Control Balt Delete [Tradução]

por Dave Pell

[Traduzido por Fabiana Jardim]

 Cinco reflexões sobre Baltimore organizadas em uma lista. Porque a última coisa que alguém precisa é outro artigo a respeito de Baltimore.

1) Eis algo que comumente se perde na narrativa geral: quando um bairro é esmagado por um ciclo interminável de violência e pobreza e falta de trabalho e escolas de desempenho baixo, as vítimas de fato são os moradores desses bairros. Quando professores e policiais e outros em quem precisamos confiar sentem-se esgotados e tomam atalhos, desistem ou se tornam maus, as vítimas de fato são os moradores que vivem nesses bairros. Quando jovens são mortos pela violência (de gangues, drogas, doméstica, policial), as vítimas de fato são os moradores desses bairros. Quando a mídia aparece, é ainda essa a verdade. E quando percepções públicas falsas são criadas, é ainda essa a verdade. E quando as vidas reais das pessoas e suas experiências cotidianas se transformam em teatro político, é ainda essa a verdade. E, siga-me ainda aqui, quando revoltas explodem nessas vizinhanças, as vítimas de fato são os moradores desses bairros. Percebe uma direção aqui? Acredite ou não, é uma direção muito frequentemente ignorada.

2) Eu dava aula no ensino médio [high school] em uma das cinco piores escolas no Brooklyn. Um pouco depois, escrevi uma dissertação de mestrado sobre o uso dos detectores de metal nas escolas. Retornei à minha antiga escola e apliquei uma enquete com estudantes, professores e pais sobre a segurança da escola. Aqui vai a resposta esmagadora que encontrei. Em primeiro lugar, toda criança na escola sabia que o detector de metal era falho e lhes oferecia pouca proteção. Os caminhões carregando a equipe e os equipamentos detectores de metal apareciam uma vez por semana, estacionavam bem em frente à escola e iam embora após o primeiro período [de aula]. Esta era a segurança extra que a escola conseguiu. Em segundo lugar, quase todas as crianças da escola ainda queriam o sistema funcionando. Eles sabiam que ele oferecia pouca segurança extra, mas o queriam ainda assim. Crianças vivendo em bairros violentos não querem menos polícia e menos proteção: elas querem mais de ambos.

3) Não simplifique demais o papel da polícia nessas situações. Devemos demandar justiça quando a polícia especificamente ou sistematicamente abusa das pessoas? Com certeza. Devemos agrupar todos os policiais e a profissão em geral nesse monte? Claro que não. Nós celebramos os caras quando eles correm para os edifícios de que todos estão fugindo. Eles têm um trabalho reconhecidamente duro pelo qual são selvagemente mal pagos. A sorte e os recursos tornam muitas de suas metas inalcançáveis. Sim, nós precisamos ser capazes de confiar neles, então quando eles quebram (ou destroem) esta confiança, justiça precisa ser feita. E sim, a polícia em nossos bairros mais violentos tem um trabalho difícil, ingrato e perigoso que com frequência falha em recompensar aqueles que exibem os melhores traços que poderíamos desejar. Ambas as coisas são verdadeiras. Isso é uma parte do que torna este um problema tão difícil de lidar e compreender.

4) Não ocorrem muitas prisões e condenações nos bairros pobres. Ocorrem poucas. A lista de assassinatos sem solução nos bairros difíceis é um fator chave que leva à desesperança, sentimentos de desimportância, e finalmente a mais “ausência de lei”. Se queremos de fato corresponder [ao significado da] frase Vidas negras importam, temos que identificar e punir aqueles que acabam com essas vidas. Para um panorama do tema e um olhar sobre as vítimas e policiais (bons e maus) em uma das áreas mais violentas, recomendo vividamente Ghettoside by Jill Leovy. Eis uma citação do livro: “Onde o sistema de justiça criminal falha em responder com vigor a ferimentos violentos e mortes, o homicídio se torna endêmico… O fracasso do sistema em capturar os assassinos efetivamente faz das vidas negras algo barato”.

5) Finalmente, um breve “causo” do passado, de quando eu ensinava literatura afro-americana naquele ensino médio no Brooklyn. Um dia, quando a turma discutia Native Son, de Richard Wright, tivemos uma estudante, vinda de Los Angeles, em visita. Durante a minha carreira de professor em Nova Iorque, essa foi a única vez em que eu não era a única pessoa branca na sala de aula. Havíamos chegado ao ponto, no romance, quando Bigger Thomas, a personagem central, havia cometido seu segundo assassinato e estava se escondendo da polícia num prédio de apartamentos, em Chicago. Comecei a aula com a seguinte questão: se você morasse no bairro em que Bigger Thomas estava se escondendo e você soubesse de sua localização, você contaria à polícia? A questão disparou um debate acalorado na sala de aula. Um terço dos estudantes disse que não entregaria Bigger Thomas para a polícia porque o sistema de justiça era muito enviesado e Bigger nunca teria um julgamento justo. Outro terço da sala explicou que se sentiriam obrigados a entrega-lo à polícia porque, independente das falhas do sistema de justiça, assassinato é moralmente errado. Os demais estudantes explicaram que eles também delatariam Bigger Thomas à polícia, mas por motivos mais concretos: eles não queriam ser as próximas vítimas. Uma pessoa violenta nas ruas simplesmente aumentava as chances de ser morto. Então perguntei aos alunos quantos deles haviam sido vítimas de um tiroteio ou conheciam alguém que fora assassinado. Todas as mãos da sala se levantaram. Ao final da aula, nossa visitante de Los Angeles se aproximou de minha mesa para me contar que sua turma avançada de inglês tinha acabado de ler a mesma novela. Ao longo das duas semanas que dedicaram ao livro, nem um único tópico que acabáramos de discutir apareceu. Ela disse que se eu perguntasse a mesma questão inicial para sua turma, todos os estudantes diriam que entregariam Bigger à polícia. Eles inclusive teriam pensado que a pergunta era uma piada. Todos esses acontecimentos – e a cobertura deles – podem ser percebidos de modo inteiramente diferente através de diferentes conjuntos de olhares. Esqueça [aquela história] de calçar o sapato dos outros por uma milha. Sequer enxergamos os mesmos significados nas palavras que lemos em uma página.

Original aqui.

Nota da tradutora: para quem quiser pensar as mesmas questões no contexto brasileiro, na Região Metropolitana de São Paulo – Jaime Amparo Alves. Necropolítica racial: a produção espacial da morte na cidade de São Paulo.

Anúncios

Junho de novo

por Rodrigo Linhares

Alguém já disse isso. No protesto do último dia 15, aqui em São Paulo, a empregada esteve junto com a patroa.

O ressentimento não está apenas entre os que percebem uma degradação relativa em suas condições materiais. Está também entre aqueles que, em movimento inverso, vindos de baixo, talvez já estejam topando com a cabeça no teto. Entre aqueles que se dão conta de que o ascenso efetivamente percorrido teve um fôlego muito mais curto do que aquilo que as expectativas antes prometiam. Entre os que descobriram que a TV de plasma é realmente legal, mas que esse item – o grande centro da vida familiar – acabou perdendo, com o tempo, a sua magia. Se rotinizou. Entre aqueles para quem o diploma de Administração de Empresas da faculdade de bairro, conseguido com esforço ascético e endividamento financeiro, não significou um salto para algo melhor que o atual emprego em telemarketing. Entre os que, guiando o carro recém-adquirido, decepcionam-se com a constatação de que os percursos não se tornaram assim tão mais agradáveis, já que quase todo mundo nas grandes cidades tem de passar pelos mesmos congestionamentos.

Umas pesquisas interessantes confirmaram que, na Avenida Paulista, no dia 15, os manifestantes eram mais ricos e mais brancos. Só que não é absurdo supor que, manejando um discurso fulminante de combate à corrupção (quem é que pode ser contra?), eles se irmanavam não apenas com os mais pobres e mais negros que, em menor número, também estavam ali, mas com a maioria silenciosa das periferias distantes que, pela TV, apenas acompanhava o protesto de casa.

Aprendemos, em junho de 2013, como é possível fazer com que uma única reivindicação se transforme em abrigo para todo tipo de desconforto. Agora é novamente o caso: uma “frente” anticorrupção que tem a capacidade de encaminhar, ao mesmo tempo, críticas vindas de diferentes perspectivas sem que, em algum momento, essas divergências tenham de se haver entre si. É uma multidão que está contra o ajuste, mas que, ao mesmo tempo, reclama da falta de velocidade e indecisão com que ele se realiza. Que está contra o corte de direitos trabalhistas, mas que também se queixa da alta do salário mínimo. Que denuncia o ritmo lento da diminuição das desigualdades, que exige mais recursos para o financiamento estudantil, mas que se enfurece com qualquer pequena concessão feita às custas de nossa rígida estrutura de privilégios.

Antes de se desfazer, vai causar estrago.

Ensaio de interpretação das motivações políticas da classe média

Por Daniel Pereira Andrade (professor de sociologia FGV-SP)

Quero fazer um exercício de interpretação da possível racionalidade estratégica que perpassa as atuais manifestações de ódio da classe média (ou ao menos de parte dela, especialmente, mas não exclusivamente, em São Paulo, como se pôde verificar na manifestação do dia 15 de março de 2015 e em outras amostras cotidianas que vêm ocorrendo ao menos desde as manifestações de junho de 2013 e quiçá antes). O fenômeno fundamental a ser compreendido é a conversão à direita dessa classe, já que ela não foi sempre majoritariamente adepta desse espectro político (para exemplificar, basta lembrar sua posição de centro-esquerda na redemocratização e também na primeira eleição de Lula). Antes de iniciar, apenas duas ressalvas. Primeiro, é importante lembrar que a classe média não é homogênea politicamente, sendo que ao menos 1/3 dela permanece alinhada com um projeto de esquerda, seja uma aspiração socialdemocrata, seja uma opção socialista mais radical. Segundo, que a compreensão dessas motivações como estratégia racional não implica uma concordância ou uma defesa da sua legitimidade (já adianto que a minha posição política é contrária).

Vamos lá:

1) A classe média possui alguns motivos concretos de queixa (ainda que as classes trabalhadoras possuam muitos mais). Três queixas, em especial: a) a precarização que cada vez mais atinge as profissões tradicionais de classe média. Exemplos são o aumento da competição em setores administrativos como resultado das modernas estratégias de gestão, a intensificação do trabalho sob a ameaça de demissão, o rebaixamento dos salários e benefícios e a conversão em pessoa jurídica de jornalistas, advogados, pessoal da saúde, etc.; b) o aumento do custo de vida, especialmente dos serviços, cujo consumo caracteriza a classe média e a distingue das classes trabalhadoras populares – a inflação média dos serviços está acima da média da inflação nos últimos anos; c) pagar duas vezes por serviços básicos, já que, além dos impostos para os serviços públicos, a classe média paga educação, saúde, segurança privadas. Combinando essas queixas, podemos dizer que, para manter o mesmo nível de vida, com acesso a serviços privados cada vez mais caros, a classe média precisa trabalhar cada vez mais em profissões cada vez mais precarizadas.

2) A decepção diante da opção petista e com a nova república. Após a redemocratização, a classe média se dividiu entre dois projetos: um neoliberal, representado por Collor e depois FHC, outro socialdemocrata, representado pelo PT. Depois da clara decepção com o neoliberalismo durante os anos de 1990, as fichas foram apostadas no PT como possibilidade de constituição de um Estado de Bem-Estar Social. Quando a classe média realizou que o PT não aumentou suficientemente os investimentos públicos, pois não rompeu com o compromisso neoliberal de manter os altos lucros do capital financeiro (lembrar da “carta ao povo brasileiro”), a decepção veio não apenas com o PT, mas com a república nova. Ficou claro que não havia alternativa política capaz de promover serviços públicos de qualidade, pois nem PT nem PSDB romperiam com interesses financeiros para investir em bem-estar social.

3) Mas, além disso, os programas de transferência de renda para os mais pobres, o aumento dos empregos formais até 2 salários mínimos e o aumento substancial do salário mínimo, que converteram boa parte dos subproletários em proletários e melhoraram as condições das classes trabalhadoras populares rebateu diretamente no bolso da classe média. Sobretudo o custo dos serviços não qualificados, braçais, dos quais a classe média se servia amplamente, subiram muito e os trabalhadores passaram a não topar qualquer tarefa pesada em troca de uma ninharia. A alta do salário mínimo em um emprego formal acarretou o aumento de custo do garçom, do lavador de prato, da faxineira, do segurança, do porteiro, da empregada doméstica, e, consequentemente, do restaurante, do condomínio, da escola particular, do plano de saúde, dos serviços domésticos etc. Enfim, a melhoria das classes trabalhadoras populares implicou aumento do custo de serviços para a classe consumidora de serviços por excelência, a classe média, reduzindo seu poder de compra.

4) O aumento da renda das classes trabalhadoras populares deu acesso a elas, ainda que de maneira desigual, a esferas de consumo e lazer que antes eram exclusivas da classe média. Tal fato promoveu não uma diluição dos signos de distinção social, mas uma tensão de convivência cotidiana entre classes com habitus diferentes, mas situadas agora em um mesmo espaço social e na mesma condição. Isso representava, além de um empobrecimento simbólico relativo, um aumento da tensão e de desprezo das classes médias em relação às populares.

5) Entrevendo no PT um partido que não apenas não melhorava os serviços públicos, mas ainda encarecia os serviços privados, especialmente os braçais, a classe média abandona o PT, mesmo reconhecendo que o partido havia tirado milhões de pessoas da miséria.

6) Diante do fato de que nem PSDB nem PT romperiam com o grande capital para viabilizar serviços públicos de qualidade, a classe média volta a adotar uma visão de mundo neoliberal. O raciocínio é simples: se tenho que pagar duas vezes pelos serviços essenciais (uma vez nos impostos públicos, outra vez nos privados), e já que nenhum partido vai oferecer serviços públicos de qualidade, então que paguemos apenas os serviços privados: que tudo seja privatizado.

7) A política neoliberal, em teoria, poderia acabar com as políticas de transferência de renda e programas sociais, sujeitando as classes trabalhadoras a uma condição ainda mais precária, abaixando assim o custo de seus serviços manuais e barateando os serviços privados. Não apenas a classe média não pagaria duas vezes pelos mesmos serviços, como ainda ela pagaria mais barato pelos serviços privados.

8) A posição política passa assim a oscilar entre adesão ao neoliberalismo mais extremo do PSDB e entre uma descrença total na política, confundindo crítica à política com crítica ao próprio Estado de bem-estar social.

9) A descrença na política se dá pois tanto PT como PSDB não foram capazes de melhorar a condição de vida das classes médias. O que, aliás, é um problema internacional, pois as classes médias dos países desenvolvidos, sob governos neoliberais de direita ou de esquerda, foram sendo continuamente precarizadas, com acesso pior a serviços públicos, a renda e a direitos sociais.

10) Diante da hegemonia do grande capital no neoliberalismo, antevendo essa hegemonia como politicamente insuperável ou se identificando com as classes mais abastadas como aspiração, o ódio da classe média se volta contra as classes trabalhadoras populares. Piorar suas condições de vida significa melhorar o acesso da classe média aos serviços. Além disso, elas são vistas como usurpadoras sem méritos do dinheiro de seus impostos. Não querendo pagar a conta do fim do crescimento econômico, a classe média quer impingir esta conta aos mais pobres, excluídos históricos da sociedade brasileira. Quer voltar a colocá-los no lugar “de onde nunca deveriam ter saído”. O conflito se desloca, portanto, da luta dos assalariados contra o capital para o conflito entre faixas de assalariados, ou entre classes gerenciais e liberais profissionais contra trabalhadores não ou pouco qualificados, especialmente trabalhadores braçais. Eis a razão do ódio instintivo de classe.

11) A truculência do combate, com a recusa de qualquer sentimento de solidariedade com os mais pobres e de qualquer argumento intelectual sobre as razões históricas da injustiça social, se explica pela colocação em competição das classes assalariadas (média x trabalhadora). Nesta situação, a classe média tende a direcionar toda a agressividade que vive cotidianamente nas situações de competição intensificada no trabalho, resultantes dos modernos métodos de gestão, contra as classes trabalhadoras ascendentes ou miseráveis. A competição, agora de classes, é encarada como uma luta darwiniana pela sobrevivência, não cabendo, nesse contexto, qualquer sentimento de piedade ou compaixão. Qualquer discurso de sensibilidade diante da injustiça social é execrado. Razões históricas da desigualdade não interessam. Intelectuais e professores que insistem sobre o assunto são tidos como inimigos e devem ser boicotados – no limite, são vistos como traidores de classe, comunistas irremíveis. O “panelaço” representa bem essa recusa à escuta. O que resta é apenas uma crua racionalidade econômica, que concebe o mundo como uma luta de todos contra todos no livre mercado e que pressupõe a-criticamente (de modo deliberado?) uma igualdade de condições, especialmente de disposições subjetivas, no ponto de partida da competição. Todas as relações humanas, inclusive a concepção de justiça, reduzem-se assim a frios cálculos de custo-benefício, investimento e retorno, na qual todos os demais valores humanos são descartados, esvaziando a discussão política de que fins devem guiar a sociedade. O resultado é a truculência de um combate onde o que está em jogo é mais do que uma vitória, é a sobrevivência.

12) Por fim, o ódio é canalizado contra o PT, que aglutina uma série de simbolismos. O PT é o partido cujos principais representantes, os presidentes eleitos, carregam a marca de classe (o analfabetismo de Lula, a falta de fluência na linguagem de Dilma), é visto como o partido que interfere de maneira indevida na competição ao tirar da classe média para dar aos pobres, que rompe com a “meritocracia” com sua política social, e que por isso é corrupto tanto na cobrança de impostos tidos como indevidos, quanto no seu mau emprego, além, claro, dos escândalos midiáticos. O PT encarna, assim, o grande inimigo, que quer colocar nas costas das classes médias (especialmente de São Paulo ou do sul) o peso de carregar economicamente o país.

Pacíficos e Educados

por Rodrigo Linhares

Não é apenas a questão da fragilidade das leis diante dos constrangimentos impostos pelos poderes – a tal da corrupção, como já é hábito papagaiar por aí. É pior que isso. Existe um tipo de material social em que a própria noção de Direito não encontra amparo, em que a engenharia institucional das leis não consegue aderir, não consegue se fixar.

É porque existem requisitos que não estão presentes. Nunca estiveram.

Acho que poucas vezes somos tão verdadeiramente aquilo que somos como quando, com orgulho, envolvidos na bandeira verde e amarela, confessamos que não existe continuidade entre eles – os outros – e nós. Que eles não são tão humanos como nós. Não merecem a vida como nós a merecemos. Brasilidade, pra mim, é isso. Uma coisa mal resolvida que, se entregue somente a si mesma, desanda em algo muito parecido com uma zona de tiro livre. Nós contra eles. Horizontes restritos. Cada um como referência exclusiva de si mesmo.

Acompanhei de casa o noticiário das manifestações de rua em oposição ao governo federal. São pacíficos e educados os que protestam, repetem os jornalistas. Há famílias inteiras. Velhos. Crianças. Alguns deles portam cartazes pedindo intervenção militar. Ainda assim, são pacíficos e educados.

Propor, à luz do dia, que o meu adversário político seja não apenas apeado do poder, mas preso, seviciado e morto, aparentemente, não faz de mim algo diverso de um sujeito pacífico e educado. Passa batido no relato jornalístico. Não causa estranheza.

Isso porque o princípio da identidade, um humano é igual a um humano (A = A), nunca fez muito sucesso em nossa lógica particular. E nisso surpreendemos um dos sentidos que presidiram nossa formação. Não é possível que A seja igual a A sem que, em um nível palpável, o conteúdo de um dos termos seja parente, amigo íntimo, ou de algum modo apaniguado ao conteúdo do outro. O país se urbanizou, as relações políticas são mais complexas – mas continuamos a atualizar esse sentido de exclusão. Diariamente. Cotidianamente. Em diversos aspectos.

Corrupção é, convenientemente, a do outro, sempre. O outro é quem deve ser punido. Militarmente até. Como vingança. Mas não como Justiça. Porque Justiça – que é afinal o que fundamenta, é o que escreve e reescreve o Direito – exige que A seja igual a A. Incondicionalmente, e não apenas quando me convém. É um requisito elementar.

E é aquilo que tanto nos faz falta.

lembrar o passado, resistir às demandas do presente, elaborar o luto

Por Fabiana Jardim

Sábado passado fomos ao Memorial da Resistência. Fomos, eu e uma colega da FEUSP, com nossas turmas de alunos da Pedagogia. Nos encontramos no metrô e fomos caminhando até o Memorial, que fica no antigo prédio do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops). Caminhar no centro de São Paulo por si só já nos remete às promessas da urbanização de liberdade e riqueza, já que o espaço ainda se encontra carregado da monumentalidade que dava corpo a tais promessas: uma brisa da concepção de cidade, liberdade e progresso ainda corre por ali, na beleza de ferro da estação da Luz, na boniteza do Parque, no estilo de alguns prédios… Nesse sentido (conforme aprendemos com as ótimas educadoras que nos monitoraram durante a visita), o prédio do Deops que  foi originalmente concebido como um armazém de café, ali às portas do trem, representa de forma também bastante concreta o bloqueio às referidas promessas: a manutenção da ordem política e social, num país com dois longos períodos autoritários, passa pela vigilância, repressão, tortura e morte de contingentes da população pensados e tratados como ameaça interna. O armazém convertido em repartição e prisão.

A nossa turma começou numa das salas em que é possível ouvir depoimentos de sobreviventes da ditadura civil-militar. É tocante e doloroso. Para mim, porém, não foi o momento de maior intensidade emocional: eles sobreviveram, afinal, o que significa mais do que preservar a própria vida – podem eles mesmos narrar e nos ajudar a conferir sentido ao passado de que estivemos (as gerações seguintes) ausentes. Como tenho lido muitos relatos de outros episódios de violência estatal, motivados mais por razões étnicas, me chamou a atenção a especificidade das violências estatais por motivos políticos, na medida em que o significado é completamente distinto e a solidariedade aparece como algo esperado e, muitas vezes, experimentado: um dos depoentes afirma “quem não é vocacionado para a felicidade não se torna militante”. E, com isso, faz vazar no presente esse desejo de uma vida outra, desejo tão potente que implica em arriscar tudo em favor de uma vida que mereça ser vivida.

A sala que em mim doeu mais foi aquela em homenagem aos mortos e desaparecidos. Da leitura de K. – Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski, e de Poder e Desaparecimento, da Pilar Calveiro, fica clara a importância do desaparecimento como tática de terror: a impossibilidade de sepultar os mortos, de ao mesmo tempo ritualizar o fim e iniciar o trabalho do luto; a expressão da feroz vontade de aniquilar o outro para além de seu corpo. Esta semana lia Judith Butler: a desumanização do Outro que torna possível tirar-lhe a vida em nome da defesa (de valores, de um coletivo nacional) do Um, acaba por complicar o reconhecimento do fim dessa(s) vida(s), postergando indefinidamente o luto. Em outras palavras: ficamos presos ao ciclo de violências por não nos permitirmos elaborar tal luto: há vidas que merecem ser vividas e choradas e há outras que não. Simples assim. Querer chorar a vida do Outro significa se identificar com ele, e isso é insuportável quando ele é tão Outro que nem chega mesmo a ser humano. Quem há de ousar levantar a voz em nome da possibilidade de chorá-lo?

Lembrei-me da fala de uma das depoentes de “Que bom te ver viva” (documentário de Lúcia Murat, de 1989): após a anistia, a pena se extingue, mas não a pecha de “terrorista” e “subversiva”. Alguns sobrevivem fisicamente, mas precisarão de muitas forças para continuar existindo socialmente. Lembrei-me também das manchetes desta semana, que davam notícia de que a França não sabia o que fazer com os corpos dos três terroristas mortos – essa própria perplexidade já indicadora da liminaridade de suas vidas e suas mortes nos interior do que definimos como humano. Felizmente – pois creio que o gesto é politicamente acertado – eles estão sendo enterrados em suas localidades de origem. Discretamente, sem alarde, devolvidos à privacidade das famílias e comunidades nas quais tinham nome próprio e não eram História. Para preservá-los dos riscos do ódio e da heroicização, em ao menos um dos casos se decidiu pelo anonimato. Mas ainda assim é simbolicamente muito importante que eles possam ter sido sepultados.

A pergunta feita pela Judith Butler é fundamental: qual o lugar do luto em nossa cultura política? Me parece que os lugares de memória, em que pela mediação do espaço podemos nos dar conta de compartilhar algo com o passado, podemos escutar a atualidade desse passado e somos incitados a procurar no presente seus ecos e suas marcas, são fundamentais na medida em que permitem nos apropriarmos de uma história comum. À diferença de outras formas de transmissão, os lugares de memória nos convocam de modo ainda mais intenso a assumirmos um lugar específico, que é o da testemunha – conforme sugerido por Jeanne-Marie Gagnebin: “Nesse sentido, uma ampliação do conceito de testemunha se torna necessária; testemunha não seria somente aquele que viu com seus próprios olhos, o histor de Heródoto, a testemunha direta. Testemunha também seria aquele que não vai embora, que consegue ouvir a narração insuportável do outro e que aceita que suas palavras levem adiante, como num revezamento, a história do outro: não por culpabilidade ou por  compaixão, mas porque somente a transmissão simbólica, assumida apesar e por causa do sofrimento indizível, somente essa retomada reflexiva do passado pode nos ajudar a não repeti-lo infinitamente, mas a ousar esboçar outra história, a inventar o presente” (Lembrar, escrever, esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006: p.57. Destaques meus).

NÃO VAI TER AJUSTE

por Rodrigo Linhares

O que se depreende da leitura do noticiário econômico – de todo ele, mas, em especial, dos escritos e dos ditos dos economistas não-convencionais – é que não há alternativa. Vai ter ajuste fiscal. E não que houvesse surgido, recentemente, algo como um consenso entre os analistas. Pelo contrário, liberais e heterodoxos continuam a divergir e a duelar. Mas ainda que os pressupostos teóricos de um lado e de outro permaneçam em conflito, com razões muito boas, aqui e ali, ao gosto do cliente, a capacidade de cada uma das propostas em se formular de modo crível e consistente não tem sido a mesma.

A situação dos cofres do Tesouro é de lástima. Exceto para os que acham que isso não é problema, mas solução (“romper com a banca por uma verdadeira independência nacional”), quase todo mundo concorda, mesmo que atribuindo a isso um grau de importância variado, que há sim um desconforto considerável. A nova equipe econômica entra com um receituário cujo apelo é enorme, e não apenas porque pacifica o ânimo dos credores (o que, por si só, é muito relevante), mas porque estabelece uma ligação direta com a experiência que qualquer indivíduo têm do mundo das finanças. “Estourou o mês? O próximo será de mais horas extras, com menos supermercado.”

Logo de início, uma proposta de recuperação fiscal alternativa teria de se virar com a dificuldade de uma explicação que contraria o senso comum da vida econômica cotidiana.

Mas deixemos em suspenso, como se indiferente fossem, as pressões (enormes) do mercado financeiro sobre as economias nacionais e o apelo difuso (difícil de ser quantificado, mas certamente não desprezível) de uma certa lógica de contenção – sem deixar de mencionar como é fascinante que, em uma certa hegemonia de pensamento, tanto o vendedor ambulante de relógios como o presidente do Citibank tenham as mesmas opiniões a respeito da condução dos negócios do Estado.

Ou melhor, consideremos em hipótese uma situação diversa. A partir de agora, banqueiros e todo o resto do mundo que tem contas a pagar estão convencidos da necessidade de uma proposta alternativa de recuperação fiscal: é com mais desenvolvimento que se ajeita as contas públicas. Todo mundo agora concorda. E quem fala em desenvolvimento fala em política industrial. Em uma política capaz de fomentar um tal dinamismo no mercado interno que este projeta sua energia para fora, inaugurando uma inserção não submissa do país (leia-se “uma inserção outra que não a de um simples exportador de commodities”) nas cadeias produtivas mundiais.

Mas com o cofre roto? Como?

Não vale dizer que as dificuldades estão na existência de um complô empresarial, uma greve de investimentos contra um governo que faz tudo direitinho mas erra na cor vermelha da gravata. Melhor se perguntar quais foram exatamente as barbeiragens cometidas até agora.

Também não vale colocar toda a culpa no clima seco e na persistência da crise mundial.

Uma política industrial efetiva… Como? Articulando com os outros BRICS. Hmmm, demora quanto tempo a sedimentação dessa tal contra-hegemonia mundial? Porque tempo, aqui pra nós, conta. Muito. Será que a Rússia sobrevive até lá? Escaparemos ilesos, os emergentes, à declaração de aumento dos juros a ser feita pelo Federal Reserve?

No debate real, porém, as vozes dissonantes parecem reduzidas à defesa de artigos de fé, de generalidades como “é preciso redobrar a aposta e defender o programa que foi vencedor nas urnas” ou “o Estado, como afirma Keynes, tem que ser o agente que antecipa o investimento”. À pergunta simples de o que fariam, os analistas ditos não-convencionais respondem dizendo apenas o que não fariam, pontuando tudo com bravatas voluntaristas do tipo “importa não submeter esta escolha à vontade dos mercados”. Aparentemente não é preciso comprometer-se com um olhar projetivo, preocupar-se com o detalhe – o combate entre pressupostos teóricos é o que importa, e nesse nós já somos vencedores. “É mesmo?” “É sim, olha o tamanho da desolação na Grécia. Foi o que dissemos que ocorreria…” Um tipo estranho de vitória.

Ao que parece, estamos de volta às vésperas da Copa do Mundo.

Meses atrás, utilizávamos o slogan NÃO VAI TER COPA como um marcador que condensava muitas coisas – nós não esqueceríamos das famílias que tiveram suas casas desapropriadas pelas obras e dos mortos nos canteiros, não calaríamos diante do endurecimento da polícia no trato com os manifestantes e das dúvidas em relação à probidade dos negócios.

Mas sabíamos que haveria Copa. Que estávamos derrotados. Que éramos residuais diante das dimensões de um evento mundial. (De fato, fomos levados de roldão. E quando aconteceu, ninguém se surpreendeu realmente.) Mas continuaríamos batendo o pé, fazendo birra. Debochar do inegociável tem seu charme. Era uma ocasião em que podíamos nos dar o luxo de uma irresponsabilidade completa. NÃO VAI TER COPA!

Voltamos ao mesmo lugar. Como se ostentássemos agora, impresso em vermelho, o cartaz do NÃO VAI TER AJUSTE. Porque aparentemente nos desresponsabilizamos da exigência de se formular uma alternativa clara, crível e detalhada. E talvez, não sem algum prazer, estejamos a antecipar o dia em que poderemos finalmente dizer que o ajuste veio, foi feio e não deu certo. Tudo conforme o esperado. Conforme o que havíamos assinalado que aconteceria. Não havíamos dito?

Uma pena, porque o espaço de negociação, ainda que não esteja claro, talvez exista. Essa arrogância é que não ajuda em nada.

Um palpite sobre internet e política

por Tony Monti

Escutei nas últimas semanas mais de uma pessoa argumentar que, graças às novas tecnologias. a Dilma, e não o Aécio, se elegeu. O argumento se baseia na ideia de que, não fosse a liberdade da internet (que teria possibilitado a existência de meios alternativos de informação), Globo, Veja e jornais afins teriam pautado as eleições em um discurso unívoco. Pode ser verdade. Ao que parece, o uso que se fez da internet teve mesmo papel significativo no resultado das eleições.

Não vejo, no entanto, motivo para supor que a internet favoreça determinado discurso, determinadas ideias ou ideologias. Nem mesmo me parece que a internet é mais livre. Usuários do Facebook e do Google têm seus dados vasculhados sem parar, seus hábitos mapeados para que, ao consumirem, reproduzam as ordens sociais do interesse destes grandes conglomerados. Antes, a GM e a Philips, agora o Google e o Facebook. Um pequeno deslocamento do capital, sem visíveis alterações nos índices de desigualdade entre as pessoas.

A existência da internet não torna o mundo mais livre, nem menos, do que o mundo de antes. Ou mais, mas também menos. A internet é agora parte do chão em que pisamos, do solo histórico, do horizonte de possibilidades para as transformações. Ignorar a internet e as redes sociais é ignorar uma parte grande do momento presente, é jogar sem conhecer as regras. Mas não vejo na internet uma via melhor do que as vias anteriores, em outros momentos da história. Ela é inevitável, incontornável, mas não joga necessariamente do nosso lado.

PT possível

por Rodrigo Linhares

Em seus extremos, as correntes de opinião do PT repartem-se entre o olor do purismo e o pragmatismo desencantado. Mais à esquerda, entre os puristas, onde existem muitas e inflamadas razões, o senso de oportunidade é sofrível. À direita, em contraposição, o desapego em relação a princípios rígidos tem resultado em um senso mais apurado de sobrevivência.

Como que a demonstrar a validade desse esquema, depois do choque da indicação da nova equipe econômica do governo, alguns já dizem em voz alta: “rejeitamos as soluções baseadas na austeridade fiscal, o problema do superávit primário deve ser encaminhado através da renegociação da dívida”.

Claro, onde a razão é tudo e a oportunidade é nada, o melhor momento é sempre o agora.

Na minha ingenuidade econômica, no entanto, penso que as chances de sucesso na abertura de negociações para a reestruturação de uma dívida podem ser radicalmente diferentes segundo as posições relativas de devedores e credores. Uma coisa é tentar arrancar aos credores concessões e vantagens – ou, falando com franqueza, afrontar o achincalhamento a que nos submetem – apresentando como pressuposto uma contabilidade confiável. Outra bem diversa é tentar fazer isso agora. Imagino essa proposição tomando corpo, começando a ser repetida por jornalistas, parlamentares, pessoas no governo… Ministros são nomeados com esse objetivo. Ato contínuo: rebaixamento da nota do país nas agências de classificação de risco, os juros dos títulos da dívida em disparada. E, no final, estaremos piores que antes.

De outro lado, e talvez seja preciso dizer isso com todas as palavras, o objetivo político de redução das desigualdades, colocado momentaneamente entre parênteses, desacelerado (ainda mais…), deixado em estado latente e menos manifesto, é o elemento que dá sentido à história do PT. É o elemento que justifica a sua existência. É o grão de areia na engrenagem, o resíduo que estabelece algum descompasso na recorrente e desconfortável semelhança formal entre políticas econômicas convencionais e políticas econômicas ainda possíveis para a esquerda – semelhança denunciada equivocadamente pela extrema esquerda como a equivalência pura, intercambialidade entre a direita “que faz o que faz por gosto” e a esquerda “que faz o mesmo que a direita, mas afetando contrariedade”.

É preciso que isso fique claro – e o futuro ministro, Joaquim Levy, parece ter apontado nessa direção – que as políticas de ajuste fiscal não compõem um sádico fim em si mesmo. A pacificação que se espera com o seu emprego – do clima de negócios do país, do debate público – é um pressuposto para o enfrentamento inteligente de nossas questões. Valem enquanto viabilizadoras do projeto de diminuição das desigualdades.

Ou então é melhor voltar a fazer oposição.

Diversão pós-eleitoral

por Rodrigo Linhares

Acompanho por alto os debates a respeito da regulação da mídia e a respeito da reforma política – os dois temas que têm animado a militância do PT. Na forma como eles se apresentam – excessivamente simplificados, guardando em si um tudo ou nada – parece que vêm, mais que pra qualquer outra coisa, pra cumprir mesmo essa função de dar ânimo ao que sobrou da militância do partido.

É estranho, mas o PT, mesmo no governo, continua discursando como se continuasse a ser oposição. Em parte porque, manejando através de forças que lhe são sempre superiores, sua sensibilidade oposicionista não encontrou ocasião para mudar. Mas também porque, me parece, o pouco de capilaridade que ainda mantém na sociedade civil – e que, em uma campanha eleitoral, pode ser importante, até decisivo – precisa ser acalentado frequentemente com balinhas e bombons, com o sonho de um processo de transformação em ritmo acelerado. Como há sempre a cobrança da tal da “guinada à esquerda” do PT, esse oposicionismo discursivo acaba funcionando de modo a contemporizar expectativas sem ter de desmenti-las. “Espera mais um pouquinho que já chega, já vem chegando…”

A condução da política econômica e de outros assuntos de importância para o governo, e que não suportam esse tonalidade de discurso, é isolada com uma fita. O resto é o refestelo da moçada. E eu não acho que, em tempos bicudos, esse tipo de cautela seja criticável.

Os próximos anos serão difíceis. A gestão da economia terá de se desdobrar na tarefa de apresentar credenciais atraentes para o investimento produtivo, o investimento em intensificação do capital e, ao mesmo tempo, sustentar o gasto com os programas sociais, manter os bons indicadores de emprego e aquilo que temos acumulado em direitos trabalhistas.

As exigências são quase inconciliáveis. Não há um ponto mediano de que alguém possa dizer – “oh, aqui está a virtude”. E o militante emocional não sobrevive bem num contexto desses – dramático, mas sem brilho. Precisa que o seu voluntarismo corra livremente em alguma direção. Com velocidade e grandiloquência. Os dois temas, regulação da mídia e reforma política, vêm a calhar.

Mas, convenhamos, a questão da imprensa ocupa uma centralidade às vezes abusiva. A revista Veja quase que prega apenas aos já convertidos. Quantos leem os editoriais do Estadão? Ao mesmo tempo, convenhamos mais uma vez, muito do clientelismo televisivo Brasil adentro está conosco, é base aliada. Claro, com todos os problemas de um apoio que, como o do Sarney, usa o adesivo do 13 no casaco e, na urna, não consegue evitar o atraiçoamento. Tratar com esses caras deve ser quase pior do que tratar com uma oposição aberta.

Assembléia Constituinte exclusiva para a reforma política? Com os mesmos eleitores que fizeram esse Congresso Nacional que estréia no dia 1° de janeiro?

É um péssimo momento para se pensar em reformas. Os satisfeitos não estão mais tão satisfeitos assim e os insatisfeitos estão furiosos, sonhando em abrir a caixa de pandora dos nossos terrores nacionais fundantes – obscurantismo e sangue. Por isso, quando ouço a Dilma falar em reforma política, ou algum outro dirigente do PT falar em regulação das comunicações (que disso a Dilma não fala) logo penso: “tá bem, já entendi, agora vou brincar aqui no meu canto sem atrapalhar mais ninguém”. Não vejo nisso um chamado às armas. Pelo contrário.

21sp – entrevistas – Tony Monti

Tony Monti é autor dos livros de contos eXato acidente o menino da rosa, e do infantil Três coisas que eu gostofinalista do Prêmio Jabuti 2014.

[Desta vez, as perguntas foram enviadas por Carolina Peters, a quem a 21sp agradece.]

1. Tony, há muita conversa sobre o fim do papel e das edições impressas. Mas do ponto de vista da produção literária, o que a popularização das plataformas de leitura eletrônicas pode representar?

 Antes de tudo, devo dizer que não costumo ver a tecnologia como sujeito de mudanças (políticas) importantes. As mudanças importantes se dão nos modos de pensar.

 Acredito que o acesso a muitos livros o tempo todo, num tablet, em vez de poucos, numa estante, faz com que a leitura fique mais caótica, que as pessoas leiam muita coisa ao mesmo tempo, em fragmentos, o que não é bom nem ruim, apenas diferente. Outra consequência, talvez a mais importante, é que as pessoas não poderão mais apreciar as estantes das outras quando se visitam.

 Eu não levo essas mudanças intencionalmente para minha produção literária, mas talvez tenha incorporado essa dinâmica de leitura em estilhaços ao que escrevo. Talvez eu não consiga escrever uma história longa nunca mais, porque já não leio livros do modo como lia antes. Mesmo minhas narrativas curtas têm mais de um cenário, mais de uma trama, o que pode um dia ser lido como um efeito dos meus hábitos pouco lineares de leitura.

 2. O baixo índice de leitura entre os brasileiros é uma questão recorrente, apesar do crescimento nas vendas de livros e expansão do mercado editorial. Pensando além da literatura, algumas exposições que vieram recentemente ao Brasil atraíram um público fora dos padrões anteriores, com muita repercussão espontânea nas redes sociais. Entre críticos e estudiosos houve tanto quem vibrasse com o interesse crescente da população pela arte; como quem menosprezasse uma relação apontada como consumo mecânico, sem reflexão. Como você lê esse movimento? (Consumir literatura não é ler, mas é o quê?)

 Acredito que a fruição da arte é transformada pela possibilidade de pensar arte. Em uma população pouco acostumada ao pensamento abstrato, a fazer hipóteses, a entender o desejo do outro como um desejo diferente do seu, a se ver e se entender em grupos maiores do que os que os olhos podem alcançar, a fruição torna-se mesmo fenômeno de massa, comércio, livro, exposição e sabonete.

 Na minha opinião, ter leitores é melhor que não ter; ter exposições é melhor que não ter. Mas isto é olhar para arte como um objeto de coleção, olhar para a leitura como um acúmulo neutro. A possibilidade da arte de ser transformadora é que ela venha acompanhada de reflexão sobre a sociedade e sobre os desejos mais essencialmente humanos. Algo se aprende, inevitavelmente, quando se sai de casa e vai ver Monet. Mas o raciocínio do colecionador está muito aquém do raciocínio do indivíduo que, em vez de colocar o quadro na parede, anda com ele na algibeira.