serviços privados, especialmente os braçais, a classe média abandona o PT, mesmo reconhecendo que o partido havia tirado milhões de pessoas da miséria.

6) Diante do fato de que nem PSDB nem PT romperiam com o grande capital para viabilizar serviços públicos de qualidade, a classe média volta a adotar uma visão de mundo neoliberal. O raciocínio é simples: se tenho que pagar duas vezes pelos serviços essenciais (uma vez nos impostos públicos, outra vez nos privados), e já que nenhum partido vai oferecer serviços públicos de qualidade, então que paguemos apenas os serviços privados: que tudo seja privatizado.

7) A política neoliberal, em teoria, poderia acabar com as políticas de transferência de renda e programas sociais, sujeitando as classes trabalhadoras a uma condição ainda mais precária, abaixando assim o custo de seus serviços manuais e barateando os serviços privados. Não apenas a classe média não pagaria duas vezes pelos mesmos serviços, como ainda ela pagaria mais barato pelos serviços privados.

8) A posição política passa assim a oscilar entre adesão ao neoliberalismo mais extremo do PSDB e entre uma descrença total na política, confundindo crítica à política com crítica ao próprio Estado de bem-estar social.

9) A descrença na política se dá pois tanto PT como PSDB não foram capazes de melhorar a condição de vida das classes médias. O que, aliás, é um problema internacional, pois as classes médias dos países desenvolvidos, sob governos neoliberais de direita ou de esquerda, foram sendo continuamente precarizadas, com acesso pior a serviços públicos, a renda e a direitos sociais.

10) Diante da hegemonia do grande capital no neoliberalismo, antevendo essa hegemonia como politicamente insuperável ou se identificando com as classes mais abastadas como aspiração, o ódio da classe média se volta contra as classes trabalhadoras populares. Piorar suas condições de vida significa melhorar o acesso da classe média aos serviços. Além disso, elas são vistas como usurpadoras sem méritos do dinheiro de seus impostos. Não querendo pagar a conta do fim do crescimento econômico, a classe média quer impingir esta conta aos mais pobres, excluídos históricos da sociedade brasileira. Quer voltar a colocá-los no lugar “de onde nunca deveriam ter saído”. O conflito se desloca, portanto, da luta dos assalariados contra o capital para o conflito entre faixas de assalariados, ou entre classes gerenciais e liberais profissionais contra trabalhadores não ou pouco qualificados, especialmente trabalhadores braçais. Eis a razão do ódio instintivo de classe.

11) A truculência do combate, com a recusa de qualquer sentimento de solidariedade com os mais pobres e de qualquer argumento intelectual sobre as razões históricas da injustiça social, se explica pela colocação em competição das classes assalariadas (média x trabalhadora). Nesta situação, a classe média tende a direcionar toda a agressividade que vive cotidianamente nas situações de competição intensificada no trabalho, resultantes dos modernos métodos de gestão, contra as classes trabalhadoras ascendentes ou miseráveis. A competição, agora de classes, é encarada como uma luta darwiniana pela sobrevivência, não cabendo, nesse contexto, qualquer sentimento de piedade ou compaixão. Qualquer discurso de sensibilidade diante da injustiça social é execrado. Razões históricas da desigualdade não interessam. Intelectuais e professores que insistem sobre o assunto são tidos como inimigos e devem ser boicotados – no limite, são vistos como traidores de classe, comunistas irremíveis. O “panelaço” representa bem essa recusa à escuta. O que resta é apenas uma crua racionalidade econômica, que concebe o mundo como uma luta de todos contra todos no livre mercado e que pressupõe a-criticamente (de modo deliberado?) uma igualdade de condições, especialmente de disposições subjetivas, no ponto de partida da competição. Todas as relações humanas, inclusive a concepção de justiça, reduzem-se assim a frios cálculos de custo-benefício, investimento e retorno, na qual todos os demais valores humanos são descartados, esvaziando a discussão política de que fins devem guiar a sociedade. O resultado é a truculência de um combate onde o que está em jogo é mais do que uma vitória, é a sobrevivência.

12) Por fim, o ódio é canalizado contra o PT, que aglutina uma série de simbolismos. O PT é o partido cujos principais representantes, os presidentes eleitos, carregam a marca de classe (o analfabetismo de Lula, a falta de fluência na linguagem de Dilma), é visto como o partido que interfere de maneira indevida na competição ao tirar da classe média para dar aos pobres, que rompe com a “meritocracia” com sua política social, e que por isso é corrupto tanto na cobrança de impostos tidos como indevidos, quanto no seu mau emprego, além, claro, dos escândalos midiáticos. O PT encarna, assim, o grande inimigo, que quer colocar nas costas das classes médias (especialmente de São Paulo ou do sul) o peso de carregar economicamente o país.

lembrar o passado, resistir às demandas do presente, elaborar o luto

Por Fabiana Jardim

Sábado passado fomos ao Memorial da Resistência. Fomos, eu e uma colega da FEUSP, com nossas turmas de alunos da Pedagogia. Nos encontramos no metrô e fomos caminhando até o Memorial, que fica no antigo prédio do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops). Caminhar no centro de São Paulo por si só já nos remete às promessas da urbanização de liberdade e riqueza, já que o espaço ainda se encontra carregado da monumentalidade que dava corpo a tais promessas: uma brisa da concepção de cidade, liberdade e progresso ainda corre por ali, na beleza de ferro da estação da Luz, na boniteza do Parque, no estilo de alguns prédios… Nesse sentido (conforme aprendemos com as ótimas educadoras que nos monitoraram durante a visita), o prédio do Deops que  foi originalmente concebido como um armazém de café, ali às portas do trem, representa de forma também bastante concreta o bloqueio às referidas promessas: a manutenção da ordem política e social, num país com dois longos períodos autoritários, passa pela vigilância, repressão, tortura e morte de contingentes da população pensados e tratados como ameaça interna. O armazém convertido em repartição e prisão.

A nossa turma começou numa das salas em que é possível ouvir depoimentos de sobreviventes da ditadura civil-militar. É tocante e doloroso. Para mim, porém, não foi o momento de maior intensidade emocional: eles sobreviveram, afinal, o que significa mais do que preservar a própria vida – podem eles mesmos narrar e nos ajudar a conferir sentido ao passado de que estivemos (as gerações seguintes) ausentes. Como tenho lido muitos relatos de outros episódios de violência estatal, motivados mais por razões étnicas, me chamou a atenção a especificidade das violências estatais por motivos políticos, na medida em que o significado é completamente distinto e a solidariedade aparece como algo esperado e, muitas vezes, experimentado: um dos depoentes afirma “quem não é vocacionado para a felicidade não se torna militante”. E, com isso, faz vazar no presente esse desejo de uma vida outra, desejo tão potente que implica em arriscar tudo em favor de uma vida que mereça ser vivida.

A sala que em mim doeu mais foi aquela em homenagem aos mortos e desaparecidos. Da leitura de K. – Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski, e de Poder e Desaparecimento, da Pilar Calveiro, fica clara a importância do desaparecimento como tática de terror: a impossibilidade de sepultar os mortos, de ao mesmo tempo ritualizar o fim e iniciar o trabalho do luto; a expressão da feroz vontade de aniquilar o outro para além de seu corpo. Esta semana lia Judith Butler: a desumanização do Outro que torna possível tirar-lhe a vida em nome da defesa (de valores, de um coletivo nacional) do Um, acaba por complicar o reconhecimento do fim dessa(s) vida(s), postergando indefinidamente o luto. Em outras palavras: ficamos presos ao ciclo de violências por não nos permitirmos elaborar tal luto: há vidas que merecem ser vividas e choradas e há outras que não. Simples assim. Querer chorar a vida do Outro significa se identificar com ele, e isso é insuportável quando ele é tão Outro que nem chega mesmo a ser humano. Quem há de ousar levantar a voz em nome da possibilidade de chorá-lo?

Lembrei-me da fala de uma das depoentes de “Que bom te ver viva” (documentário de Lúcia Murat, de 1989): após a anistia, a pena se extingue, mas não a pecha de “terrorista” e “subversiva”. Alguns sobrevivem fisicamente, mas precisarão de muitas forças para continuar existindo socialmente. Lembrei-me também das manchetes desta semana, que davam notícia de que a França não sabia o que fazer com os corpos dos três terroristas mortos – essa própria perplexidade já indicadora da liminaridade de suas vidas e suas mortes nos interior do que definimos como humano. Felizmente – pois creio que o gesto é politicamente acertado – eles estão sendo enterrados em suas localidades de origem. Discretamente, sem alarde, devolvidos à privacidade das famílias e comunidades nas quais tinham nome próprio e não eram História. Para preservá-los dos riscos do ódio e da heroicização, em ao menos um dos casos se decidiu pelo anonimato. Mas ainda assim é simbolicamente muito importante que eles possam ter sido sepultados.

A pergunta feita pela Judith Butler é fundamental: qual o lugar do luto em nossa cultura política? Me parece que os lugares de memória, em que pela mediação do espaço podemos nos dar conta de compartilhar algo com o passado, podemos escutar a atualidade desse passado e somos incitados a procurar no presente seus ecos e suas marcas, são fundamentais na medida em que permitem nos apropriarmos de uma história comum. À diferença de outras formas de transmissão, os lugares de memória nos convocam de modo ainda mais intenso a assumirmos um lugar específico, que é o da testemunha – conforme sugerido por Jeanne-Marie Gagnebin: “Nesse sentido, uma ampliação do conceito de testemunha se torna necessária; testemunha não seria somente aquele que viu com seus próprios olhos, o histor de Heródoto, a testemunha direta. Testemunha também seria aquele que não vai embora, que consegue ouvir a narração insuportável do outro e que aceita que suas palavras levem adiante, como num revezamento, a história do outro: não por culpabilidade ou por  compaixão, mas porque somente a transmissão simbólica, assumida apesar e por causa do sofrimento indizível, somente essa retomada reflexiva do passado pode nos ajudar a não repeti-lo infinitamente, mas a ousar esboçar outra história, a inventar o presente” (Lembrar, escrever, esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006: p.57. Destaques meus).

Um palpite sobre internet e política

por Tony Monti

Escutei nas últimas semanas mais de uma pessoa argumentar que, graças às novas tecnologias. a Dilma, e não o Aécio, se elegeu. O argumento se baseia na ideia de que, não fosse a liberdade da internet (que teria possibilitado a existência de meios alternativos de informação), Globo, Veja e jornais afins teriam pautado as eleições em um discurso unívoco. Pode ser verdade. Ao que parece, o uso que se fez da internet teve mesmo papel significativo no resultado das eleições.

Não vejo, no entanto, motivo para supor que a internet favoreça determinado discurso, determinadas ideias ou ideologias. Nem mesmo me parece que a internet é mais livre. Usuários do Facebook e do Google têm seus dados vasculhados sem parar, seus hábitos mapeados para que, ao consumirem, reproduzam as ordens sociais do interesse destes grandes conglomerados. Antes, a GM e a Philips, agora o Google e o Facebook. Um pequeno deslocamento do capital, sem visíveis alterações nos índices de desigualdade entre as pessoas.

A existência da internet não torna o mundo mais livre, nem menos, do que o mundo de antes. Ou mais, mas também menos. A internet é agora parte do chão em que pisamos, do solo histórico, do horizonte de possibilidades para as transformações. Ignorar a internet e as redes sociais é ignorar uma parte grande do momento presente, é jogar sem conhecer as regras. Mas não vejo na internet uma via melhor do que as vias anteriores, em outros momentos da história. Ela é inevitável, incontornável, mas não joga necessariamente do nosso lado.

Vencemos

por Tony Monti

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[às vezes de longe, às vezes de perto, pode parecer que a gente é mais vermelho]

Escrevo com alguns dias de antecedência, antes de as hipóteses se enraizarem na história. Adianto a reflexão da vitória. Sei o que comemoramos. Entre as opções postas, venceu aquela que escolhe o ser humano antes dos números da economia. Não quero chamar injustamente os números de “frios”. O Estado e a administração pública tratam de coisas enormes, e nem sempre o caminho que aposta no desejo quente é o que produz os resultados esperados. O Estado não é a expressão dos desejos da maioria. Desejos podem ser perversos, individualistas, violentos. Talvez as vontades, algo mais subordinável a uma razão. A política, me parece, é justamente a possibilidade concreta, de fundo abstrato, de lidar com os afetos para grupos grandes, quando a autoridade do pai ou as simplicidades da Lei da casa já não dão conta de alimentar a todos os que dividem o pão à mesa.

Ao mesmo tempo, quando foge do tamanho humano, dos afetos pulsantes nas curvas de cada corpo, o Estado, abstrato a princípio, pode ser pouco. A frieza do Estado depende da confiança e do aquecimento dos afetos dos indivíduos.

Vencemos, 2% de diferença. Isso significa que metade da população não entende o que para nós parece óbvio.

Mas o principal, “vencemos” inclui uma pregunta difícil de responder – que somos nós? O eleitor da Dilma que votou Skaf? O eleitor da Dilma que não anulou o voto por nojo do 45? O eleitor da Dilma que se beneficiou com o Bolsa Família? O eleitor da Dilma que votaria Aécio se ele não tivesse sido arrogante naquele momento específico? Nós vamos comemorar como clubes de futebol, como uma maioria inespecífica preenchida de imensas diferenças?

Nós não somos iguais. A democracia eleitoral é uma forma de igualar os diferentes, o que é bonito, porque constrói um identidade fraternal, naquilo que, para grupos enormes como países, não pode ser mais uma família. “Nós” é essa identidade forjada em pedra dura à base de democracia eleitoral.

No mais, que Reforma Política, que Reforma Tributária, que transformação na educação básica são possíveis? Ganhamos? Sinto falta de um discurso mais entortadinho à esquerda, de menos gerência e de mais vontade (para não me render e dizer “desejo”, o específico humano que não se resume à contabilidade).

Perdemos

tuKano
por Tony Monti

Escrevo com alguns dias de antecedência, antes de as hipóteses se enraizarem na história. Adianto a reflexão da derrota, para não cair depois na esparrela de apenas comemorar a mediocridade. Perdemos. Tenho dificuldade de escrever o nome do presidente.

Perdemos por 2% de diferença, o que quer dizer que 49% estão conosco. Mentira. Nas eleições estaduais, as primeiras pesquisas indicavam que a soma dos partidos da esquerda (incluindo o PT) não chegava a 5% dos votos. Não somos politicamente, neste sentido, mais do que 5%.

Em São Paulo, como disse o Tiago Novaes, ao sair na rua, saiba que 80% das pessoas que você encontrar terão votado Alckmin ou Skaf. Os motoristas de táxi, os atendentes na padaria, o garçom que serve sua cerveja gelada, sua professora de gafieira, os skatistas da praça, os ornitólogos e os fetichistas da tabacaria. Descontam-se ainda neste cenário os Russomanos, Tiriricas, Felicianos e a bancada da bala.

Perdemos, na eleição federal, uma pequena inclinação dos rumos do mundo, porque havia algo ali no governo m PT ainda daquela vontade de igualdade que move os nossos. Mas perdemos.

A verdade, no entanto, é que já estiávamos perdendo há algum tempo, ao não encarar e bancar grandes transformações como a reforma política e a reforma tributária.

Já estávamos perdendo quando em junho de 2013 mostrou um Brasil violento e conservador. Que surpresa?

Essa campanha eleitoral começou com junho de 2013, como assunto, porque essas coisas grandiosas, as catedrais e os viadutos, nos agarram o espírito. Mas tudo no fim se resumiu a “vontade de mudança”, que paradoxalmente veio a ser “muda mais”, com a situação, e “manutenção dos avanços sociais”, com a oposição. Mudança nenhuma. Menos que isso. Mudança de mentira. Conservação.

O pobre ganha um dinheiro e fica com raiva do governo que o ajudou, por não o ajudar mais, por não cumprir a promessa do capital, de recompensar os desejos de todos. Algo errado aí. Confundiu a oferta e a promessa.

Nos últimos debates, os candidatos falavam de números, acusavam-se e tentavam garantir a paternidade do que, supostamente, foram nossos dividendos recentes. Eles, Aécio e Dilma, se igualam em muito, dois gerentes de clubes de futebol.

Eleição não é política, ou é muito pouco, eleição é propaganda, mercado. O eleitor quer uma mudança de mentira, cada um que ofereça uma.

Perdemos. Deu Aécio. Mas não foi só isso. Preferiria ter escutado de alguém uma proposta concreta para a reforma política ou para a educação. Ou, pelo menos, que nos debates houvesse seres humanos, como foram a Luciana Genro, coerente e incisiva, e o Eduardo Jorge, carisma puro, socialista num partido de conservadores. O modelo esgotou-se mesmo, e não é reclamação de perdedor, acho. Deu Aécio. Que desse Luciana Genro. Votei Dilma com alguma convicção, mas entendo os amigos que costumavam anular o voto e que, dessa vez, votaram 13 por nojo do 45. Perdemos. Temos perdido há algum tempo. Temos ganhado há algum tempo. Tem gente que é acostumado a ser minoria.

Três coisas que não existem: Piauí, africano e faxineiro

por Tony Monti

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O Piauí não existe, a gente costumava dizer, e não sem alguma razão. Há outros lugares que não existem, assim como são invisíveis os rostos dos funcionários da faxina. A África é um continente inteiro esquecido. Há décadas, a Aids é uma epidemia. O Ebola é a novidade perigosa da vez. Os telejornais falam da infecção de um americano como se ele estivesse em quarentena por ter ido a Marte (um lugar desabitado, suponho), não à África.

De volta ao Piauí, me desconforta quem cinicamente chama de esmola os programas assistenciais federais. Eles deveriam ser maiores, não?, para os caras terem banda larga, não?, para os caras terem cinema e livros, não?, para que o Piauí exista. Ou então que se declare abertamente, como fez o candidato Fidelix na TV, que somos nós contra eles (ou eles contra nós), em clara manifestação de desacordo com qualquer suposta fraternidade humana.

Entendo, embora discorde, o argumento liberal de que a livre iniciativa produzirá a igualdade. Há sinais de que não é assim. Este best seller do francês Piketty parece nos dar argumentos numéricos, como gostam os humanistas contabilistas. Mas, abertamente, tratar o cidadão americano possivelmente infectado com o Ebola de modo tão especial, em relação aos milhares de mortos na África, é perverso, mesmo para o contabilismo mais ortodoxo.

Do mesmo modo, dizer que os 70 reais do Bolsa Família produzem preguiça é desumano. Tenho vergonha e medo desse egoísmo. Entendo o desacordo entre os que se agarram na liberdade e acham que a igualdade talvez venha depois, contra os que se apegam à igualdade, que gradualmente produziria a liberdade possível. Isso é política, isso me parece uma discussão quase honesta. Mas há uma parcela dos que dão opinião na rua, na tv e na internet que ignora a fraternidade (humana), o conceito que cimenta as diferenças.

Perdão, deus, se te pareço religioso.

Enquanto a eleição não acaba, a água (do discurso) não acaba, e enquanto um americano não é infectado, os trajes dos médicos africanos a tratar do Ebola são ficção científica para alimentar algum plano obsceno de imposição de força, pela Nasa, no espaço, ou pelo American Army no Oriente Médio.

Considerações retórico-metafísicas sobre a política na prática

por Tony Monti

Eu sou Dilma. Acho grosseiro votar Aécio. Considero grosseiros os motivos da maioria dos que votam nulo. Não todos. Eu votaria em outra pessoa, se outras opções houvesse.

“Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é a tentativa de colonização do outro”. A reflexão do Saramago me leva a pensar nos inúmeros temas sobre os quais falamos, falamos, sem sairmos do lugar. Alguns destes temas estão fincados em crenças profundas e firmes, que nem sequer sentem, que não se movem, a despeito dos ânimos envolvidos na superfície dos diálogos. Parte dos nossos modos de pensar, senão tudo, está baseada em repetições involuntárias de procedimentos de ação ou de fala. Não mudamos de opinião facilmente sobre as profundezas. Podemos escovar os dentes, usar fio dental, mas o grosso da civilização ou de nossa desumanidade só muda (é extraída) com boticão, sangue e mucosas expostas.

Estou sendo simbólico, percebe? Ou será que estou falando de sangue mesmo? Sigamos o caminho do discurso e dos preconceitos. Não é incomum que, depois de muita conversa, eu chegue à conclusão de que meu interlocutor fala outro idioma. E de fato fala. Se não nos entendemos é porque ele enraíza as palavras, que na superfície são as mesmas, em outras convicções. Tenho um prazer estético, embora um desprazer pragmático, quando uma pessoa conclui, por absurdo, o contrário do que o que seus argumentos, na minha opinião, dizem. Prazer com o absurdo. Desprazer com as conclusões.

A comunicação é algo muito delicado. As palavras são tábuas soltas em mar revolto, ancoradas sabe-se lá onde, ligadas umas nas outras por fios inauditos. Freud descreve como ato falho aquela revelação involuntária de uma crença ou uma vontade. Tenho a impressão de que nossa comunicação é assim cheia de atos falhos, de desejos mal expressos, de falsos entendimentos. Raros e miraculosos são os momentos em que, pragmaticamente, eu digo e peço sua ajuda para x, e x acontece.

São frequentes também os momentos em que parece tudo, no limite, um absurdo ainda maior, em que as conexões entre os interlocutores são tão sutis que intangíveis. Não se trata mais de falarmos de coisas diferentes porque as palavras estão vinculadas, de maneiras insondáveis, a crenças distintas. Resta bem pouco neste ponto-limite. É quase tudo abismo além da crença (nunca uma convicção) de que argumentar vale mais do que calar-se, não necessariamente para convencer alguém, mas pela ideia quase religiosa de que fazer algo, existir ativamente, produz melhores efeitos do que a inércia, ainda que as palavras e as coisas possam ser ilusões. Etimologicamente, abismo significa “sem fundo”. Neste ponto, prefiro tampar o precipício com a ilusão de que eu existo, produzir um fundo imaginário, que dificilmente será verdadeiro, uma crença que, apesar de tudo, me conforta mais que seguir em queda livre. Um instante de religiosidade. Fora isso, ninguém sabe em que vícios estão ancoradas as virtudes.

Que empresa contrata filósofos? – sobre a greve na USP

por Tony Monti

Estudei muito tempo na USP. Pretendo voltar. Sobre a greve de agora, não tenho nada específico a dizer. Estas notas são sobre o longo processo de disputas políticas que envolvem a universidade.

Há poucos dias, li na imprensa um artigo1 que julgava razoável comparar a universidade a uma empresa para desqualificar a greve. Não ignoro as consequências negativas de tantas greves nos últimos anos. Temo pela identidade dos alunos com a universidade, receio que uma ou duas gerações de alunos tenham se formado sem experimentar a universidade funcionando em velocidade cruzeiro. Só conhecem os semestres remendados por insuficiência de tempo letivo. No entanto, tratar a universidade como uma empresa é operar em uma lógica perversa e falaciosa, segundo a qual os interesses individuais podem por si regular os espaços interpessoais.

Comparar a universidade a uma empresa diz também sobre a disputa de poder que traz problemas àquele espaço. As disputas que correm em torno da USP têm direta correspondência com as disputas da sociedade de maneira ampla. Se tratamos a universidade como um corpo homogêneo, esquecemos que a universidade é um espaço político efervescente. A USP não é uma apenas2, ainda que tenha uma administração centralizada. Quem está lá dentro sabe que as unidades não se entendem como um todo universitário. Para a opinião pública, a USP são os discursos sobre ela que circulam fora dos muros do campus (ou dos campi), produzidos por pessoas interessadas em determinado rumo para a universidade.

No ano passado, fui professor de ensino médio de uma escola cara da cidade. Perguntei a meus 100 alunos que curso eles gostariam de cursar na universidade. Os cursos de Letras, História, Geografia, Ciências Sociais, Filosofia, Biologia, Educação Física, Matemática, Física e Química tiveram exatamente zero interessados. Ninguém, desse grupo da elite econômica da cidade, quer ser professor, por exemplo. Ensino não dá lucro. Pesquisa universitária não dá lucro. As humanidades e as artes raramente dão lucro. A disputa na universidade é também essa, entre as carreiras que formam dirigentes e funcionários para as empresas privadas e aquelas que não interessam. Na minha opinião, as humanidades e as artes, que têm uma inserção difícil no mundo do dinheiro, são importantes para diminuir a miséria intelectual humana, para ajudar a nos pensar como seres pensantes e como bestas que somos. Mas lucro, não, não é o nosso negócio.

Receio também que se crie uma dificuldade de comunicação ainda maior do que a que já existe entre as pessoas que se encaminham profissionalmente por um destes dois caminhos. Há mais ramificações do que apenas estas duas. Simplifiquei para não ajudar o adversário, que não abre mão de ninguém no seu exército que só respeita o interesse de si mesmo, sem negociação. Guerra sem política, ele prefere.

Quem são nossos interlocutores?

Quando acontece uma greve, as disputas locais de poder, internas à universidade, se reorganizam até que uma solução seja encontrada. Em geral, o resultado central da disputa se dá quando uma parte cede dinheiro e a outra volta a trabalhar.

Tenho a impressão de que as greves, além de sua estratégia setorial, de luta por benefícios aos trabalhadores ali na universidade, poderiam pensar em atingir o poder de seus interlocutores mais poderosos: o reitor e, em última análise, o governador. A política de destino de verbas e de criação de objetivos para a universidade não vai ser definida apenas dentro da universidade. Essas questões estão sendo definidas também nas eleições, também nas manifestações de rua e, no que me interessa aqui, na produção de discursos sobre a universidade, no espaço público. É o discurso fora dos muros da universidade que pode arranhar o governador, que pode convencer uma parcela um pouco maior da população sobre a utilidade pública da universidade, para além dos interesses privados e privatistas, e da produção de lucro e de funcionários para dar lucro.

Não é a USP inteira que está em greve. É a porção que se interessa pela construção de um espaço público, que se contrapõe à lógica exclusiva do lucro. É por isso que, tenho a impressão, a disputa política na universidade deve tentar convencer a população sobre os motivos de se estudar filosofia e literatura, porque sobre engenharia e administração os motivos já pululam nos meios de comunicação de maior circulação. Acredito que, ainda que situação improvável, deve-se tentar ocupar os jornais, as TVs e as revistas mais tradicionais, além daqueles espaços por onde essa gente rejeitada já circula, para produzir os discursos que esclareçam algo sobre as questões que vão além do aumento salarial. Assim, caminhando no improvável, um incômodo ao governador seria produzido pela via da opinião pública.

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1 O artigo a que me referi, escrito por um “filósofo”, que compara a universidade a uma empresa: Helio Schwartsman, na Folha

2 Um artigo que escrevi há alguns anos, em outra greve, sobre a conveniência, para a manutenção desigual do poder na universidade, de se oscilar entre a lógica de integrar ou separar da universidade na sociedade: USP – notas sobre uma esquizofrenia conveniente